Final de Copa do Mundo que mudou jeito de jogar futebol e teve erro histórico faz 50 anos

Francisco De Laurentiis, do ESPN.com.br
Central Press/Getty Images
Bobby Moore Levanta Taça Jules Rimet Copa do Mundo Inglaterra 30/07/1966
Bobby Moore levanta a taça Jules Rimet após a vitória da Inglaterra em 1966

Neste sábado, a polêmica final da Copa do Mundo de 1966 faz 50 anos.

Uma partida histórica, vencida por 4 a 2 pela Inglaterra sobre a Alemanha Ocidental, com direito a um dos maiores erros de arbitragem de todos os tempos - e que transformou um bandeirinha num misto de herói e vilão lembrado até hoje.

Foi também uma partida simbólica por ter representado o ponto de mutação na maneira de jogar futebol nas próximas décadas, celebrizando o esquema 4-4-2.

O MAIOR ERRO DE TODOS OS TEMPOS?

AFP/Getty Images
Inglaterra Gol Hurst Alemanha Final Copa do Mundo 1966 30/07/1966
O famoso lance da final: entrou ou não?

A Inglaterra finalista daquele Mundial jogava em casa e possuía um excelente time, com destaques para o goleiro Gordon Banks, o zagueiro Bobby Moore, o meia Bobby Charlton e o atacante Geoff Hurst, que seria o nome do jogo.

A Alemanha Ocidental não ficava atrás, com um timaço que alinhava lendas como Franz Beckenbauer, Wolfgang Overath, Helmut Haller e Uwe Seeler, entre outros grandes personagens da história do futebol germânico.

No estádio de Wembley lotado por 96.924, as duas seleções não decepcionaram os torcedores e fizeram uma partidaça, que terminou em 2 a 2 no tempo regulamentar: Haller e Weber marcaram para os alemães, Hurst e Peters para os ingleses.

Hulton Archive/Getty Images
Hurst Gol Polemico Inglaterra Alemanha Final Copa do Mundo 30/07/1966
O exato momento do chute de Hurst na prorrogação

Na prorrogação, porém, a decisão acabaria manchada por um erro terrível do bandeirinha soviético Tofiq Bahramov. Aos 11 minutos do primeiro tempo extra, Hurst chutou meio desequilibrado, a bola bateu no travessão, em cima da linha e saiu em seguida.

O árbitro suíço Gottfried Dienst, na dúvida, consultou Bahramov, que cravou: a bola entrou. Sob muitos protestos, o juiz validou o gol, que acabou com o psicológico dos alemães. Hurst ainda marcaria de novo no último lance, ratificando o título do English Team.

Desde então, há cinco décadas se discute se aquela bola do terceiro gol de fato entrou.

Cattani/Fox Photos/Getty Images
Hurst Comemora Gol Polemico Inglaterra Alemanha Final Copa do Mundo 30/07/1966
Hurst (esq) comemora o gol polêmico após o bandeirinha Tofiq Bahramov validá-lo

Diversas simulações foram realizadas ao longo destes 50 anos, usando toda sorte de tecnologias de tira-teima. Praticamente todas apontaram que a redonda não cruzou inteiramente a linha, enquanto uma famosa, realizada pelo canal de TV inglês Sky Sports, garante que ela entrou. Uma dúvida para a qual nunca teremos a resposta.

Questionado sobre o tema, em entrevista ao site da Fifa, Hurst foi enfático: "A bola entrou mais de um metro. Ponto final", disse o ex-atacante de West Ham, Stoke City e West Bromwich, que foi condecorado Sir após a Copa do Mundo de 1966.

O fato é que o bandeirinha Tofiq Bahramov virou uma verdadeira celebridade na Grã-Bretanha. Até hoje, nas partidas da seleção inglesa, podem ser encontradas faixas agradecendo o auxiliar pela decisão favorável aos "Leões". Já os alemães, que se referem a Bahramov como "o bandeirinha russo", apesar dele ter nascido no Azerbaijão, o consideram um dos maiores vilões da história do futebol germânico.

Joost Evers/Anefo
Tofiq Bahramov
Tofiq Bahramov, o famoso 'bandeirinha russo'

Deste então, o lance em que existe dúvida se a bola entrou ou não no gol é chamado na Alemanha de Wembley-Tor, em referência ao ocorrido em Londres em 1966.

Curiosamente, Tofiq Bahramov é considerado um grande personagem do futebol em seu país, e o Estádio Nacional de Baku, foi rebatizado com seu nome depois de sua morte, em 1993. Uma honra, visto que anteriormente a arena levava o nome de Vladimir Lenin.

