Briga com Dener e atacantes 'fominhas': 25 anos do 1º título da Lusa na Copinha

Helvídio Mattos, Rafael Valente e Vladimir Bianchini, para o ESPN.com.br
Campeões da Copinha pela Lusa em 1991 relembram a final do torneio e a morte de Dener

Eles já não 'flutuam' mais como há 25 anos, quando levaram a Portuguesa ao inédito título da Copa São Paulo de futebol júnior em uma campanha memorável. Mas Sinval e Tico guardam na memória e nas brincadeiras entre si as lembranças dos 'losangos flutuantes', forma como a equipe lusitana em que eles se destacaram ao lado do meia-atacante Dener ficou eternizada em 1991.

A Portuguesa foi campeã invicta, tendo vencido os nove jogos disputados e anotado 32 gols - média de 3,5 por jogo. Na final, disputada no dia 26 de janeiro, no Pacaembu, goleou o Grêmio por 4 a 0, na maior diferença de gols já registrada numa decisão.

A Lusa ainda teve Paulo Luís eleito o melhor goleiro, Dener como o melhor jogador e Sinval como o artilheiro máximo da competição: 12 gols (recorde).

Para festejar as Bodas de Prata, Sinval, 44, e Tico, 45, se reencontraram na sede da Portuguesa, na zona norte de São Paulo, a convite da ESPN. Foram acompanhados pelo técnico daquela equipe, Écio Pasca, 65, e outros quatro campeões: o ex-volante Maninho, 45, o ex-ponta-direita Julinho, 43, e os preparadores físicos José Roberto Rivellino, 49, e Regis Guariglia, 49 - este foi para o Palmeiras antes da Copinha.

Rafael Valente/ESPN.com.br
Publicação da Portuguesa exaltando time campeão do Paulista sub-20 em 1990
Time da Lusa campeão do Paulista sub-20 em 1990

Ao se reencontrarem, as brincadeiras surgem naturalmente. Especialmente ao reverem uma foto com o time campeão paulista sub-20 em 1990 (ao lado), conquista que antecedeu a disputa da Copa São Paulo.

"Olha o Maninho como era magro. Ele era um volante forte, agora só é forte [risos]. Nem parece que foi jogador. Melhor guardar essa foto para ele mostrar para os filhos", brinca Sinval, debochando da forma física do companheiro.

"Sinval e Tico juntos? Nossa, isso me dá uma saudade do Cícero. Cadê ele para me ajudar agora? Naquela época, os caras só queriam saber de flutuar, e eu o Cícero tínhamos que se matar defesa", rebate Maninho, aos risos.

"Já consagrei muito o Sinval. Agora espero que ele me libere para ir aos motéis dele de graça", emenda Tico, citando a atividade do ex-companheiro de ataque.

As alegrias também se misturam com a tristeza pelos companheiros que já não estão presentes. Neste caso, Dener. Craque daquele time, ele morreu jovem, aos 23 anos, em um acidente de automóvel no Rio de Janeiro, em 19 de abril de 1994.

No museu da Portuguesa há um espaço dedicado ao ex-jogador, uma das maiores revelações do clube do Canindé em quase cem anos de história. Ao verem a imagem de Dener, todos fazem um silêncio respeitoso... e lembram de como ele era divertido.

"Um dos motivos que me fazia evitar vir ao Canindé é esse. Essas lembranças tristes. para não me deparar com essa sensação. Tenho muita saudade, não dos jogos, mas dos amigos, do convívio... A gente era como uma família. A gente se divertia e brigava como irmãos. E o neguinho [Dener] era para estar com a gente hoje. Apesar que se ele tivesse sai de baixo também. Ia aprontar várias", brinca Maninho.

Ao se reencontrarem também surgem lembranças daquela conquista, dos feitos alcançados pelo time e do orgulho que sentem por serem relembrados 25 anos depois.

"Foi um marco para a Portuguesa no modo de trabalhar a base. Foi também a melhor campanha de uma equipe na história da Copinha. Trinta e dois gols em nove jogos e uma goleada na final. Nunca tinha acontecido", orgulha-se Julinho.

"Aquela equipe era 'tuque, tuque, gol' antes do 'tiki taka' do Guardiola", relembra Écio Pasca, que 25 anos depois continua é exaltado como mentor daquele time.

