O mundo, segundo Zlatan

ESPN.com.br*
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    • Alguém está tão no centro das atenções como Zlatan Ibrahimovic? Você realmente tem que perguntar?

    *Por James Horncastle, tradução de Ricardo Zanei
    *Ilustrações de Dave Flanagan, adaptação de
    Bárbara Resende, Dalton Cara e Gabriel Lucki

    Abra o dicionário de sueco, procure a letra Z e vá rapidamente ao fim da página. Você vai achar o termo "zlatanera". A definição literal é “Ser Zlatan”. No sentido figurado, significa “dominar”. Originalmente, a expressão foi cunhada por um programa humorístico francês, mas acabou aceita pelo Conselho da Língua Sueca (Swedish Language Council) em 2012.

    Depois, o Correios da Suécia arrumou sua maneira de reconhecer Zlatan ao lançar o "zlamp", um trocadilho com o “stamp”, o termo em inglês para “selo”. A imagem relembra o lance antológico contra a Inglaterra, em uma bicicleta “ridícula” de fora da área, que lhe valeu o Prêmio Puskas de gol mais bonito de 2013. A pré-venda teve 5 milhões de pedidos.

    Em outubro do ano passado, Zlatan ganhou um “Disco de Ouro”. Sim, daqueles dados aos artistas da indústria fonográfica. Sua própria versão de "Du Gamla" (o hino nacional sueco) tinha sido transmitida 3 milhões de vezes no país. "Rumores dizem que é o hino nacional com mais streamings da história", postou o craque no Instagram.

    Para ter uma verdadeira noção do impacto e da influência de Zlatan, você tem que pensar localmente. O que o torna especial e, sem dúvida, o coloca em outro patamar diante de outros integrantes da Liga de Futebolistas Extraordinários, é que ele mudou a forma como uma nação inteira pensa sobre si mesma. A motivação de Zlatan para impregnar sua própria rotação no hino nacional não era completamente egoísta. Além de o hino ser "chato", ele sentiu que a versão original não o representava, muito menos a modernidade da Suécia. "Não tinha significado para mim", disse ele ao jornal “Dagens Industri”. A interpretação de Zlatan, ao contrário, "é como a Suécia se parece" hoje.

    "Não falo sueco perfeitamente, mas é assim que as coisas são. Misturas em todos os lugares. Somos todos diferentes, mas todos iguais. Meu pai é da Bósnia e é muçulmano. Minha mãe é croata e católica. Mas nasci na Suécia e sou um cidadão sueco. Você não pode mudar isso."

    Quando Zlatan era um garoto, ele sentiu como se viesse "de Marte". Não se encaixava em nada. Tinha a língua presa e não conseguia pronunciar a letra "s". Rosengard, o distrito sueco onde cresceu, estava cheio de "somalis, turcos, iugoslavos, poloneses - todos os tipos de imigrantes - e suecos". Em casa, "não havia um estilo sueco de conversa civilizada”. Zlatan foi assistir ao seu primeiro filme sueco quando tinha 20 anos. "Não tinha a menor ideia sobre quaisquer heróis suecos ou ídolos esportivos, como Ingemar Stenmark [ex-esquiador e um dos “mitos” do esporte sueco], nem ninguém."

    Enquanto a maioria dos garotos de sua idade queria se tornar Thomas Ravelli, Martin Dahlin ou Thomas Brolin, ele estava em outro lugar. "Pensava em dribles e truques dos brasileiros" e “fazia download de todos os tipos de fintas que Ronaldo e Romário estavam fazendo”. Ele era diferente. O “outsider”, o estranho, o intruso. Os pais das crianças "loiras e bem-comportadas" na Academia de Malmo organizaram uma petição para impedi-lo de jogar pelo time. "Eles não queriam que todos os petulantes garotos de cabelos escuros jogassem, aqueles que faziam jogadas brasileiras o tempo todo."

    Como as coisas mudaram…

    • Zlatan no YouTube

    Sem ter medo do que as câmeras podem gravar, Ibrahimovic tem sido o ator principal de alguns vídeos memoráveis nos últimos anos.

    Em 2015, quando a Princesa Madeleine, Duquesa de Hälsingland e Gästrikland, e seu marido Christopher O'Neill, nascido em Londres, criado na Suíça e formado nos EUA, anunciaram que estavam esperando um menino, um dos jornais suecos deu algumas sugestões de nomes para o herdeiro. Zlatan era um deles. O motivo: o nome "encarna uma abordagem aberta e tolerante da Suécia repleta de imigrantes". Pensando dessa maneira, talvez o Conselho da Língua Sueca devesse acrescentar a frase à sua definição de "zlatanera”. Nenhum outro é capaz de simbolizar a Nova Suécia do que Zlatan.

