Destaque da Copinha vendia caldo de cana e pastel na beira da estrada

Rafael Valente e Vladimir Bianchini, de São Paulo, para o ESPN.com.br
Gazeta Press
Zé Ricardo foi um dos destaques do América-MG na Copinha
Zé Ricardo foi um dos destaques do América-MG na Copinha

Durante muitos anos Zé Ricardo, 19, dependeu do próprio 'gogo' para ganhar dinheiro e sobreviver ao lados dos pais. Natural de Bom Jesus do Amparo, cidade a 74 km de Belo Horizonte e 'roça pura', ele vendia pasteis e caldo de cana na cidade natal durante o dia e estudava durante a noite. Quer dizer, não apenas vendia, como ajudava a preparar e a fritar os pastéis. Era bom de lábia. E foi assim, desde cedo, que ele aprendeu que para subir na vida é preciso aproveitar as oportunidades. Lição que colocou em prática na última Copa São Paulo de futebol júnior.

Zé Ricardo ganhou os holofotes nacionais como destaque do América-MG, time que fez bela campanha na competição de juniores. O clube foi um dos semifinalistas e perdeu a vaga na final para o Flamengo, que sagrou-se campeão ao derrotar o Corinthians.

Camisa 7 da equipe, Zé Ricardo é o volante e capitão da equipe. Chegou a fazer um gol, mas se destacou mesmo por demonstrar habilidade para mudar de posição dentro do jogo, sem perder qualidade e com boa compreensão da estratégia da equipe. Versatilidade que carrega desde garoto no interior de Minas Gerais.

"Sempre tive de ajudar meu pai para a gente sobreviver. Eu já mexi com carvão. Desde de criança tinha de ordenhar as vacas no curral, cortar cana e ajudar com os pastéis", contou Zé Ricardo, por telefone, para o ESPN.com.br.

"Eu acordava cinco da manhã, cortava cana, limpava o esmeril (motor) e ajudava a armar a cabana na beira da BR-381. A gente vendia na estrada mesmo. Os donos da barraca eram meu pai e meu tio, mas eu ajudava com tudo. Compravámos a massa, fazíamos o recheio do pastel e depois a gente fritava. Eu também fazia isso. Depois vendia. Fazia um sucesso enorme. O pessoal parava para comer. Eu gostava mesmo era de ficar vendendo, na resenha, fazendo amizade. Já fazer pastel eu não curtia tanto", disse, aos risos.

A vida na 'roça', como ele gosta de frisar, foi um vestibular para as dificuldades que o futebol apresentaria até chegar ao América-MG. Certa vez chegou a ser 'roubado' por pura ingenuidade ao atender um freguês no meio da estrada.

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Zé Ricardo foi um dos destaques do América-MG na Copinha
Zé Ricardo em ação na Copinha

"Me levaram R$ 50. Uma pessoa apareceu com uma nota de R$ 100, mas eu não tinha troco e ainda estava sozinho na barraca. Daí resolvi trocar o dinheiro com um bolo da barraca, mas fiquei com medo do cara me assaltar. O cara desistiu de comprar o pastel, pegou uma nota de 50 do bolo do troco e saiu acelerando no carro", disse, ainda lamentando a história.

Certa vez foi até flagrado pelo supervisor do América-MG, que encostou o carro na beira da estrada para comprar um pastel e...

"Foi bem curioso um dia. A gente não estava conseguindo vender nada e de repente apareceu o supervisor do time. Queria um pastel e acabou comprando muita coisa. Muito caldo de cana. Foi a festa para a gente. Ele não sabia que eu ajudava meu pai", relembrou Zé Ricardo, aos risos.

Apesar da rotina puxada, ele conseguiu concluir o ensino médio, aprendeu inglês e sonha em fazer um curso superior para não depender apenas do futebol.

PERSISTÊNCIA

Antes de virar um dos destaques do América-MG, Zé Ricardo rodou por outros clubes. Primeiro teve uma passagem pelo Cruzeiro, onde jogou por três anos. Depois foi para o PSTC, de Londrina, onde não conseguiu ter sequência.

"Com 15 anos, fiquei sem clube. Senti saudade de casa e, depois de quatro meses, resolvi voltar para a casa dos meus pais. Acabai saindo e voltei para a roça", disse ele.

Zé Ricardo manteve na cidade natal a rotina de treinar enquanto ajudava o pai a vender pastéis. O sonho de jogar futebol, no entanto, não havia se extinguido. 

"Certa vez o Hamilton, ex-jogador do Cruzeiro e do América-MG, me procurou e fez um convite para um teste. Eu topei. Foram duas semanas de tentativa e eu passei. Foi uma alegria muito grande", disse Zé Ricardo, lembrando da trajetória iniciada em 2014.

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Zé Ricardo foi o capitão do América-MG na Copinha
Zé Ricardo foi o capitão do América-MG

Agora o desafio que tem pela frente é diferente. Mais conhecido, ele batalha para assinar o primeiro contrato profissional, uma vez que completará 20 anos neste ano e terá de deixar as categorias de base do América-MG.

Zé Ricardo não tem empresário nem agente. Por isso, assim como na barraca de pastéis, dependerá do 'gogo' para convencer o América-MG a renovar com ele e acreditar que o futebol dele ainda pode ajudar o clube.

"O América me valoriza. Gosta do meu futebol. Eu me preocupo em jogar. Sei que no momento certo pode aparecer alguma coisa. Não tenho representantes. Gosto das coisas honestas e no futebol tem muito picareta. Já apareceram empresários querendo me levar embora, mas não aceitei. Futebol é assim mesmo. Mas confio na trajetória até aqui. Jogamos bem a Copa Sâo Paulo. Foi uma campanha excelente, pena que não fomos para a final. Ainda tenho esperança de que vou realizar meu sonho e me profissionalizar."

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