"Construímos uma história muito bonita naquele ano e que jamais será apagada. Ao rever a taça daquela conquista passa um filme pela minha cabeça. Não somente dos jogos, mas do convívio no dia a dia. A gente sempre teve amizade fora de campo, mas dentro brigava muito. Eu, o Sinval e o Dener éramos muito individualistas, não pensávamos no grupo e na Portuguesa. Mas tudo mudou com a chegada do Écio. Ele nos deu um objetivo em comum", recordou Tico, emocionado no reencontro.

De fato, o mentor daquela equipe foi Écio Pasca, treinador que em dois anos conseguiu fazer a melhor geração da base da Portuguesa tornar-se inesquecível. Também foi ele quem criou o apelido 'losangos flutuantes', uma referência ao sistema tático.

Para entender o que foi aquela Portuguesa de 1991, no entanto, é preciso retornar quase dois anos. Foi em setembro de 1989 que a Portuguesa buscou Pasca, então no Grêmio Mauaense, para iniciar o trabalho mais marcante da carreira dele como treinador.

Rafael Valente/ESPN.com.br
Espaço dedicado a Dener no museu da Portuguesa, no Canindé
Espaço dedicado a Dener no museu da Portuguesa, no Canindé

INDIVIDUALISMO E OS 'LOSANGOS FLUTUANTES'

O nome pode soar hoje um tanto quanto esquisito: 'losangos flutuantes', mas foi repetido a exaustão em 1991 e era associado facilmente a Portuguesa.

O técnico Écio Pasca levou o termo até para mesmo fora do Brasil. Repercutiu na Itália, em Portugal, na França, na Inglaterra e até na mídia dos EUA.

Ex-jogador do Palmeiras no período da Academia e membro da comissão técnica do rival durante a Democracia Corintiana, Pasca foi o criador do termo, baseado no esquema tático que adotou Lusa a partir do primeiro dia de trabalho.

"A inspiração mesmo veio do basquete e dos estudos no futebol. Naquela Portuguesa eu escalava um líbero para proteger a defesa, dois alas, que tinham de defender e atacar, e um homem de referência na área adversária, o Sinval. O desenho era um losango. A flutuação ficava com o Dener, que jogava solto no ataque e não era cobrado por mim para ajudar na marcação. Quem fazia esse trabalho era o Tico. Mas o Tico tinha muito mais conhecimento tático e, às vezes, flutuava também", relembra Pasca.

Apesar de revelar bons jogadores, a Portuguesa não formava bons times na base. Prova disso é que o melhor resultado era um vice do Estadual sub-20 em 1970. Mas as coisas pareciam ser diferentes ao final dos anos 1980.

Antes mesmo de Pasca ser contratado, a equipe já havia feito um bom papel na Copa São Paulo de futebol júnior de 1989, ao chegar à semifinal - foi desclassificada pelo Juventus após empate sem gols e derrota nos pênaltis por 3 a 1. Mas havia um grave problema de indisciplina e falta de compromisso dos jogadores.

"Teve treino que eu cheguei a correr atrás do Dener para tomar a bola dele sendo que a gente atuava no mesmo time! Havia muito individualismo na equipe, principalmente meu, do Tico e do Dener. Quando o Écio chegou ele disse: 'Vocês não se respeitam e enquanto vocês não se respeitarem não vai ter treino'. E foi assim. No primeiro dia a atividade durou dez minutos, no segundo durou 15, depois 20", afirma Sinval.

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Primeira camisa utilizada por Dener na Portuguesa
Primeira camisa utilizada por Dener

"Era um individualismo bobo. Fora de campo a gente era muito amigo, mas dentro era cada um por si. Se eu recebesse a bola, eu preferia driblar e tentar o gol em vez de passar para o Sinval e Dener. Eu queria me consagrar. Assim era o Sinval e o Dener. E quando um errava havia cobrança forte. O Écio mudou isso", completa Tico.

A chegada de Pasca já teve efeito na campanha de 1990, quando a Lusa teve uma participação empolgante (fez 15 gols em seis jogos), mas foi eliminada pelo Flamengo de Djalminha e Marcelinho na terceira fase da competição após empate por 1 a 1 e derrota nos pênaltis por 4 a 1.

"O Écio foi muito feliz ao conversar com o grupo e mostrar que a Portuguesa tinha dois craques: Tico e Dener. Tinha eu, o 'cabeça de bagre', como ele me chamava, para fazer os gols e o restante para carregar o piano. Só assim, com cada um fazendo seu papel, é que a seria um time vitorioso", relembra Sinval.

A melhora ficou evidente na disputa do Campeonato Paulista sub-20, onde a Portuguesa dominou. Venceu muitos jogos por goleada e, ao final, foi campeão no Canindé contra o XV de Jaú. Também inédito, o título fez com que jogadores como Tico, Sinval e Dener fossem requisitados para defender o time profissional.

