Ex-Cruzeiro parou Iniesta em final de Mundial, ficou desempregado e hoje joga a Série C

Francisco De Laurentiis e Vladimir Bianchini, do ESPN.com.br
Getty Images
Jardel, camisa 16, foi campeão do mundo sub-20 pela seleção
Jardel, camisa 16, foi campeão do mundo sub-20 pela seleção

Imagina que você vai jogar uma final de Mundial e seu técnico lhe dá a seguinte ordem: marque o Iniesta e não deixe ele jogar. É para suar frio, certo? Afinal, parar o craque do Barcelona e da seleção espanhola é das tarefas mais difíceis que existem.

Um brasileiro, porém, deu conta do recado.

Trata-se de Jardel Pereira de Sousa, campeão da Tríplice Coroa com o Cruzeiro em 2003, e que viveu seu auge na final do Mundial sub-20 daquele ano, quando, pela seleção brasileira, anulou Iniesta na final vencida por 1 a 0 pelo Brasil - gol de Fernandinho, hoje no Manchester City.

Na ocasião, o meia do Barça já começava a despontar como um dos grandes talentos do futebol espanhol, e havia feito três gols no torneio da Fifa, sendo o atleta mais perigoso de um time que contava ainda com atletas como Gabi e Juanfran, hoje no Atlético de Madri, e Vitolo, atualmente destaque do Sevilla.

"Eu era muito novo, mas o Marcos Paquetá [treinador do Brasil] me mandou colar no Iniesta, que era o cara de qualidade da Espanha e colocava todo mundo na cara do gol. Ele ainda não era famoso, mas o professor pediu toda a atenção especial em cima dele, então grudei no cara o jogo todo", lembra Jardel, em entrevista ao ESPN.com.br.

"Fui um carrapato em cima do cara, dando sempre no tornozelo. Quem joga de costas reclama muito, mas ele não reclamou nenhuma vez. Eu chegava firme nele e na bola, mas sempre na lealdade. Para marcar, tem que ficar sempre atento", conta.

Aquele título consagrou uma geração de atletas brasileiros que estão na ativa até hoje, como o goleiro Jefferson e Fernando Henrique, os laterais Daniel Alves e Adriano Correia, os volantes Renato e Dudu Cearense, os meias Daniel Carvalho e Andrezinho e os atacantes Nilmar e Dagoberto, só para citar alguns.

Já da Espanha, não foram muitos que se "salvaram", mas Iniesta seguiu firme para se tornar um dos maiores da história do Barcelona e também da Espanha, principalmente depois de marcar o gol do título da Copa do Mundo de 2010, em cima da Holanda.

MOHAMMED MAHJOUB/AFP/Getty Images
Iniesta Espanha Argentina Mundial Sub-20 28/11/2003
Jardel anulou o jovem Iniesta na final de 2003

"Depois de alguns anos, o Iniesta ficou famoso no Barcelona. Eu até fui rever os vídeos daquela final e vi que era ele mesmo que eu marquei (risos). Quase não acreditei, porque ele mudou muito. Naquele tempo, ele tinha cabelo liso, caído na testa, e agora está carequinha (risos)", diverte-se Jardel.

"É bom demais lembrar desses tempos. Fico feliz em ver como companheiros como o Daniel Alves, o Adriano e o Fernandinho viraram caras mundialmente famosos. É gratificante ver que eles chegaram aonde chegaram", completa o ex-jogador da seleção sub-20.

Da Tríplice Coroa ao desemprego

Nascido em Araguaína, no Tocantins, e revelado pelo Cruzeiro, Jardel atuou cerca de 10 anos pelo clube celeste, entre 1999 e 2008, com empréstimos para outras equipes no período. Nesta quase uma década, ele teve como grande momento a conquista do Brasileirão, da Copa do Brasil e do Mineiro em 2003, sendo o reserva direto do volante Augusto Recife, um dos pilares da equipe comandada por Vanderlei Luxemburgo.

Divulgação/Cruzeiro
Luxa comandou o Cruzeiro em 2003
Jardel conquistou a Tríplice Coroa com o Cruzeiro

"Eu era o 'sombra' do Augusto, sempre que tinha um jogo bom eu entrava, porque às vezes ele estava suspenso, e o Vanderlei Luxemburgo também gostava muito de mim. Eu fazia tudo o que ele pedia, tinha muita saúde e vontade de vencer. Cumpria tudo o que ele queria à risca", ressalta.

