Substituto de Prass no Palmeiras conta como virou goleiro: 'Preguiça de correr'

Vladimir Bianchini, do ESPN.com.br
Conheça o cara que tem a missão de substituir Prass no Palmeiras

Vagner Antônio Brandalise. O torcedor palmeirense ouvirá muito esse nome nos próximos dias. Isso porque ele pertence ao cara que terá a missão de substituir o goleiro, capitão e ídolo Fernando Prass durante a realização dos Jogos Olímpicos, no Rio de Janeiro.

Aos 27 anos e sem qualquer jogo pelo clube alviverde, o goleiro, que soma passagens por Paulista-SP, Villa Nova-MG, Ituano e Avaí, vai encarar o maior desafio da carreira.

"As maiores diferenças entre atuar em clubes menores e o Palmeiras são o peso da camisa e a torcida. Esse emblema aqui é pesado. É uma responsabilidade vestir essa camisa. Tem um monte de apaixonados. Todos os jogos em casa, mesmo quando não estávamos bem, tinha mais de 30 mil. É gostoso ver a paixão do palmeirense. Isso nos motiva a cada dia fazer o melhor por eles", disse o arqueiro, ao ESPN.com.br.

"Eu estou preparado para vestir essa camisa e fazer o melhor para continuar lutando pelo título do Brasileiro. Tudo na minha vida aconteceu gradativamente e fui subindo. Hoje, estou em uma das maiores equipes do Brasil".

As grandes inspirações para o futuro titular alviverde estavam debaixo das traves nas últimas Copas do Mundo vencidas pela seleção brasileira.

"Meus ídolos são o Marcos e o Taffarel. O Marcos por tudo o que fez dentro de campo e pela pessoa que ele é. É ídolo de todos os palmeirenses e de todos os brasileiros. O Taffarel era um grande goleiro na Copa do Mundo e aquela frase: ‘Sai que é sua, Taffarel' me marcou demais".

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Vagner está no Palmeiras desde janeiro de 2016
Vagner chegou em janeiro de 2016

Atualmente, a referência para Vagner é o titular do gol palmeirense.

"Outro cara que admiro é o Prass pelo exemplo de profissional e pessoa. É gratificante trabalhar ao lado dele. É um espelho que me faz evoluir a cada dia. Eu sou um cara que gosta de observar bastante e ver o que posso melhorar".

"Todos que jogam em alto nível sonham em chegar à seleção. Ele conseguiu isso aos 38 anos. Espero que ele seja lembrado para a seleção principal porque merece".

Vagner sonha em um dia dar sequência a tradição do Palmeiras em ter grandes goleiros como Obertan Cattani, Valdir de Moraes, Leão, Velloso e Marcos.

"Tomara que eu seja o próximo. Procuro me inspirar nessas pessoas que passaram por aqui e usar de toda estrutura que o clube oferece para estar preparado. O futebol acontece quando menos se espera. Torcia para o Prass ser convocado, mas jamais imaginaria que iria para a Olimpíada. A oportunidade chegou antes do que eu esperava, preciso lutar e me espelhar nesses grandes jogadores para ser o próximo da fila. Quero escrever meu nome na história da academia de goleiros".

Vagner está no Palmeiras desde o começo do ano e ainda não atuou em partidas oficiais. Sua estreia deverá ser contra o Atlético-MG, no dia 24 de julho, no Allianz Parque, às 11h.

‘PREGUIÇA DE CORRER ME FEZ SER GOLEIRO'

Nascido e criado em Bom Sucesso do Sul, cidade de 3.200 habitantes do interior do Paraná, Vagner se considera um típico 'garoto da roça'.

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Bom Sucesso do Sul, sudoeste do Paraná
Bom Sucesso do Sul, cidade do Paraná

"Meus pais eram agricultores e eu ajudava junto com meus irmãos nas tarefas para não ficar pesado para ninguém. Eles nos mandavam fazer o trabalho e não tinha choro. Eu tirava leite de vaca e fazia todo o resto, mas o que eu fazia de melhor era jogar bola mesmo" recordou, aos risos.

Quem sofria com as brincadeiras dos irmãos Brandasile eram as janelas e paredes.

"A gente corria pra terminar logo e jogar bola no terreno de casa. Meus pais sofriam porque a parede era branca e, com a terra vermelha, a bola suja deixava a parede cheia das marcas. O branco da parede até sumiu (risos)".

Por um motivo inusitado, o arqueiro garante que nunca pensou em jogar em outra posição. "Era muito preguiçoso para correr, por isso sempre brincava no gol. Admiro quem joga na linha, mas não é para mim não (risos). Prefiro observar o jogo e fazer minha parte bem feita", garantiu.

"Eu comecei a fazer educação física, mas por causa do futebol eu não consegui terminar. Tinha aula de sábado de manhã. Era duro (risos). Um dia pretendo fazer uma faculdade porque a vida e jogador é curta", disse o jogador.

