Dono de motel, segurança e advogado: veja como estão os campeões da Copinha pela Lusa

Helvídio Mattos, Rafael Valente e Vladimir Bianchini, para o ESPN.com.br
Rafael Valente/ESPN.com.br
Sinval, Tico e Écio Pasca no museu da Portuguesa
Sinval, Tico e Écio Pasca no museu da Portuguesa

Dono de motel, segurança particular, advogado imobiliário e treinador. Esse foi o rumo profissional que tiveram alguns dos campeões da Copa São Paulo de futebol júnior pela Portuguesa, em 1991, após terminarem a carreira dentro dos gramados. O principal nome daquela conquista, o atacante Dener morreu em um acidente de carro, em 1994. Exatamente 25 anos depois do título, os jogadores que estavam em campo naquela final contra o Grêmio contam como estão hoje.



dono de motel

O atacante Sinval, 44, foi artilheiro daquela da Copinha de 1991 com 12 gols - um recorde em uma mesma edição na história da competição - e teve uma longa trajetória dentro de campo. Passou por mais de 30 clubes, entre os quais Coritiba, Guarani, Vitória e Santa Cruz. Se aposentou aos 37 anos, quando defendia o Grêmio Barueri, em 2007, com algo em torno de 300 gols anotados em toda a trajetória.

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Sinval em jogo da Portuguesa contra o Bahia pela Copinha
Sinval em jogo contra o Bahia pela Copinha

Depois da Portuguesa, Sinval passou bastante tempo no Botafogo, clube com o qual admite também ter identificação. Foi campeão da Copa Conmebol de 1993 - para ele um dos títulos mais importantes e menos valorizados no futebol.

Antes mesmo de se aposentar, Sinval já pensava como iria administrar a vida e resolveu em investir em outro ramo: abriu um motel em Andradina, no interior de São Paulo, em 2002, temporada em que retornou para a Portuguesa. A ideia rendeu frutos e hoje o ex-atacante administra três motéis em sua cidade natal.

"Quando estava para me aposentar estava cansado porque toda hora trocava de cidade e sacrificava muito a família. Não estava legal e quando resolvi investir nisso deu certo. Consegui ter uma renda melhor do que o futebol estava me proporcionando e sem o mesmo desgaste. Com 37 anos vi que era hora de parar", disse à ESPN.

Mas o ex-atacante não abandonou o futebol logo de cara. Chegou a fazer um estágio com o técnico Vagner Benazzi na própria Portuguesa, em 2007, por quatro meses, atuando também com gestão esportiva. E treinou o Mixto-MT por dois meses, o que foi suficiente para decidir que não era o que queria.

"O técnico lida com muitos problemas, não é apenas o time, a parte tática. Se o clube não oferece estrutura adequada, como você vai recuperar um jogador. E quando os resultados não veem fica tudo nas costas do técnico", analisou.

Sinval guarda boas recordações da Portuguesa não apenas dentro de campo. O ex-atleta conheceu sua mulher nas dependências do clube. "Estou há 26 anos com a minha namorada. Conquistei ela na piscina do Canindé e estou com ela até hoje", relembrou.

O ex-artilheiro, que fez uma camisa em homenagem ao amigo Dener em 2014 (quando completaram-se 20 anos da morte do atacante), se emocionou ao rever os antigos companheiros de equipe na comemoração dos 25 anos do título da Copinha

"O Neguinho faz muita falta, era um amigo dentro e fora de campo. Ele que me ensinou a malandragem da cidade. Depois dos treinos me levava sempre para o centro de São Paulo e conhecia tudo, das coisas boas até as ruins. Sempre lembro dele. Fiz essa camisa e quando as pessoas me veem elas pedem, mas essa eu não dou", disse Sinval.

Campeões da Copinha pela Lusa em 1991 relembram a final do torneio e a morte de Dener

Revelando novos 'Deners'

Tico era considerado, ao lado do amigo Dener, um dos melhores jogadores daquela equipe. O ex-atacante passou pelo São Paulo, XV de Piracicaba e até no futebol grego, antes de encerrar a carreira aos 33 anos. Ele também estava no elenco da Lusa que perdeu a final do Campeonato Brasileiro para o Grêmio, em 1996.