    Pergunte às pessoas em todo o mundo com o que ou com quem elas identificam a Suécia, e Zlatan estará entre os primeiros. Não estranhe se seu nome aparecer à frente de Ikea, Abba, Ingmar Bergman, Alfred Nobel e Stieg Larsson. Na verdade, é difícil pensar em algum sueco com menos de 40 anos mais famoso do que Ibra. As pessoas identificam o país a ele. Zlatan, sua língua sempre afiada, acredita que foi ele quem "colocou a Suécia no mapa do mundo”. Depois de quatro anos no Paris Saint-Germain, ele acredita que "também colocou a França no mapa do mundo".

    A Eurocopa-2016 tem um grande significado pessoal para Ibra. A menos que decida representar seu país nos Jogos Olímpicos do Rio, o torneio promete ser o seu último pela Suécia. Seria também o ato derradeiro de Zlatan na França, após quatro temporadas no PSG. "Se eles substituírem a Torre Eiffel por uma estátua minha, então vou continuar", disse, brincando, antes mesmo de oficializar sua saída de Paris.

    O culto à sua personalidade é tão grande na França que até mesmo os esnobes guardiões da alta cozinha não foram capazes de resistir. O menu do Doddy’s Coffee, no subúrbio parisiense de Boulogne-Billancourt, possui um hambúrguer de 600g acompanhado de cebolas, bacon e três tipos diferentes de queijo. O nome da iguaria: Le Zlatan.

    • O que eles falam de Zlatan

    Ibrahimovic atuou ao lado e foi comandado por alguns dos maiores nomes do futebol. Não causa surpresa que ele tenha causado um impacto em muitos deles


    • “O que dizer para motivar Ibra antes dos jogos? Nada, apenas não mate ninguém.”
      Gattuso, ex-companheiro de Ibra no Milan

    • “Dizem que ele é mestre no kung fu.”
      Arsène Wenger, que ofereceu um teste quando Ibra tinha 17 anos, mas o sueco recusou

    • “Fico feliz por não enfrentá-lo sempre. Não que eu tenha medo dele e do que ele pode fazer, mas o respeito e respeito o que ele pode fazer.”
      José Mourinho, que foi técnico de Ibra na Inter

    • “Zlatan é um gigante. É como Gulliver.”
      Antonio Conte, que enfrentou Ibra várias vezes como técnico

    • “[Ancelotti] estava um pouco nervoso, então, Ibra aproximou-se e perguntou se ele acreditava em Deus. Ancelotti disse que sim, então Ibra falou: ‘Bom. Então você acredita em mim. Pode relaxar.”
      Marco Verratti, companheiro de Ibra no PSG

    A Suécia começou sua participação contra a República da Irlanda, em Paris, dia 13 de junho, com um empate um tanto quanto doloroso, mas com os torcedores locais nem um pouco neutros. Zlatan na França: uma situação semelhante a que Diego Maradona viveu quando defendeu a Argentina na Copa do Mundo de 1990, na Itália. E você pode apostar que a torcida vai ir bem além da capital. Quatro dias após a estreia, a Suécia encara a Itália (“a minha segunda casa”). O time da casa, o Toulouse, estranhamente enviou a Zlatan uma mensagem em seu 33º aniversário, referindo-se a ele como "Oh Grande Z." A caixa de presentes incluía um par de camisas da equipe com os nomes de seus filhos nas costas, uma cópia do então recente lançamento do game "Call of Duty" para Xbox e um bálsamo para curar uma lesão no calcanhar.

    E é o calcanhar de Zlatan que imediatamente vem à mente quando você pensa nele na Eurocopa. Foi com o calcanhar que ele acertou o ângulo contra a Itália, em 2004. Se fosse um personagem de Street Fighter II ou Mortal Kombat, tudo bem. O golpe de calcanhar, e a regularidade com que ele faz gols com as variações desse golpe, seriam muito bem encarados como um movimento peculiar do astro do videogame, com um talento único. A seleção da Itália de taekwondo, certa vez, pensou até em fazer-lhe uma faixa preta honorária.

    Diante de tudo isso, esse é o melhor momento da vida de Zlatan? Talvez. O maior artilheiro da história da Suécia e do PSG entra na Eurocopa como o mais prolífico jogador do time de Paris desde Carlos Bianchi em 1978, com 35 gols em 29 jogos. O fim da carreira do atacante, que faz 35 anos em outubro, ainda está distante. Em novembro do ano passado, a Dinamarca tentou causar uma aposentadoria precoce durante os playoffs da Euro, mas bastou ameaçar a tragédia para Zlatan marcar três vezes em uma vitória agregada por 4 a 3, classificando a Suécia para a Euro. Culpa dele, claro.

    "Disseram que iam me aposentar", bufou Zlatan. "Enviei uma nação inteira para a aposentadoria. "

    *Conteúdo originalmente veiculado pelo ESPN.com em 8 de junho deste ano.

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