Ele foi o 'Ronaldinho do Irã' e viu time matar carneiro à beira do campo para tirar azar

Francisco De Laurentiis e Vladimir Bianchini, do ESPN.com.br
KARIM JAAFAR/AFP/GETTY IMAGES
Edinho Mes Kerman Al-Sadd AFC Champions 24/03/2010
Edinho (esq) em ação pelo Mes Kerman: brasileiro virou o 'Ronaldinho do Irã'

Se seu time, após perder um jogo, resolvesse sacrificar um carneiro à beira do gramado para "acabar com o azar", você acharia estranho? O atacante Éder Luciano, mais conhecido como Edinho, porém, vê isso como normal após sua passagem de oito anos pelo futebol do Irã, onde defendeu o Mes Kerman e o Tractor Club, colecionando gols, idolatria e boas histórias.

Capixaba de Cariacica, o artilheiro passou pelas bases de Vasco e Atlético-PR antes de começar a carreira no futebol de seu Estado. Após boas temporadas pelo Gil Vicente, de Portugal, chamou a atenção do Mes Kerman, time iraniano que é propriedade de uma gigantesca fábrica de cobre, e foi se aventurar na Ásia. Mal sabia ele o sucesso que o esperava.

Em todas as suas temporadas por lá, foram 75 gols, o que o coloca como maior artilheiro estrangeiro da história da liga do Irã - ele também foi o maior goleador do campeonato nacional na temporada 2014/15, com 20 tentos.

Idolatrado pelas torcidas, ele se naturalizou iraniano em 2013, e pode ser até convocado pela seleção persa, se o técnico português Carlos Queiroz quiser.

Além do bom futebol, seu cabelo acabou lhe rendendo um apelido curioso.

"Quando cheguei no Irã, eu tinha cabelo grande e trançado, parecia com o Carlos Alberto (risos). Mas como eu batia falta e pênalti e fazia algumas jogadas de efeito, a torcida começou a falar que, pelo fato de ser brasileiro, eu era o 'Ronaldinho do Irã (risos)'. Isso pegou, ninguém lá me chama de Edinho, só de Ronaldinho (risos). Eu tenho um carinho enorme pelo Irã, o que aconteceu comigo foi uma coisa d outro mundo por lá", conta, ao ESPN.com.br.

Edinho diz que ficou impressionado com a paixão fervorosa dos iranianos pelo futebol. Além disso, também se espantou com a religiosidade dos persas, até mesmo na hora dos jogos.

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Edinho Irã
Edinho se naturalizou iraniano

"Lá só homens podem entrar no estádio, é muito diferente daqui. No Brasil, todo mundo pode entrar, mas lá só tinha homem. Ainda assim, todo jogo tinham de 70 a 80 mil pessoas. Era uma festa linda", lembra.

"O que mais me deixou surpreso foi a hora da reza, que interrompe até o treino. E tem outra: se o time perdeu o último jogo, eles matam um carneiro à beira do gramado antes do treino para tirar a má sorte. É sério (risos)! Eles acreditam que o sacrifício traz boa sorte. Eu presenciei durante algumas vezes, acabei até acostumando", relata.

Uma marca registrada de sua passagem pelo Irã eram as comemorações inusitadas de gols, sempre mostrando alguma mensagem por baixo da camisa. No entanto, o brasileiro foi às redes tantas vezes que uma hora ficou sem ideias.

"O pessoal brincava que não tinha mais comemoração para fazer. Todas eu fazia homenagem com uma camisa por baixo, era pra minha família, esposa, filha, para o Irã. Chegou num ponto de eu estar concentrado no hotel e um torcedor perguntar: 'E amanhã, qual será a homenagem?'. Eu fazia surpresa e falava: 'Amanha vocês verão', aí tinha que inventar na hora (risos). Mas eu recebia muitas mensagens nas redes sociais e agradecimento pelas homenagens", comemora.

A idolatria que o "Ronaldinho" conquistou tanto pelo Mes Kerman quanto pelo Tractor Club tornaram o brasileiro uma personalidade muito conhecida no Irã. Prova disso é que ele pouco precisava colocar a mão no bolso e vivia uma vida de popstar.

"Rapaz, chegou a um ponto em que eu até evitava sair na rua, não conseguia passear no shopping ou ir a um restaurante que virava tumulto (risos). Quando me reconheciam, todo mundo ia lá pedir autógrafo, foto, abraço e beijo. Eles são muito carinhosos, tenho muita admiração por aquele país. Era uma loucura, mas gratificante demais", recorda.

"Para você ter uma noção, eu não paguei uma conta em lugar algum por uns três anos. Sempre algum torcedor pagava, até mesmo o dono não deixava, porque o restaurante lotava quando sabiam que eu estava lá (risos). Alguns não deixavam nunca pagar, fiquei sem por a mão no bolso. Mas eu ficava constrangido, falava que se não me deixassem pagar a conta eu não ia mais voltar (risos). Mesmo assim, era raro eu pagar alguma coisa", ressalta.

Da vida no país asiático, Edinho gostava do carneiro assado ("É maravilhoso, nunca vi outro igual em lugar nenhum do mundo"), mas não era tão fã do clima: "É quente demais e muito seco o tempo nas cidades em que eu vivi". Mas o calor do povo ele não esquece.

"Pelos torcedores, eu estaria até hoje no Irã. Pediam para eu não sair de jeito nenhum, recebo mensagem pedindo para voltar até hoje. E de todas as torcidas, não só da minha. Eu ganhei do dono do time moeda de ouro, relógio, colar de pérolas original para eu presentear a minha esposa. Ganhei também um tapete persa de três metros, coloquei na sala de casa porque. É o mais caro do mundo, tem que ficar bonito, né (risos)?", diverte-se.

E não foi só no Irã que o atacante caiu no gosto do povo. Quando atuava pelo Gil Vicente, de Portugal, fez um golaço no Porto de José Mourinho e ganhou a atenção da imprensa lusitana.

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Edinho Apresentação Desportiva Ferroviária
Edinho vai defender a Desportiva no Capixabão

"Eles tinham Deco, Carlos Alberto, Vítor Baía... Perdemos de 4 a 1 em 2003, mas fiz um golaço danado. Foi um chute de fora da área, foi um comentário bem grande durante a semana. Quase não falavam do resultado, só falavam dele (risos). O Mourinho falou muito na imprensa de mim: que eu era um jovem promissor, que tinha qualidade e que fiz um belo gol", deleita-se.

Apesar de gostar da vida no exterior, o destino trouxe Edinho de volta à sua cidade natal, onde irá defender a Desportiva Ferroviária no Campeonato Capixaba. Ele foi apresentado com muita festa em Cariacica, e agora espera manter seu roteiro de gols para virar ídolo também onde nasceu.

"Acertei com a Desportiva até maio e quero ser campeão capixaba. Nós vamos brigar de frente com todo mundo e temos uma rapaziada muito boa aqui, o time é sério e bem organizado. A ideia é ir bem aqui e tentar abrir as portas pra fora de novo, principalmente no 'mundo árabe'. Mas quem sabe não dá pra voltar pro Irã? Já estou com saudades (risos)", finaliza.

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