Já referente a carreira dentro dos gramados, ele decidiu a levar a futura profissão a sério e a se destacar nos campeonatos de futebol amador da região, aos domingos, ciente de que tinha a oportunidade de mudar a vida na roça.

"Um cara me viu jogando e me chamou para treinar. Meu pai se interessou e foi abrindo portas. Fiz uns jogos treinos na escolinha e fui para o PSTC [clube de Londrina, no Paraná]", disse o goleiro, que em seguida foi para a base do Atlético-PR e era reserva do goleiro Neto, atualmente na Juventus-ITA.

"Ele merece tudo que conseguiu porque tem muita qualidade e é um trabalhador. Já demonstrava todo potencial e não é á toa que esta na Europa. Espero que possa chegar um dia no nível dele. Eu fiz uns três jogos antes dele subir aos juniores".

Aos 17 anos, ele foi para o Paulista de Jundiaí e se profissionalizou.

"Eu subi depois da Copa São Paulo [de futebol júnior]. Um dos técnicos que trabalhei foi o Fernando Diniz, que me cobrava para jogar com os pés. Antes, o pé do goleiro servia só para fazer defesa e bater tiro de meta", brincou.

Na equipe do interior conheceu as dificuldades da profissão longe dos grandes times. Salários atrasados e estrutura precária faziam parte do cotidiano.

"Uma vez contra a Portuguesa a gente precisou se trocar dentro do ônibus porque pegamos muito transito em São Paulo e não ia dar tempo. Era estreia do Paulistão e quase perdemos a hora (risos)".

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Vagner foi campeão Paulista pelo Ituano
Vagner foi campeão Paulista pelo Ituano

O goleiro também foi emprestado para Criciúma, Vila Nova-GO e Villa Nova-MG. No time mineiro, ele muitas vezes precisava subir um morro dentro de um micro ônibus.
"Ia uns 35 dentro de um lugar que só cabia umas 15 pessoas (risos). Aquela lama, a gente tinha que descer, às vezes empurrar, era complicado".

Após não querer renovar seu contrato com a equipe de Jundiaí, foi para o Ituano. Em menos de um ano e meio, saiu de um quase rebaixamento para um surpreendente título estadual.

"Primeiro ano só joguei quatro jogos e na última rodada do Campeonato Paulista brigávamos para não cair. Vencemos o Palmeiras por 1 a 0 aos 47 minuto do segundo tempo e escapamos".

"Na Copa Paulista chegamos até a semifinal. No ano seguinte, fomos campões paulistas. Aquele título abriu portas para mim e todos os jogadores. Fiquei feliz de ter feito um bom trabalho e ter sido valorizado. Sou muito grato ao Ituano".

Vagner foi o herói da conquista, com excelentes atuações e o goleiro menos vazado da competição, com 11 gols sofridos em 19 jogos.

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Vágner, goleiro do Avai, durante jogo
Vágner subiu e foi rebaixado com o Avai

Com a grande campanha, ele recebeu propostas de várias equipes, mas em sua maioria para ser reserva. Como tinha desejo de ter sequência como titular, optou pelo Avaí, que disputava a Série B do Brasileiro.

Conquistou o acesso para elite do Brasileiro na última partida com uma vitória diante do Vasco. No ano seguinte, porém, viveu uma grande desilusão.

"Tive meu primeiro rebaixamento e foi um momento muito difícil. Infelizmente, fizemos por merecer por tudo o que aconteceu, salários atrasados e problemas com estrutura. Alguns clubes pagam pela má administração dentro de campo", lamentou o goleiro, que mesmo com a queda, foi contratado no começo do ano pelo Palmeiras.

PAI DO ISAAC E REI DE BOM SUCESSO

Em 2016, as mudanças na vida de Vagner não aconteceram somente na profissão. Dorminhoco assumido, ele precisou alterar hábitos, pois sua esposa Tamires deu à luz a Isaac, primeiro filho do casal.

"Meu maior hobby é dormir porque a gente se dedica muito, sai esgotado e precisa descansar (risos). Hoje, Deus me deu o maior presente que é meu filho. O tempo que tenho livre passo com eles".

Sua irmã mais nova mora em São Paulo e trabalha como modelo. Seus outros dois irmãos permaneceram no Paraná junto com os pais. Vagner fala com saudade de sua infância no meio da natureza.

"Quando eu morava lá, curtia pescar e descer cachoeira em pneu, mas não faço mais isso. Como a vida está muito corrida me sobra menos tempo para isso".

Os habitantes de Bom sucesso do sul estão ansiosos para ver o filho mais famoso com a camisa do Palmeiras.

"Meus pais são apaixonados por futebol. A cidade é pequena e quando tem jogo vira um evento (risos). Para minha estreia no Palmeiras ainda não sei o que eles farão porque gostam de aprontar uma surpresa. Quando fui campeão paulista, o prefeito fez uma festa na cidade. Com certeza eles vão inventar alguma coisa".

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