Ele durou 6 meses no comando do Inter. Hoje, tem aproveitamento melhor que PSG e Bayern

Francisco De Laurentiis e Vladimir Bianchini, do ESPN.com.br
Alexandre Lops/SC Internacional
Jorge Fossati Treino Internacional 09/02/2010
Jorge Fossati comanda treino do Inter, em 2010: uruguaio durou 6 meses no Beira-Rio

Poucos times são tão dominantes em suas ligas nacionais quanto PSG e Bayern de Munique. Na Ligue 1, a equipe da capital tem incríveis 91,3% de aproveitamento, com 20 vitórias em 23 partidas. Já na Bundesliga, os bávaros também sobram, com 91,2% dos pontos: 17 triunfos em 19 duelos. No entanto, esses não são os melhores aproveitamentos do planeta, acredite se quiser. No Catar, um ex-técnico do Internacional consegue números ainda melhores que os das potências europeias.

Trata-se do uruguaio Jorge Fossati, de 63 anos, que passou seis meses no comando da equipe colorada em 2010, logo após passagem vencedora pela LDU, do Equador. No Catar, seu Al-Rayyan ostenta um aproveitamento de 93,75%, com 15 vitórias em 16 jogos.

Esse número torna a equipe de Fossati a 3ª melhor do planeta em termos de porcentagem de pontos conquistados. O clube catari fica atrás apenas do grego Olympiacos, com 96,6%, e do sérvio Estrela Vermelha, com 93,93%. Logo atrás, aparecem PSG e Bayern.

Fossati assumiu o Al-Rayyan em julho de 2015, depois de o clube ter subido da segunda divisão. Desde então, comanda a campanha quase perfeita. A vantagem para o Lekhwiya, segundo colocado, é de 11 pontos. Os destaques do time são o atacante espanhol Sergio Garcia, autor de nove gols, e o meia brasileiro Rodrigo Tabata, ex-Santos, que fez 16 gols em 16 jogos.

Apesar de estar muito satisfeito com os números de sua equipe, no entanto, o uruguaio prefere falar em pés no chão ao invés de mirar uma possível entrada para o Guinness Book, o livro dos recordes, com um aproveitamento próximo de 100%.

"Esses números mostram que é uma situação fora do comum. Temos que desfrutar disso, mas também ter os pés no chão. Isso não quer dizer que somos melhores que os outros times das outras ligas, como Bayern e PSG. Isso significa na verdade que é bem difícil para qualquer time do mundo ter os números que atualmente nós temos. A gente tem que continuar, temos mais jogos pela frente, e o momento de confirmar essa fase é agora", salientou o comandante, em entrevista ao ESPN.com.br.

Ex-goleiro, Fossati teve carreira vitoriosa como jogador, conquistando títulos importantes por clubes como Peñarol-URU, Olimpia-PAR e Rosario Central-ARG, além de ter sido campeão catarinense pelo Avaí. Como técnico, também faturou grandes taças, como a Copa Sul-Americana, pela LDU, e a Champions da Ásia, pelo Al-Sadd-CAT.

No entanto, El Jefe, como é conhecido, fala com certa amargura dos seis meses que passou no Inter. Cercado de expectativa após grandes campanhas com a LDU, o uruguaio durou pouco no Beira-Rio, sendo mandando embora após ser vice do Campeonato Gaúcho e levar o Colorado até a semifinal da Libertadores - acabaria substituído por Celso Roth, que levantou o troféu contra o Chivas, do México.

Divulgação
Jorge Fossati Premio Melhor Tecnico Mes Catar Al-Rayyan 30/09/2015
Fossati com prêmio de melhor técnico do mês do Catar

"Eu achei que o Inter tinha um projeto sério, mas depois eu fiquei sabendo que não era tão sério assim (risos)", dispara Fossati.

"Os diretores só faltaram se ajoelhar quando foram me contratar e me pediram desde o início que a única coisa que eu tinha que me preocupar era a Libertadores. Eu falava pra eles que achava que esse era o caminho errado", revela.

Na entrevista ao ESPN.com.br, o uruguaio também contou sobre as diferenças culturais que encara no futebol do Oriente Médio, a violência no futebol sul-americanos, mais bastidores de seus tempos no Inter, opinou sobre preconceito contra técnicos estrangeiros no Brasil e respondeu se voltaria a trabalhar em um clube brasileiro depois do Al-Rayyan.

Confira a entrevista com Jorge Fossati:

ESPN: O aproveitamento do Al-Rayyan nesta temporada é muito bom. Como vê o fato de ter números melhores que potências europeias, como Bayern e PSG?
Jorge Fossati: Fiquei sabendo que nosso time está tendo um bom aproveitamento percentual. Primeiro, temos que valorizar o que a gente está vivendo, que não é nada normal. Pelo contrário, é uma situação bem excepcional. Esses números mostram que é uma situação fora do comum. Temos que desfrutar disso, mas também ter os pés no chão. Isso não quer dizer que somos melhores que os outros times das outras ligas, como Bayern e Paris Saint-Germain. Isso significa na verdade que é bem difícil para qualquer time do mundo ter os números que atualmente nós temos. A gente tem que continuar, temos mais jogos da liga pela frente, e o momento de confirmar essa fase é agora. A gente continua com a mesma filosofia.