REBELDIA DO TRIO

Pasca sabia que os três ainda não tinham concluído a passagem pelas categorias de base. Assim, em dezembro de 1990 solicitou que eles retornassem para se juntar aos demais 22 jogadores na preparação para a Copa São Paulo de 1991.

"Voltar? Não. A gente não aceitou aquilo. Na nossa cabeça era um retrocesso. A gente já estava no profissional da Portuguesa. A gente não jogava muito, mas já tinha sido promovido, ficava no banco em alguns jogos. Recordo que o Dener disse que ia faltar no primeiro treino e faltou. Depois eu e o Sinval faltamos também nos outros treinos. Mas aí o Écio foi muito sábio para contornar a situação", relembra Tico.

A diretoria chegou a pensar em intervir, mas o treinador decidiu resolver.

"Eu conversei com cada um deles e disse que a Copa São Paulo daria maior visibilidade para eles. Eles jogariam todos os jogos, mostrariam o potencial deles e conseguiriam subir com moral e conseguiriam fazer um bom contrato. Coloquei aquele título como uma meta em comum. Eles se ajudariam e me ajudariam", recorda o treinador.

Dito e feito. A partir daquele momento a Portuguesa passou a treinar e a se dedicar visando a disputa da Copa São Paulo. "A gente estava fechado com a aquele objetivo. Todos, cada um dentro do seu papel, estava trabalhando pelo título", disse Maninho.

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Ecio Pasca, Sinval e Tico entram no gramado do Canindé
Ecio Pasca, Sinval e Tico entram no gramado do Canindé 

TEMPESTADE NO GRAMADO

Durante a Copa São Paulo um novo apelido surgiu para a Portuguesa conforme os jogos iam acontecendo: 'Tempestade no gramado'. Foi assim que Pasca batizou o time inspirado na Tempestade no deserto, durante a Guerra do Golfo, e em um objetivo: tentar marcar o primeiro gol com dez segundos de partida.

"Isso aconteceu três vezes. Eu tinha uma jogada pronta. Na saída de bola, o Sinval passava para o Dener, que tocava para o Tico. O Tico lançava o Josias ou o Charles, que metiam a bola para o Sinval. A gente também marcava sob pressão a saída de bola. Assim, quando retomava, a chance de gol era maior. Isso em 1991", conta Pasca.

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Ecio Pasca e Maninho, campeões da Copa São Paulo de 1991
Pasca, Maninho e a taça do Paulista sub-20 de 90

A Portuguesa foi impiedosa com os adversários naquela Copinha. Goleou quase todos. Nem mesmo o Grêmio (na final) escapou: 4 a 0. Somente o América-RJ (2 a 1) e o São Paulo (2 a 0) conseguiram evitar derrotas humilhantes.

Para os campeões de 1991, no entanto, o jogo mais marcante daquela trajetória não foi nem a final contra o Grêmio, mas sim o duelo contra o clube tricolor pela última rodada da fase de grupos. Inclusive, o jogo foi no Pacaembu.

"Aquele jogo foi importante pela situação. A gente sabia que se vencesse do São Paulo o caminho para o título estaria pavimentado. Mas estava difícil. Eu e o Cícero nos matamos na marcação e no ataque o Dener já tinha dado umas 800 pedaladas, umas mil canetas e nada de gol. Na saída para o intervalo eu cobrei ele, a gente discutiu e desceu o túnel do vestiário trocando socos. Os companheiros separaram a gente. Ficou um clima chato, um silêncio. O Écio não falava nada. Depois de cinco minutos em silêncio, o Écio se levantou, mandou eu levantar, depois mandou o Dener. E disse: 'Agora ninguém vai separar vocês. Se vocês quiserem se pegar, podem se pegar. Maninho eu preciso de você 100% no meio de campo, correndo. E Dener eu também preciso de você 100% no ataque, fazendo gols. Se vocês forem brigar a nossa história acaba aqui. Agora se vocês se abraçarem, a gente vai ganhar o jogo e ninguém vai nos parar'. A gente se sentia como irmãos, nos abraçamos e até choramos. Voltamos para o segundo tempo e vencemos por 2 a 0. Se você pegar a imagem do primeiro gol do Dener, quando ele marca ele corre até mim e me abraça. Contar isso até me arrepia", relembra, emocionado, Maninho.

