Dossiê, final com a Juve e estrela vermelha: Palmeiras celebra 65 anos da Copa Rio

ESPN.com.br com agência Gazeta Press
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Os campeões se reencontram no aniversário de 50 anos da Copa Rio, em 2001
Os campeões se reencontram no aniversário de 50 anos da Copa Rio, em 2001

O Palmeiras celebra nesta sexta-feira 65 anos daquele que é considerado o título mais importante da própria história: a Copa Rio. O torneio criado pela CBD (Confederação Brasileira de Desportos) teve a participação oito equipes, sendo seis estrangeiras, e foi decidido em dois jogos contra Juventus, da Itália, no Maracanã.

O time venceu o primeiro duelo por 1 a 0 e empatou o seguinte por 2 a 2, no Rio de Janeiro. A formação que ergueu a taça foi escalada pelo técnico Ventura Cambón assim: Fábio; Salvador, Juvenal e Túlio; Luiz Villa e Dema; Lima, León (Canhotinho), Liminha, Jair Rosa Pinto e Rodrigues. 

Celebrado como um título mundial desde então pelos palmeirenses, o clube alviverde chegou a incluir no texto do estatuto a permissão para que uma estrela vermelha fosse estampada acima do brasão alviverde como honraria à taça.

O título de 1951 é citado no Capítulo X do documento, que versa sobre os símbolos e os uniformes. O artigo 139 estabelece os parâmetros para a confecção da bandeira e prevê a colocação de 'uma estrela na cor vermelha, alusiva à conquista da Copa Rio'.

Abaixo da estrela vermelha, de forma geométrica e proporcional, o estatuto prevê a colocação 'de estrelas na cor branca, tantas, quantos forem os títulos nacionais conquistados' - a equipe tem 11 nacionais - sendo quatro Brasileiros, duas Taças do Brasil, dois Torneios Roberto Gomes Pedrosa e três Copas do Brasil.

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Em busca de reconhecimento da entidade máxima do futebol, o Palmeiras montou um dossiê em 2006, no qual afirmava que o torneio tornou-se uma realidade graças ao engenheiro italiano Ottorino Barassi, braço direito do então presidente da Fifa, Jules Rimet - o que ao modo de ver do clube deu à disputa um caráter oficial.

O dossiê foi produzido com apoio de Roberto Frizzo, ex-vice do clube na gestão de Arnaldo Tirone. O arquivo foi publicado em quatro línguas e conta com depoimentos de ex-jogadores que estiveram em campo no torneio. Entre eles se destacam o palmeirense Jair Rosa Pinto, o italiano e ídolo da Juventus, Giampiero Boniperti, e o brasileiro Yeso Amalfi, que defendia o francês Nice em 1951.

O documento mostra que a disputa de um campeonato mundial de clubes era um sonho antigo de Jules Rimet. A intenção do primeiro mandatário da história da Fifa era organizar o torneio de estreia em 1939, mas a eclosão da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) adiou os planos em 12 anos. Coube a Barassi a tarefa de concretizar as ambições de Rimet.

Barassi integrava desde 1913 o quadro de árbitros do futebol italiano. Antes de se envolver com a Copa Rio, o dirigente trabalhou como presidente do Comitê Organizador da Copa do Mundo de 1934 e chefiou a Federação Italiana de Futebol. A confiança que a Fifa tinha em Barassi era tamanha que ele foi o escolhido para proteger a taça Jules Rimet durante a Segunda Guerra Mundial.

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A COPA RIO

Após o conflito bélico, Barassi foi um dos organizadores que deu vida à Copa do Mundo de 1950. O torneio, disputado no Brasil, foi um sucesso de público e renda e mostrou à Fifa que o país era a melhor indicação para sediar a Copa Rio. Com o aval da entidade - e a presença de Barassi -, um Comitê Executivo foi formado e decidiu que a competição seria disputada entre junho e julho de 1951, com sedes em São Paulo e no Rio.

O plano inicial era contar com 16 equipes, mas as dificuldades logísticas e o alto custo de viagens para a América do Sul levaram a organização a convidar oito clubes. Como não havia um ranking oficial, as equipes foram escolhidas de acordo com sua capacidade técnica, fossem elas campeãs nacionais ou servissem como base para as seleções de seus respectivos países.

Rodolphe William Seeldrayers, vice-presidente da Fifa, se empenhou pessoalmente na tarefa de conseguir a liberação do Estrela Vermelha de Belgrado para o torneio. Base da seleção da antiga Iugoslávia, vice-campeã olímpica em Londres 1948, a equipe fazia parte do bloco soviético que não participou das eliminatórias à Copa do Mundo de 1950. A confirmação de que o time jogaria a Copa Rio, no início Guerra Fria, marcou o pioneirismo na integração de outros países socialistas europeus em campeonatos de seleções ou clubes.

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Time do Palmeiras que ganhou a Copa Rio, em 1951
Time do Palmeiras que ganhou a Copa Rio, em 1951

Por decisão da Fifa e da CBD, a bola escolhida para a Copa Rio foi a Superball, que havia sido utilizada na Copa do Mundo de 1950. Em São Paulo, a Federação Paulista de Futebol interrompeu o Campeonato Paulista para que o Palmeiras participasse do campeonato mundial. A mesma medida foi adotada pela Federação Uruguaia de Futebol, que paralisou o torneio local para a ida do Nacional ao Rio de Janeiro.