O meio-campista, no entanto, nunca chegou de fato a ser firmar em Minas. Foi emprestado ao Juventude, à Cabofriense e também ao Marítimo, de Portugal. Depois, retornou ao Cruzeiro e ficou por lá até o fim de seu contrato. Acertou, então, com a Estrela da Amadora, também de Portugal.

Em terras lusitanas, fez grande temporada em 2008/09, sendo um dos destaques do Campeonato Português. No entanto, quando achou que ia estourar de vez, acabou conhecendo a dura realidade do futebol e suas entrelinhas.

"A primeira vez que fiquei desempregado foi em 2009, quando deixei o Estrela. Fiquei de maio a dezembro sem clube. Todo o dinheiro que eu tinha ganho tive que gastar. Vendi até terrenos para sustentar a família nesse período", conta.

Segundo Jardel, isso aconteceu por causa de seu empresário, que, apesar de propostas de clubes como Wolfsburg, da Alemanha, não conseguiu encontrar um novo time para o atleta. Os seis meses de atraso de salário no Estrela da Amadora, que vivia momento de cofres vazios, também ampliaram a situação financeira difícil.

"O clube estava bem, mas atrasaram nosso salário por um semestre inteiro. A gente saía aplaudido dos estádios, até pelos adversários, porque eles queriam saber como a gente tinha tanta força para jogar mesmo sem receber", relembra.

O pesadelo só acabou quando veio um acerto com o Feirense, novamente em Portugal. Jardel ainda atuou pelo Penafiel até retornar ao futebol brasileiro.

Segundo desemprego e esperança na Série C

Quando chegou ao Brasil, o volante acertou com a Caldense, que o conhecia bem dos tempos do Cruzeiro. Atuou quase um semestre pelo clube e, quando viu, estava sem equipe para jogar e desempregado pela segunda vez na carreira.

Divulgação
Jardel Apresentação Confiança-SE 13/05/2016
Jardel hoje defende o Confiança-SE

"Fiquei de maio de 2011 até setembro sem nada. Foi muito ruim, de novo. Passei pela mesma situação de antes. Tive que gastar o que eu tinha juntado. Até fiquei um tempo treinando com o PC Gusmão no Atlético-GO, mas o time tinha muitos volantes e eu acabei não ficando", conta.

Foi nesta hora que veio a inevitável ideia de pendurar as chuteiras.

"Pensei mesmo em parar de jogar, pois a concorrência é muito grande. Sempre as pessoas te encontram e perguntam em qual clube você está jogando. Isso doía por dentro. Se não tem uma indicação de treinador ou de um colega, você não se emprega. Tem que ter um empresário muito forte, e eu não tinha nem empresário. Aí ficava impossível para mim", lembra.

No início de 2012, porém, as preces de Jardel foram atendidas e ele acertou novamente com a Caldense para disputar o Mineiro. Destacou-se e foi contratado pelo Ceará, então comandado por PC Gusmão. Rodou em seguida por Santo André, Cabofriense e Uberlândia até chegar ao Confiança, de Sergipe, aos 33 anos.

"É a primeira vez que disputo a Série C. Eu acompanho sempre e sei que é muito difícil. Você vê os elencos e os times tem muitos caras conhecidos, que já jogaram Séries A e B, e todo jogo é muito igual. Vai ser pegado demais, e dependemos de construir um elenco fechado para subir", discursa o volante, conhecido por ter cara de "moleque".

"Ninguém acredita que eu tenho 33 anos (risos). Quando cheguei no Santo André, fui pegar meu uniforme e o roupeiro falou para mim: 'Daqui a pouco eu te entrego, garoto'. Daí o capitão virou e falou: 'Tá louco? Esse é o Jardel, da Tríplice Coroa do Cruzeiro, porra!'. O roupeiro achou que eu era dos juniores (risos)", gargalha.

Feliz da vida em Sergipe, Jardel agora nem pensa em aposentadoria. O plano na verdade é bem mais ousado: retornar a um grande time e jogar a Série A mais uma vez.

"Futebol tem o desgaste físico e emocional, mas eu me cuido bem e sei que posso jogar muito tempo ainda. Tenho muita lenha para queimar. Ainda sonho em jogar novamente a Série A. Sei que é difícil, mas quero muito. Se der pra jogar uma Série B, seria legal também, porque quero sempre conquistar títulos. Vou com tudo para conseguir esse acesso com o Confiança agora, fazer história e virar um ídolo aqui", encerra.

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