Tico recorda com alegria daquele jogo porque era o dia do aniversário dele. "Lembro que depois fui para a casa do Dener com ele e a família dele tinha feito uma festa surpresa para mim. A nossa amizade era muito forte.". Mas cita como exemplo da transformação da equipe a partida válida pela semifinal contra o Goiás.

"Foi 3 a 1, mas de virada. Foi um jogo difícil, chato para o nosso ataque. Lembro que eu marquei o primeiro gol. Na jogada eu recebi a bola e vi o caminho livre para eu definir. Escutei o Dener e o Sinval falarem para mim 'Marca o gol neguinho. Esse não dá para perder'. Não foi uma cobrança. Foi um incetivo. Diferente de quando começamos juntos e que cada um queria aparecer mais do que o outro. Foi um incetivo positivo. Naquele jogo ficou bem claro o que o Écio fez conosco e por isso relembro com carinho."

A FINAL E A SEQUÊNCIA

A final contra o Grêmio foi disputada no Pacaembu, no dia 26 de janeiro. Naquela altura, a Portuguesa estava tão confiante que não houve treino na véspera.

Os jogadores tiveram uma sessão de massagem para relaxar no Hotel Cambridge, no centro da cidade, onde ficaram concentrados para o jogo. Já o Grêmio passou a véspera treinando em uma chácara em Arujá.

"Não era menosprezo ao Grêmio, que tinha Danrlei, Carlos Miguel e outros, mas confiança no nosso potencial era enorme", relembra Sinval. "Eu recordo que sonhei que seria 3 a 0, um gol meu, um do Sinval e um do Dener. Quando fiz o terceiro gol eu corri para abraçar o Sinval e falei 'eu sonhei com isso e te contei, lembra?'. O Pereira fez o quarto e 'estragou' o placar que eu sonhei, mas foi uma alegria enorme", conta Tico.

Gazeta Press
Time da Portuguesa que encarou o Bahia na Copinha
Time da Portuguesa que encarou o Bahia, no Canindé, na Copinha

Do time campeão, sete jogadores subiram diretamente para o profissional. Como havia prometido Écio Pasca, o trio Tico, Sinval e Dener tiveram os contratos melhorados.

No entanto, no profissional as coisas não progrediram tanto. Os campeões da Copinha eram aproveitados com cautela. Apenas o trio teve mais chances. Em 1992, muitos já tinham deixado a Portuguesa, inclusive Dener - foi emprestado ao Grêmio.

"Na época, a Portuguesa queria encontrar um time e conseguiu. Formou em casa. Infelizmente o trem da história passou e muito desses meninos não tiveram sucesso. Em 1996, a Portuguesa perdeu o título do Campeonato Brasileiro para o Grêmio que manteve boa parte dos jogadores de 1991. Isso comprova que um bom trabalho precisa de tempo para dar resultados. Se a diretoria tivesse mantido aquele grupo poderia ter sido campeã como o Grêmio foi. Mas faltou paciência", conclui Écio Pasca.

FICHA TÉCNICA

PORTUGUESA 4 x 0 GRÊMIO
FINAL DA COPA SÃO PAULO DE FUTEBOL JÚNIOR 1991

Data: sábado, 26/01/1991
Local: estádio Paulo Machado de Carvalho (Pacaembu), em São Paulo (SP)
Árbitro: Ulisses Tavares da Silva (SP)
Gols: Dener, 10, e Sinval, 45 min do 1º tempo; Tico, 27, e Pereira, 30 min do 2º tempo

PORTUGUESA: Paulo Luís; Souza, Baiano, Cícero; Josias, Maninho, Pereira, Tico, Dener e Roman (Charles); Sinval. Técnico: Ecio Pasca

GRÊMIO: Danrlei; Leonel, Luiz Carlos, Groto e Emerson; Jamir, Edevaldo (Carlos Miguel), Mabília; Luciano André, Rubens (Rui) e Alexandre. Técnico: Barata

CAMPANHA

05.01.1991 - Portuguesa 2-1 América-RJ (primeira fase)
08.01.1991 - Portuguesa 5-1 Flamengo-RO (primeira fase)
12.01.1991 - Portuguesa 8-2 Sergipe (primeira fase)
14.01.1991 - Portuguesa 2-0 São Paulo (primeira fase)
17.01.1991 - Portuguesa 3-0 Santo André (segunda fase)
19.01.1991 - Portuguesa 3-1 São Bernardo (segunda fase)
21.01.1991 - Portuguesa 2-1 Bahia (segunda fase)
24.01.1991 - Portuguesa 3-1 Goiás (semifinal)
26.01.1991 - Portuguesa 4-0 Grêmio (final), Pacaembu

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