O Palmeiras se tornaria campeão mundial no dia 22 de julho de 1951, após empatar por 2 a 2 com a Juventus, no Maracanã. O sucesso da Copa Rio foi tamanho que Barassi se inspirou nela para criar, em 1955, a primeira versão da atual Liga dos Campeões da Europa, batizada de Copa dos Clubes Campeões da Europa.

Para Barassi, a Copa Rio foi o 'primeiro grande encontro de clubes campeões da história do futebol', conforme declaração que o jornal italiano "TuttoSport" reproduziu na época. Giampiero Boniperti, um dos maiores atletas que já passaram pela Juventus, atuou contra o Palmeiras nos dois jogos da final e confirmou a importância da competição em nível mundial.

"Acredito que foi realmente um torneio que se propôs a ser mundial, com os maiores clubes do mundo. Lembramos dessa Copa Rio com grande paixão e estima. Nós fizemos uma campanha extraordinária com a minha Juventus", disse o italiano, convocado para as Copas do Mundo de 1950 e 1954, em depoimento ao dossiê palmeirense.

Yeso Amalfi, considerado um pioneiro no Brasil por ter atuado por diversos clubes europeus, seguiu na mesma linha ao recordar a experiência que teve vestindo as cores do Nice. "A Copa Rio foi considerada a primeira Copa do Mundo entre os clubes, como uma Copa do Mundo normal entre os países", afirmou.

Já Jair Rosa Pinto, campeão da Copa Rio com o Palmeiras, viu na competição a chance de redimir o futebol brasileiro pelo título mundial que a Seleção Brasileia havia perdido para o Uruguai no Maracanazo. "O Brasil não foi campeão em 1950. Então, essa taça que nós ganhamos para mim representou a Copa do Mundo", declarou.

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A Gazeta Esportiva noticia o título da Copa Rio, em 1951
A Gazeta Esportiva noticia o título da Copa Rio, em 1951

A DECISÃO DA FIFA

Em 2001, no 50º aniversário do título conquistado no Maracanã, o Palmeiras pleiteou por parte da Fifa o reconhecimento da Copa Rio como torneio mundial interclubes. Cinco anos antes do processo capitaneado pelo conselheiro Roberto Frizzo.

Apenas 13 anos depois, em 2014, foi que a Fifa reconheceu a Copa Rio 1951 como um de alcance mundial. Em novembro daquele ano, o palmeirense Aldo Rebelo divulgou, por meio do site do Ministério do Esporte, o reconhecimento da Fifa.

Segundo o presidente palmeirense Paulo Nobre, Marco Polo Del Nero, conselheiro do clube e à época membro do Comitê Executivo da entidade sediada na Suíça, além de vice da CBF, teve participação decisiva no processo de reconhecimento.

"O Palmeiras é o primeiro campeão mundial de clubes, independentemente de qualquer reconhecimento. Mas para o respeito do mundo do futebol, a chancela da Fifa é muito importante. Quem de fato pediu o reconhecimento, às vésperas da Copa no Brasil, foi o doutor Marco Polo Del Nero", disse Nobre.

Em 2014, o suíço Joseph Blatter, então presidente da Fifa, prometeu enviar um certificado para atestar o reconhecimento da Copa Rio como o primeiro torneio mundial interclubes. O Palmeiras, segundo a assessoria de imprensa, foi comunicado oficialmente por e-mail.

Em seu site, porém, a Fifa publica apenas os Mundiais com organização própria - o evento estreou em 2000 e, após interrupção de cinco anos, acabou retomado. Os ganhadores do antigo torneio intercontinental, como Santos, Flamengo e Grêmio, também não constam na página eletrônica da entidade.

FESTA NO BRASIL

Uma das primeiras homenagens recebidas pelo Palmeiras pela conquista da Copa Rio foi prestada no dia 1º de agosto de 1951. No primeiro jogo após bater a Juventus na decisão do torneio internacional, o time alviverde coincidentemente enfrentou o Juventus da Mooca.

No gramado do Pacaembu, momentos antes do início da partida válida pelo Campeonato Paulista, os ganhadores da Copa Rio receberam faixas de campeões oferecidas pelo Juventus, agremiação fundada pela colônia italiana em São Paulo.

Com gols de Ponce de León (2) e Rodrigues, o Palmeiras ganhou por 3 a 0. "Certamente, o público bandeirante não poderia deixar de acorrer em massa ao Pacaembu a fim de ver a primeira exibição do campeão mundial interclubes em nossa capital após tão magnífica conquista", noticiou o jornal "A Gazeta Esportiva" no dia seguinte.

Neste domingo, o adversário do Palmeiras é o Atlético-MG, pelo Campeonato Brasileiro. Para lembrar o histórico título de 1951, os jogadores usarão um uniforme com uma bandeira do Brasil acima do escudo, a exemplo do que fizeram os atletas na final diante da Juventus.

HOMENAGEM ATUAL

Em virtude do aniversário de 65 anos, o Palmeiras fará uma homenagem aos campeões no jogo contra o Atlético-MG, às 11h (de Brasília) deste domingo, pelo Campeonato Brasileiro. Os jogadores usarão uniformes especiais no Palestra Itália para lembrar o feito.

OUTROS CAMPEÕES

A Copa Rio não teve edição única. Também foi disputada em 1952 e 1953 (embora neste ano tenha sido batizada com outro nome) e os campeões também foram clubes brasileiros.

Em 1952, numa decisão entre Corinthians e Fluminense, o time tricolor levou a melhor. No ano seguinte, Vasco e São Paulo fizeram a decisão, e os cariocas foram campeões.

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