Robert Prezioso/Getty Images for BEGOC
Estadio Tofiq Bahramov Baku 19/06/2015
O estádio Tofiq Bahramov, em Baku, capital do Azerbaijão: homenagem ao bandeirinha

UM NOVO JEITO DE JOGAR

A vitória inglesa em 1966 sepultou esquemas antigos de jogo, como o WM, usado pela maioria das seleções desde a criação do futebol, o 3-2-5 da Hungria de Puskas, nos anos 50, e do Real Madrid de Di Stefano, nos anos 60, além do 4-2-4 do Brasil bicampeão do mundo em 1958 e 1962 (que ainda teria seu último suspiro em 1970).

Robert Stiggins/Express/Getty Images
Alf Ramsey Inglaterra Chelsea Amistoso 29/09/1965
Alf Ramsey, o criador do 4-4-2 'diamante'

Depois do triunfo do English Team em Wembley, o 4-4-2 passou a ser tendência, sendo usado por várias seleções campeãs do mundo, como a Itália de 1982 e 2006 e o Brasil de 1994, e também da Euro, como a França de 1984 e a Holanda de 1988.

Além disso, foi o responsável pela conquista de vários clubes britânicos na Liga dos Campeões, como o Nottingham Forest de Brian Clough (bi em 1978/79 e 1979/80), mas também o Celtic, em 1966/67, e o Liverpool, em 1976/77, 1977/78 e 1980/81.

O esquema foi criado pelo técnico inglês Alf Ramsey, que baseava seu jogo em um meio de campo dinâmico e que se caracterizava mais pelo esforço do que pela habilidade.

Hulton Archive/Getty Images
Inglaterra Posada Taça Jules Rimet Copa do Mundo 1966
Inglaterra campeã posa com a taça Jules Rimet

Esse meio é frequentemente chamado de "diamante", pelo fato de seu desenho lembrar o formato da pedra preciosa. Há o primeiro volante, com função primordial de marcação, um meia pela esquerda e outro pela direita e o "camisa 10", o armador de jogadas, que teve no craque Bobby Charlton seu grande nome.

Ele completava o time com uma linha de quatro atrás, em uma época na qual os laterais raramente subiam ao ataque, e uma dupla de ataque na qual havia o "matador", mais fixo na área e goleador, e o "segundo atacante", caracterizado pela velocidade e por jogar pelas pontas, tendo como função principal dar assistências para o parceiro de frente marcar.

O 4-4-2 seria confrontado anos depois pelo "futebol total" da Holanda de Rinus Michels e do Ajax, e também seria responsável por sei "pai" de variações como o 4-3-3, usado até hoje, e o 3-5-2, esquema que deu ao Brasil a Copa em 2002, mas que vinha em desuso até ressurgir com a Itália e País de Gales na última edição da Eurocopa.

ANÁLISE TÁTICA

"O esquema 4-4-2 com o formado em losango (ou diamante) deixou de ser 'febre' entre os treinadores já há alguns anos. Atualmente, são poucas equipes que apostam nele. O futebol argentino talvez seja quem mais mantenha essa ideia. Até mesmo o 'segundo atacante', que se originou nessa referência posicional, está em baixa e teve que se reinventar pelos lados ou como um 9 mais móvel", explica Renato Rodrigues, Coordenador e Analista de Desempenho do DataESPN, da ESPN Brasil.

EFE/EPA/TIM KEETON
Leicester Comemora Gol Swansea Campeonato Ingles 24/04/2016
Campeão Leicester usa o 4-4-2

"Talvez o grande motivo para isso é o retorno dos pontas (ou extremos). Apesar de ocupar bem a faixa central do campo, o 4-4-2 nestes moldes perde muito na questão amplitude, que nada mais é que atuar com jogadores bem rentes à linha lateral para abrir o campo e tentar aumentar a área de atuação da sua equipe no momento ofensivo. Alguns treinadores, quando usam este esquema, usam os laterais como estas peças para aumentar o campo", prossegue Rodrigues.

"O 4-4-2 mais usado atualmente é o com duas linhas de quatro, que é o caso do Leicester e do Manchester United campeão de tudo com Alex Ferguson. Neste caso, os meias jogam mais abertos, tanto os mais criativos quanto os mais agudos. Este sistema hoje é muito colocado em prática na defesa, principalmente pelo fato de as equipes variarem muito essa questão posicional com ou sem a posse de bola", conclui.

Comentários

Final de Copa do Mundo que mudou jeito de jogar futebol e teve erro histórico faz 50 anos

COMENTÁRIOS

Use a Conta do Facebook para adicionar um comentário no Facebook Termos de usoe Politica de Privacidade. Seu nome no Facebook, foto e outras informações que você tornou públicas no Facebook aparecerão em seu cometário e poderão ser usadas em uma das plataformas da ESPN. Saiba Mais.