ESPN: Pensa em de repente entrar para o Guinness Book, o livro dos recordes?
JF: A gente bateu três recordes no Catar agora neste temporada. Nunca na história do clube alguém tinha conseguido três vitórias seguidas, conseguimos. Na liga do Catar, nunca ninguém nunca tinha vencido mais do que nove jogos consecutivos. Só na primeira fase vencemos 11 seguidos. Mas recordes no futebol não devem ser seu objetivo. O objetivo tem que ser vencer os campeonatos. As coisas podem acontecer na medida em que você jogue cada partida como a mais importante da temporada. Com essa mentalidade, você consegue atingir recordes. Se quebramos recordes, é uma consequência disso tudo. Temos que continuar sempre com a mesma mentalidade, e, no último jogo [vitória por 2 a 0 sobre o Umm Salal, fora de casa] mostramos que ainda estamos assim.

Patricio Realpe/Getty Images
Jorge Fossati Comemora Vitoria LDU River Plate Recopa Sul-Americana 19/11/2009
Fossati comemora vitória da LDU

ESPN: Qual o segredo da campanha quase 100% do seu time?
JF: Não tem segredo. No começo da temporada, o Al-Rayyan veio da segunda divisão, mesmo sendo um time grande. Pediram para a gente ficar na briga pelos primeiros lugares, o objetivo para essa temporada era mesmo ficar ali entre os quatro primeiros. Hoje, no entanto, estamos liderando. E, por incrível que pareça, estamos quase com o mesmo elenco que jogou a segunda divisão, trocamos apenas os estrangeiros, como o Nilmar e o Lucho González.

ESPN: Quais são as coisas mais curiosas de trabalhar em um clube do "mundo árabe"?
JF: O que mais me chamou a atenção foi a questão da religião, porque eles sempre rezam várias vezes ao dia, quando o sol nasce, quando o sol se põe e durante o dia. Então, muitas vezes uma das rezas acaba acontecendo no invervalo dos jogos. Você vê os jogadores dos dois times rezando juntos em um local fora dos vestiários, ao lado dos policiais e outros profissionais, que muitas vezes rezam juntos também. Nós, sul-americanos, não estamos acostumados com isso. Eles não olham o adversário como inimigo, como nós costumamos fazer, mas como um simples adversário. Isso poderia servir de exemplo para nós, porque, na minha cabeça, não dá pra aceitar que os jogos em nossos países sejam vistos como guerras.

ESPN: Você teve muito sucesso em quase todos os clubes que passou, mas ficou apenas seis meses no Inter, sendo demitido na semi da Libertadores. O que aconteceu?
JF: Logicamente trabalhar em um time como o Inter foi um grande momento na minha carreira, mas, sei lá... [faz pausa] Infelizmente o sistema acabou me engolindo. Fiquei tranquilo porque fiz meu trabalho com honestidade e com as minhas ideias, alguns gostaram, outros não... É para isso que sou contratado: para fazer aquilo que acho que tem que ser feito. Os diretores só faltaram se ajoelhar quando foram me contratar e me pediram desde o início que a única coisa que eu tinha que me preocupar era a Libertadores. Eu falava pra eles que achava que esse era o caminho errado. Não podia fixar um objetivo só de um lado, porque é futebol, daqui a pouco você é eliminado e aí o ano acabou. Não é possível, tem que olhar tudo com a mesma seriedade, especialmente o Campeonato Brasileiro.

ESPN: Como é sua relação com o Internacional hoje?
JF: A paz ficou demonstrada com o torcedores do Inter quando fui em 2014 a Porto Alegre com o Peñarol, para o amistoso de reinauguração do Beira-Rio. Senti muito o carinho do torcedor e até da imprensa, fui muito bem tratado. Todos disseram que guardam uma boa lembrança de mim.

ESPN: Há menos paciência com técnicos estrangeiros do que com brasileiros?
JF: Em geral, poderíamos dizer que é incapacidade dos diretores de conduzir um processo sério. Então, a escolha dos treinadores deveria ser feita com mais profundidade. Na hora que eles ficassem convencidos que era o melhor para o clube, tinham que apoiar, não pode ficar dependendo de três resultados. Se você gostou, gostou. Agora, se você errou, minha pergunta seria: você, diretor, não deveria ir embora também? Porque para mim o erro é compartilhado. Mas não acho que haja menos paciência com estrangeiros, não. Quandos times trocaram de técnico na última temporada? Praticamente todos.

Alexandre Lops/SC Internacional
Jorge Fossati Internacional Esportivo Campeonato Gaucho 13/01/2010
Jorge Fossati no comando do Inter, em 2010 

ESPN: Acredita que existe preconceito no Brasil contra técnicos gringos?
JF: Eu acho, sim, que tem preconceito com muitos colegas, até mesmo de treinadores brasileiros, que dizem que técnico estrangeiro no Brasil não dá certo, porque não conhecem a cultura brasileira e a maneira de jogar. Eles só enxergam uma verdade no futebol, e esse é o maior erro. Eu devolveria a pergunta para colegas brasileiros que pensam assim: 'vocês por acaso são campeões sempre?', 'Ah, na maioria das vezes não'... 'Ué, mas você não conhecia a identidade do brasileiro?'... [faz pausa] Não se trata disso. Trata-se de capacidade ou incapacidade, e não de passaporte.

ESPN: Aceitaria trabalhar no futebol brasileiro de novo?
JF: Eu trabalharia no Brasil outra vez, mas tem que ser um projeto grande, em que eu veja seriedade, por mais que a gente possa se equivocar... Eu achei que o Inter tinha um projeto sério, mas depois eu fiquei sabendo que não era tão sério assim (risos)...

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