Ex-Santos sofre com quatro treinos por dia na Coreia do Sul: 'Tô quase pronto pra guerra'

Francisco De Laurentiis e Vladimir Bianchini, do ESPN.com.br
Divulgação
Tiago Alves Seongnam Coreia do Sul
Tiago Alves, ex-atacante do Santos, hoje defende o Seongnam, da Coreia do Sul

Quando o atacante Tiago Alves Sales resolveu deixar o Santos para se arriscar no futebol da Coreia do Sul, não imaginou que iria "sofrer" tanto. Recém-contratado pelo  Seongnam FC, após passagem pelo também sul-coreano Pohang Steelers, ele se impressionou com a quantidade de treinos físicos, táticos e com bola que teve que fazer diariamente durante a pré-temporada do clube.

Ao todo, são quatro períodos de trabalho: das 7h às 8h da manhã, há treino de fundamentos, passes e cabeceio. Depois, os atletas tomam café da manhã e descansam até 9h30, quando começa o segundo treino, que vai até 11h40. Segundo Alves, esse é o mais cansativo.

"É um treino de circuito físico, com umas 18 estações, e a gente precisa fazer três voltas seguidas. Em menos de 24 minutos, tem polichinelo, abdominal, flexão, agachamento, de tudo, é tipo um cross fit. Esse é mais puxado de todos", conta o jogador, em entrevista ao ESPN.com.br.

Após o término do circuito, os atletas almoçam e relaxam até 15h20, quando têm que começar o terceiro período de trabalho, até 17h20. Esse treino varia entre um 'bobinho' e futevôlei no ginásio da equipe ou uma prática de finalização no campo.

Os atletas só podem descansar de vez após o quarto treino do dia: "Pra fechar com chave de ouro, a gente fica das 21h20 até 22h20 na academia. No fim do dia eu estou 'moído', cara... Entre o penúltimo e último treino eu vou dormir no quarto de tão cansado, eles precisam bater na porta e me chamar, senão eu não vou (risos)", brinca.

Além de todos esses treinos, os jogadores ainda têm que toda quinta-feira encarar uma caminhada de cinco quilômetros em uma montanha próxima ao CT do Seongnam. "É muito díficil, os caras são loucos", relata Tiago.

"Eles até me liberaram do primeiro treino, porque eu nunca tinha feito isso na vida, leva um tempo até acostumar. Como estamos em pré-temporada, eu fico o dia todo treinando e nem saio. Nossa única diversão é o treino (risos)", gargalha.

O Seongnam fica em pré-temporada na Coreia do Sul até este sábado. Agora, o time viaja aos Estados Unidos para mais um período de preparação. A liga nacional começa somente no dia 12 de março, quando a equipe de Tiago Alves encara o Suwon Bluewings.

Pronto pra guerra

De acordo com Tiago Alves, quem quiser jogar na Coreia do Sul não pode ser "chinelinho". Atrasar para os treinos, então, nem pensar. Quem não mostrar empenho total corre risco até de apanhar dos outros jogadores.

"Os coreanos fazem tudo tranquilos, nem reclamam, estou acostumados. Eu quando vi esses treinos pela primeira vez perguntei: 'Meu Deus do céu, o que é isso?'. Aí os caras tiraram sarro de mim: 'Bem vindo, aqui é o Seongnam' (risos). Tá maluco, ninguém acredita quando eu conto o tanto que estou treinando. Estou quase pronto pra lutar uma guerra (risos)", diverte-se.

"Aqui não tem como ser 'chinelinho'. Se ficar de 'chinelinho', você nem joga. Eles são muito rígidos. Com horário, tudo tem que ser 10 minutos antes, não existe essa de atrasar. E você só levanta da mesa na refeição depois do capitão da equipe. Se levantar antes, o mais velho bate no meis novo, pois é sinal de respeito. Se um moleque faz alguma coisa errada, o capitão desce a porrada", conta.

