Ex-Flu topou jogar em 'zona de guerra' e ganhou carrão e chuteira de Swarovski

Francisco De Laurentiis e Vladimir Bianchini, do ESPN.com.br
Reprodução/Instagram
Mauricio Terek Grozny Chuteira Swarowski
Maurício ganhou chuteira com cristais do presidente da Chechênia, Ramzan Kadyrov

Se um dia alguém te fizesse uma oferta para jogar futebol e morar em uma região do mundo marcada por conflitos étnicos e religiosos, com duas guerras separatistas no histórico e diversas mortes por atos de terrorismo, você diria "sim"? Maurício José da Silveira Júnior topou, brilhou, virou ídolo e hoje considera-se realizado.

O volante de 27 anos, revelado pelo Fluminense, é o mais novo contratado do Zenit, clube pelo qual irá disputar a Uefa Champions League. Antes de chegar ao atual campeão russo, no entanto, ele jogou seis anos pelo Terek Grozny, clube sediado na capital da Chechênia, uma das regiões mais turbulentas do país, com marcas de conflitos por todos os lados.

Durante suas temporadas em Grózni, disputou 162 jogos, marcou 28 gols, deu 13 assistências e virou um herói para a população local. Mais ainda para o presidente do clube, o ex-rebelde Ramzan Kadyrov, que também é presidente da Chechênia. Kadyrov gostava tanto do brasileiro que o encheu dos mais variados presentes ao longo das temporadas.

"Ele é torcedor fanático e vai a todos os jogos, adora os jogadores e os trata como filhos. Ele costuma dar muitos presentes, até carros para os atletas que se destacam. Ganhei um Corolla muito bonito, com chave e tudo, além de ter um carro emprestado pelo clube, um pouco mais simples. Foi no meu 100º jogo, e ainda fiz um gol naquele dia", conta Maurício, ao ESPN.com.br.

O mimo mais especial, porém, foi um par de chuteiras decoradas com os famosos cristais Swarovski, que o presidente checheno entregou ao brasileiro em um jantar especial em sua casa.

"O presidente me deu uma chuteira cravejada de brilhantes com o símbolo do time. Um dia, num jantar, ele começou a distribuir condecorações, tipo de exército, como se fôssemos cidadãos chechenos, para os jogadores. Ele chamava um por um pelo nome, e, quando chegou a minha vez, o cara estava segurando uma caixa linda. Na hora que ele abriu, tinha a chuteira, que é maravilhosa", relata o volante, que se emocionou com as palavras de Kadyrov.

"Ele me disse: 'Você é da nossa família já, esta aqui há mais de cinco anos e gostamos muito de você, por isso quis te dar um presente especial'. Fiquei feliz demais, é um dos mais homens mais importantes da Rússia, por isso é muito significativo para mim. Nem imagino quanto ela vale, até me perguntaram se eu ia usar a chuteira em jogo, mas jamais, né? Vou é fazer um quadro e colocar na parede", revela.

Durante seus seis anos como jogador do Terek, contudo, Maurício não morou sempre em Grózni. No início, em tempos mais turbulentos, viveu em uma cidade a 500km de lá, e só ia para a capital chechena em dias de jogos, voltando para casa no dia seguinte.

"Quando me apresentei, cheguei num resort na Turquia e era show, achei que na Rússia seria assim. Quando fomos embora, me falaram que eu ia morar em Kislovodsk, a 500km de Grózni. No começo, já pensei: 'Aonde eu vim parar?' (risos). Foi um baque grande, porque é uma cidade pequena, tudo meio velho e feio por fora, mas por dentro é novinho, bem cuidado", lembra o atleta, que gostava da receptividade dos locais.

"A cidade fica em uma uma região cheia de asilos e sanatórios, as pessoas vão para se tratar de doenças ou descansar, então tem muito idosos. Por isso, o pessoal é super aberto e receptivo, ao contrário da fama dos russos. Alguns amigos tinham me falado que eles eram grossos, frio e mal educados, mas comigo nunca teve isso", assegura.

Epsilon/Getty Images
Mauricio Comemora Gol Terek Grozny Spartak Moscou Campeonato Russo 20/09/2014
Maurício comemora gol pelo Terek Grozny

Depois de seis anos, Maurício fala russo e considera-se totalmente adaptado aos costumes locais. Destaque da Premier League local, ele viu Schalke 04, Malaga, Olympique de Marselha, Celta de Vigo e Stuttgart demonstrarem interesse em seu futebol nos últimos meses.

No entanto, uma proposta irrecusável do Zenit fez o atleta pedir para deixar o Terek Grozny e ir para o clube de São Petersburgo. Duro foi convencer o presidente, que é fanático pelo seu futebol.

