O tênis parece ser um esporte especialmente sujeito às malandragens de apostadores

José Inácio Werneck para ESPN.com.br

Os três esportes do mundo em que há o maior movimento de apostas pela Internet são, pela ordem, as corridas de cavalo, o futebol e o tênis. Nenhuma surpresa quanto às corridas de cavalo, cuja finalidade precípua, afinal, é a aposta. Ou alguém pensava que, no "esporte dos reis", havia de fato interesse primordial em apurar a espécie equina?

Se o turfe é o "esporte dos reis", o tênis é, ou era, o "esporte branco". O nome não vem do fato de que era praticado pelas elites e, por conseguinte, quase sempre por jogadores brancos. Vem do uniforme, que era tradicionalmente mais alvo do que a camisa do antigo São Cristóvão, no Rio de Janeiro (ou do Real Madrid, ou do Santos).

Hoje, graças a Deus, o tênis é também praticado por negros, amarelos e outros menos votados, sejam eles originários da Tailândia, Índia ou adjacências. O uniforme branco, por sua vez, só é respeitado em Wimbledon e, mesmo assim, não de todo respeitado. Já se foi o tempo em que André Agassi ficou de fora do torneio por dois anos consecutivos, por se recusar a jogar todo de branco. A organização agora pede uniformes “predominantemente brancos”, o que não impede algumas jogadoras de aparecerem com shorts vermelhos ou negros, sob uma blusa branca. É mais ou menos como aquela famosa frase de Eça de Queiroz (sob o manto diáfano da fantasia, a nudez forte da verdade) que muitos no Brasil julgam ser de Nélson Rodrigues.

Recentemente tivemos uma denúncia, em livro do jornalista canadense Declan Hill, de que o marcador da partida entre Brasil e Gana, na última Copa do Mundo, foi influenciado por apostas na Internet de que haveria pelos menos dois gols de diferença em favor de nossa Seleção. Os desmentidos apareceram, mas há também uma conversa gravada com um certo Abukari Damba que parece corroborar a história.

Na semana passada, a ATP, a associação de tenistas profissionais, informou que nada apurou de concreto contra o russo Nikolay Davydenko, acusado de perder uma partida para o argentino Martin Arguello, em agosto de 2007, em condições suspeitas. Davydenko, número cinco do ranking, era franco favorito contra o argentino, número 87, mas desistiu no terceiro set, alegando contusão, num jogo em que uma torrente de dólares havia sido estranhamente apostada no quase desconhecido adversário.

A situação era tão suspeita que as apostas foram suspensas. Agora a ATP disse que nada conseguiu apurar. O tênis porém parece ser um alvo relativamente fácil para apostas desonestas, pois há um sistema em que um jogador pode comunicar à ATP que um certo número de partidas que ele perdeu durante a temporada "não contam para o ranking".

Assim, ele pode ser derrotado impunemente. E o dinheiro que ele pedira à organização do torneio como "garantia" continua em seu bolso.

É um convite aos golpes por baixo da mesa. Mas lembremos que o tênis durante muitos anos viveu sob a hipocrisia de se declarar um esporte "amador", embora todos soubessem que seus jogadores eram pagos exatamente do modo que descrevi acima: por baixo da mesa.

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