Soberano em clássicos e máquina de gols: 100 anos do início do decacampeonato do América-MG

Rafael Valente, de São Paulo (SP), para o ESPN.com.br
Divulgação Acervo do Coelho
Jogadores do América campeões mineiros em 1924
Jogadores do América campeões mineiros em 1924

Há 14 anos sem levantar o troféu do Campeonato Mineiro, o América-MG utilizará a própria história como inspiração para bater o Atlético-MG na final deste ano. Foi diante do rival alvinegro, há 100 anos, que a equipe iniciou o decacampeonato estadual, recorde presente no "Guinness Book" e igualado apenas pelo ABC-RN (1933-1940).

O feito será relembrado pela diretoria do América-MG neste ano durante os festejos do aniversário da equipe, neste sábado. Mas a ideia é que a conquista seja recordada ano a ano, até 2025, no centenário do último título da série.

"Eu também sugeri à diretoria que o América utilizasse contra o Atlético um uniforme semelhante ao usado na última rodada do campeonato de 1916, isto é, camisa branca com golas e punhos verdes, calção branco e meias cinzas. Além de ser uma homenagem à conquista histórica, também pode nos trazer sorte", disse o bibliotecário e vendedor Carlos Paiva, historiador do clube verde-negro há dez anos.

Apesar da distância daquele feito, o decacampeonato é muito presente na vida dos torcedores americanos. Representa o principal momento de grandeza do clube. Período em que a equipe é quem comandava no futebol mineiro.

Em 1925, ao ser campeão, o América-MG tinha dez títulos contra apenas um do Atlético-MG, então os únicos campeões do Estado. Durante os dez anos de domínio, foi soberano nos confrontos com o time alvinegro, com quem fazia o principal clássico de Belo Horizonte, e contra o Cruzeiro, então chamado de Palestra Itália.

Em 20 jogos contra a dupla, foram 17 vitórias, dois empates e apenas uma derrota - esta por W.O. diante do Palestra Itália após o 'Coelho' já ter conquistado a taça de 1924 e desistido de jogar a última rodada do campeonato estadual.

Além disso, o clube era uma máquina de fazer gols. Foram 254 gols em 79 gols, ou seja, uma média de 3,21 gols por partida.

Naquele momento, o América-MG era a referência do futebol mineiro. A equipe tinha uma estrutura moderna e campo de jogo próprio.  Sete dos dez títulos vencidos pelo 'Coelho' foram invictos e a equipe foi base da seleção mineira. 

Divulgação Acervo do Coelho
As medalhas dos títulos mineiros de 1916 a 1925
As medalhas dos títulos mineiros de 1916 a 1925

UMA DÉCADA NO PODER

"Para explicar a força do América entre 1916 e 1925 é preciso recuperar as raízes do futebol mineiro. Ao final de 1913, o América absorveu o bom time do Minas e [no ano seguinte] derrotou o Atlético, então o mais forte da cidade, pela primeira vez. Isso iniciou uma rivalidade entre os dois e tornou os jogos competitivos", disse Paiva.

A rivalidade iniciada ali deu os primeiros passos no primeiro Campeonato Mineiro da história, em 1915. O Atlético-MG foi campeão e o América-MG, terceiro, mas, no único confronto entre eles, houve empate e muita tensão. 

Já havia perspectiva entre os americanos de brigar pela taça.

"O América-MG era um clube de elite. Na época, a sede ficava entre dois hospitais e próxima as Escolas de Medicina e Direito. Estudantes jogavam no clube. Eram bons jogadores, tinha ótimo preparo físico. Isso fez o clube construir uma base vitoriosa a partir de 1916, e que ninguém conseguiu superar", disse Paiva.

Em 1916, o América-MG foi campeão com grande diferença de pontos para o Atlético-MG: 18 a 9. Foram nove vitórias e apenas uma derrota.

Nos quatro anos seguintes foi campeão invicto, sendo que em 1917 teve 100% de aproveitamento - oito vitórias em oito jogos.

Divulgação Acervo do Coelho
Os jogadores do América no primeiro título mineiro, em 1916
Os jogadores do América no primeiro título mineiro, em 1916

O AUGE E O FRACASSO

A partir de 1921 começaram as polêmicas. Times derrotados pelo América-MG desistiam da disputa. Os campeonatos de 1923 e 1924 não tiveram segundo turno. Já em 1925 o América-MG foi campeão com somente um jogo disputado (venceu o Atlético-MG por 4 a 1) porque os demais times desistiram ainda nas rodadas iniciais.

"O América-MG começou a causar ódio nos rivais por causa do domínio dele. Em 1918, Atlético-MG e Sport, dois dos times fortes do Estado, se uniram para tentar tirar a taça do América-MG. Não conseguiram. O América-MG ganhou por 1 a 0 e empatou por 1 a 1. Ou seja, o time foi campeão ser perder para a seleção formada por eles. Em outros anos, as equipes desistiam da disputa e o campeonato tinha menos jogos", disse Paiva.

"Em 1925, aconteceu algo diferente. O América buscou jogadores em São Paulo e no Rio de Janeiro para se fortalecer. Praticou o chamado amadorismo marrom. Ou seja, deu emprego para os jogadores, uma vez que não havia remuneração. O time ficou muito mais forte. Foram três demonstrações que assustaram os rivais. Em um amistoso, o segundo quadro americano bateu o primeiro time do Palestra Itália [Cruzeiro] por 9 a 0. A seleção mineira, que tinha dez jogadores americanos, goleou a seleção carioca por 4 a 1. E na estreia do América no Estadual o time goleou o Atlético por 4 a 1", explicou.

Segundo o historiador, essas vitórias demonstraram aos rivais a superioridade do América-MG naquele ano e fez com quem o Atlético-MG liderasse uma debandada no torneio. O clube verde-negro foi o único a não desistir e por isso foi campeão.

A taça de 1925, a décima da história, passou a ser contestada pelos rivais. Somente em 2012 a Federação Mineira decidiu colocar um ponto final na história e anunciou o América-MG como campeão daquele ano, sem qualquer contestação.

O último título da série também representou o último momento de força do América-MG no Estado. A equipe sagraria-se campeã mais cinco vezes, mas de forma espaçada. Venceu em 1948, 1957, 1971, 1993 e 2001. Ainda foi 15 vezes vice-campeã.

"O que explica a derrocada após 1925 é que o América perdeu muito campeões. Alguns foram para São Paulo, outros para o Rio. Os estudantes também decidiram se dedicar a suas profissões. Não houve como repor. Os adversários também foram melhorando. Depois, o profissionalismo [em 1933] fez o clube perder forçar", disse Paiva.

A final ser jogada contra o Atlético-MG neste ano é a chance de o América-MG mostrar força novamente. A equipe conquistou o retorno à Série A do Brasileiro no ano passado e neste ano eliminou o Cruzeiro na semifinal do Estadual.

"Não é somente isso que está em jogo. O América tem a chance de reafirmar o título do Estado cem anos depois da taça que deu início ao decacampeonato e diante de seu maior rival. O Atlético tem a oportunidade de ser vingar e manter o América em jejum. Os mais novos também não sintam isso, mas em campo estarão dois gigantes que tem muita bronca. Um pai americano prefere ver o filho cruzeirense do que atleticano. Isso já explica muito sobre os adversários da final do Campeonato Mineiro", concluiu Paiva. 

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