"Foi muito difícil sair do Terek. Foram seis meses conversando todo dia com o presidente , que queria minha renovação, e eu não conseguia falar 'não' para ele (risos). Eu devo muito ao Terek por tudo, como ser humano e jogador de futebol. Foram seis anos, tinha muitos amigos e carinho pelas pessoas daqui", afirma.

"Minha despedida foi muito emocionante. A última conversa com o presidente foi muito difícil. Ele entendeu minha vontade e não colocou qualquer problema, disse que era muito agradecido por tudo que tinha feito lá, mas não queria eu fosse embora. É que chegou em um ponto que queria desafios novo e mudar. Sempre tive vontade de lutar pro títulos e jogar uma Champions. Agora, poderei fazer isso no Zenit", exalta.

Do "Terrão" à Copa do Mundo... Pela Rússia?

Nascido em São José dos Campos, no interior de São Paulo, Maurício teve sua primeira chance em um grande clube ainda na infância, quando foi aprovado em um teste no Corinthians. Ficou no "Terrão" por oito anos, atuando ao lado de atletas como o meia Willian, hoje no Chelsea e na seleção brasileira. Recebeu diversas convocações para as seleções de base, jogando junto com os meias Renato Augusto e Anderson.

Quando completou 16 anos, contudo, seu contrato com o time alvinegro se encerrou. Sem acertar uma renovação, foi convidado para ir para o Fluminense, e aceitou. Foi morar no CT de Xerém, casa da base tricolor, e formou grande amizade com o lateral Marcelo, hoje no Real Madrid, e o volante Fernando Bob, contratado pelo Inter.

Fernando Soutello/Agif/Gazeta Press
Mauricio Comemora Gol Fluminense Bangu Campeonato Carioca 21/03/2009
Maurício comemora gol pelo Fluminense

O volante começou a chamar a atenção do time profissional após grandes atuações na Copa São Paulo de Futebol Júnior de 2007. Tanto é que, com apenas 17 anos, foi promovido à equipe principal do Flu, que contava à época com Arouca, Thiago Silva, Roger, Conca, Thiago Neves, Washington, Dodô e Leandro Amaral, entre outros.

Pelo fato do elenco contar com uma série de "medalhões", principalmente no meio-campo, Maurício nunca chegou a se firmar como titular. Apesar disso, viveu fortes emoções nas Laranjeiras, como o o título da Copa do Brasil de 2007, o vice na Libertadores de 2008 e a milagrosa salvação do rebaixamento que parecia certo no Brasileirão de 2009.

Apesar de ter moral no Fluminense, o volante queria jogar. Quando chegou às suas mãos uma proposta do pequeno Terek Grozny, da Rússia, ele não pensou duas vezes.

"Para te falar a verdade, não conhecia nada do clube, do país, nem nada... Era muito jovem e só queria saber de estar no gramado e crescer na vida. Fechei o olho e fui embora sem pesquisar nada na internet", conta.

Arquivo Pessoal
Mauricio Assina Contrato Zenit 17/01/2016
Maurício e Pierre Fernandes, seu empresário, assinando contrato com o Zenit

Como visto acima, contudo, o brasileiro não teve nenhum tipo de problema no novo país. Virou ídolo local e, com grandes atuações, chamou a atenção do poderoso Zenit, que o contratou no último dia 17, após vencer disputa com outros clubes.

"Eles chegaram com tudo certo e muito rapidamente eu acertei. Foi bom porque não precisei sair da Rússia, e estou adaptado ao país e ao futebol. É um clube grande, que sempre é campeão e tem jogadores de nível mundial e disputa Champions. Estou ansioso para estrear e ajudar os companheiros nessas competição. Ajudou também ter o Hulk, que sempre vai para a seleção, e tem jogadores portugueses também", ressalta.

Reprodução
Mauricio Conversa Andre Villas-Boas Treino Zenit 20/01/2016
Maurício bate papo com André Villas-Boas

No auge da carreira, Maurício agora tem um grande objetivo traçado: disputar uma Copa do Mundo. Ele sabe que uma oportunidade pela seleção brasileira será difícil, e, por isso, não descarta jogar pela Rússia (país anfitrião do Mundial de 2018) caso seja chamado pelo técnico Leonid Slutsky - como vive há mais de cinco anos lá, pode se naturalizar russo e, inclusive, deixar de ocupar uma das vagas de estrangeiro no Zenit.

"Tenho o sonho de jogar um Mundial. Acredito que tenho grandes chances atuando por um clube desse tamanho, e agora se abriram as duas portas para mim, tanto no Brasil, porque o Dunga vê os jogos do Hulk, quanto na Rússia. Se eles me convidarem eu pensaria com muito carinho. Jamais descartaria a seleção brasileira, é meu país, mas não quero descartar nada. Eu quero jogar a Copa do Mundo e pronto", finaliza.

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