Ricardo Saibun/Santos FC
Tiago Alves Comemora Gol Santos Sao Paulo Final Campeonato Paulista Sub-17 20/11/2010
Tiago comemora gol na base do Santos

Apesar da "canseira" que está levando no Seongam, Tiago Alves diz que está adorando a experiência de morar na Coreia do Sul, que é um dos países mais desenvolvidos do mundio.

"Eu me divirto demais, gosto muito de morar aqui. Nosso treinador é muito gente boa e adora trabalhar com atletas estrangeiros, fora que eu tenho um tradutor. Eu até sei um pouco de coreano, mas não falo muito. Ano passado aprendi bastante coisa, preciso colocar mais em prática", ressalta.

No entanto, o brasileiro "apanhou" um pouco dos hábitos locais quando se mudou para a Ásia.

"Teve uma vez que fui levar o lixo para fora e jogar na caçamba. Juntei tudo no mesmo saco e tomei uma baita dura do lixeiro, porque na Coreia eles separam tudo, tem coleta seletiva todo dia entre lixo reciclável e orgânico, e quem não separa leva multa. Eu acabei escapando de levar porque era a primeira vez, mas se bobear de novo, eles não perdoam", relata.

Quanto ao futebol dos coreanos, Tiago diz que eles ainda precisam evoluir mais.

"Sou o único brasileiro daqui do time, e eles amam brasileiros, são ídolos pra eles. Já os coreanos ainda precisam melhorar algumas coisas, como finalização. Muitas vezes eles estão na cara do gol e não chutam, ou chutam fraco. Precisam aprender a finalizar melhor", salienta.

Concorrência no Santos e caneta em Pikachu

Nascido em São João do Araguaia, no Pará, Tiago Alves começou a jogar cedo no Remo, aos 13 anos. Na base, disputou muitas partidas e fez amizade com o lateral Yago Pikachu, do Paysandu, que se destacou nos últimos anos e hoje joga no Vasco.

"Dei muita 'caneta' no Pikachu (risos). Na época, ele não atacava tanto, era mais lateral, mesmo. Ele joga demais, faz muito gols, tem muito atacante que não tem o tanto de gol que ele já fez na carreira. A gente se enfrentava direto em torneios de base, ele é meu amigão. Só que nunca perdi uma final pra ele, sempre foi vice meu", provoca.

Ivan Storti/Santos FC
Tiago Alves Neymar Treino Santos 21/02/2012
Tiago e Neymar durante treino do Santos, em 2012

Depois do Remo, Alves fez um teste no Santos e foi aprovado. Na base alvinegra, tabelou com atletas como Felipe Anderson, hoje na Lazio, e Geuvânio, recentemente vendido para o futebol chinês, além do zagueiro Gustavo Henrique, que segue no "Peixe".

Aos 18 anos, Tiago foi promovido ao elenco profissional, mas pouco conseguiu jogar, já que tinha que concorrer com nomes de peso no ataque alvinegro.

"Minha estreia foi contra a Ponte, em Campinas, 2011. Empatamos por 1 a 1, gol do Elano. Logo em seguida, saiu o Muricy e veio o Marcelo Martelotte, e ganhei mais umas chances. Meu primeiro e único gol pelo Santos foi contra o Ituano, no Paulistão. Mas tive poucas chances, porque tinha Neymar, Zé Love, Diogo, Rentería, Borges, Alan Kardec, Maikon Leite, Keirrison... Era difícil jogar nessa época, até entendo porque não atuei muito", admite.

Sem espaço, o garoto pediu para ser emprestado, e foi atendido pela diretoria. Passou por Boa Esporte, América-MG e Penapolense até se achar no Paraná, onde fez sucesso sob o comando de Claudinei Oliveira, seu ex-treinador na base do Santos.

"Eu fiquei um tempo parado por lesões, mas ele teve muita paciência até eu entrar no ritmo. Comecei mal, mas depois deslanchei. Fui artilheiro do Paraná na Série B de 2014 e aí veio a proposta da Coreia do Sul, que eu aceitei. Hoje, estou feliz da vida aqui", finaliza.

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