Hoje, é o treinador do time sub-20 da Portuguesa que disputou a Copinha em 2016 (foi eliminado na fase de grupos) e tem como objetivo revelar novos craques.

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Tico ao lado de Capitão (esq.) com a taça do Torneio Início de 1996
Tico ao lado de Capitão (esq.), em 1996

"Depois que eu parei estava decidido a virar treinador. Já tinha uma visão tática do jogo como jogador. Ao me aposentar fiz alguns módulos de educação física na FMU. Também passei pela Universidade do Futebol. Trabalhei em escolinhas e em 2014 virei treinador. Comecei no sub-13 da Lusa em 2014 e ano passado fui selecionado para o sub-20".

"Fui presenteado por Deus por ter sido treinador da Portuguesa na Copinha exatamente 25 anos depois daquela nossa conquista, que foi muito importante para a minha carreira. Pena que tivemos pouco tempo de preparo e fomos eliminados cedo", relatou.

Quem não sai da memória de Tico é o amigo Dener, que ele conheceu ainda adolescente, quando eram adversários em campo. "Eu já jogava na Portuguesa e fomos fazer jogo contra um time da Vila Maria. E ele se destacou e o treinador da Lusa o mandou vir. Criamos uma amizade muito grande. Virou amizade de irmão", disse. 

"Era especial nos treinamentos, jogos, pela qualidade de que ele tinha. Sempre próximo na posição. Tínhamos um entendimento dentro e fora de campo muito grande. Pelo olhar a gente sabia o que o outro estava querendo dizer. As nossas famílias se encontravam nas folgas. Tenho muita saudade dele", prosseguiu.

A perda precoce de uma das maiores promessas do futebol brasileiro é algo que o ex-jogador não digeriu.

"A dor até hoje não cicatriza. Lembro que encontrei com ele no estacionamento do Canindé um dia antes do acidente. Ele saiu falando que estava vendido para o Stuttgart, da Alemanha. Ele estava aflito para voltar ao Rio de Janeiro logo para não atrasar no treino do dia seguinte. O Dener estava cotado para a seleção brasileira, mas como tinha fama de atrasar em treinos ele queria evitar comentários negativos que pudessem atrapalhar uma convocação", emocionou-se.

Foi a última vez que os amigos se encontraram, pois Dener faleceria em um acidente de carro justamente na volta para São Januário. "Ele estava tentando me levar ao Vasco e não tinha me tocado que tinha vindo de carro e nos despedimos. No outro dia recebi a noticia e não acreditei. Vi na televisão e fui para a casa da família dele. Todos estavam chorando e se abraçando, foi só então que a fica caiu", disse.

Segurança particular

Maninho era segundo volante e começou na base do Corinthians, mas em 1987 passou para a Portuguesa. Abandonou o futebol com 30 anos, quando estava no São Bento em 2001. Atuou por várias equipes antes disso: Marília, Inter de Limeira, Internacional, Bandeirantes-PR e Coritiba. Não chegou a ficar famoso.

O motivo para ter se aposentado com 30 anos não foi uma lesão, mas uma constatação. "O futebol já não me pagava tão bem. Clubes atrasavam salários. Achei que era melhor me retirar, ficar mais próximo da família e buscar outra atividade", contou.

O ex-atleta hoje é pastor evangélico, administra um estacionamento e trabalha como segurança particular. Mora em São Paulo e acompanha os jogos da Portuguesa, apesar de admitir que torce pelo Corinthians.

"Mas na minha casa a única foto que tenho da minha vida no futebol é na Portuguesa. Onde eu estou eu procuro torcer pela Portuguesa. O que me marcou mais marcou minha vida foi a passagem pelo Canindé. Era uma família. Foi fantástico aquilo. Tínhamos amizade, compromisso, objetivos em comuns. As famílias são amigas até hoje. Sinto saudade de tudo", recordou.

Ao rever os antigos companheiros no Canindé, no encontro promovido pela ESPN, Maninho desabafou. "É um misto de alegria grande de ver irmãos. Rever o Écio, que proporcionou essa irmandade. Todos nos sabíamos jogar. Nos conhecíamos bem. Mas cada um tinha um objetivo. E ali fomos levados a crer que, se todos tivessem o mesmo objetivo, a gente teria sucesso. O que causa tristeza é ver que falta isso na Portuguesa. Nosso objetivo era fazer a Portuguesa grande", lamentou.

Responsável por cuidar da segurança dos craques dentro de campo, o volante brincou. "Quando eu vi o Tico e o Sinval eu senti falta do Cícero. Eu olhava para ele e dizia: 'Cícero, os caras só querem flutuar e nós dois ralando aqui', disse, aos risos.

Rafael Valente/ESPN.com.br
Ecio Pasca e Maninho, campeões da Copa São Paulo de 1991
Ecio Pasca e Maninho, campeões da Copa São Paulo de 1991

Da ponta direita para os tribunais

Julinho era ponta direita reserva naquele esquadrão e não alcançou o mesmo sucesso do trio Dener, Sinval e Tico.

Aos 43 anos, virou advogado e trabalha como assistente jurídico em um escritório particular, além de trabalhar em uma imobiliária. Deixou o futebol aos 28 anos porque sentiu que não estava mais valendo a pena.

Rafael Valente/ESPN.com.br
Julinho (à dir.) um dos campeões da Copa São Paulo com a Portuguesa
Julinho (à dir.) um dos campeões da Copa São Paulo

"Ganhava muito pouco e pensei em tentar outra profissão. Fui estudar e me formei em direito na Unip". Após deixar a Portuguesa ele rodou por vários clubes. Passou pelo México por dois anos, jogou no Juventus e encerrou a carreira.

Daquela época de Portuguesa, ele recorda também das amizades.

"Eu era mais calmo, mais quieto, mas lembro das brincadeiras, especialmente do Dener. Todo mundo ali tinha um convívio muito bom. Mesmo quem não morava nos alojamentos do Canindé procurava sempre estar no estádio. A gente era muito próximo. Não vivenciei nada como aquele período. Tenho saudade", disse à reportagem.

professor virou cartola

O grande responsável pela orquestra lusitana era o professor Écio Pasca, treinador do time. Aos 65 anos, ele é presidente do Santa Catarina Clube, que fica na cidade de São Francisco do Sul. O clube foi campeão da terceira divisão do catarinense com o time sub-20 e foi quarto colocado com o profissional.

O ex-jogador do time do Palmeiras chamado de Academia passou como dirigente pelo Juventus-SP e Corinthians antes de desembarcar no Canindé.

"Em 1989, eu fui contratado. Começamos exatamente no terrão. Tinham vários jogadores que se consagraram como Dener, Sinval, Tico. Mas já na seleção brasileira infanto-juvenil, que eu fui técnico, tinha tido contato com esses meninos. Por indicação mandei ao Manolo vários meninos que foram campeões do infantil", garantiu.

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Sinval, Régis, Tico, Ecio Pasca, Maninho, Rivellino e Julinho, os campeões da Copinha de 1991
Sinval, Régis, Tico, Ecio Pasca, Maninho, Rivellino e Julinho, os campeões da Copinha de 1991


O time que encantaria o Brasil foi formado em dois anos, quando fez frente ao esquadrão do Flamengo que tinha Djalminha, Marcelinho Carioca e Paulo Nunes, em 90, mas foi eliminado nos pênaltis. No ano seguinte veio o troco dos lusitanos. "Esse time de 1990 era melhor que o de 1991. Começamos a trabalhar no CT, com mais estrutura e fomos campeões no ano seguinte", afirmou o treinador, que também trabalhou no futebol chinês em 2003.

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