Com Bebeto e Edinho, time do Haiti estreia na Copa SP antes de iniciar fase profissional no RJ

José Edgar de Matos e Rafael Valente, de São Paulo (SP), para o ESPN.com.br
Talentos forjados na vontade, rapidez e resistência; conheça o Pérolas Negras, time do Haiti

Seduzir uma grande equipe e assinar um contrato profissional é o sonho da maioria dos garotos que disputam a Copa São Paulo de futebol júnior, torneio sub-20 que abre a temporada nacional. O sonho não é diferente para os 23 jovens haitianos que defendem a Academia Pérolas Negras, também do Haiti e atração mais peculiar da tradicional competição.

Criado em 2009, o Pérolas Negras é o único clube estrangeiro na disputa deste ano. A estreia ocorre neste domingo diante do Juventus, no folclórico estádio da rua Javari, na Mooca, em São Paulo, às 14h (de Brasília), pelo grupo 28. Desconhecido no Brasil, engana-se quem pensa que a equipe ficará conformada apenas em participar.

O time, que tem média de idade de 18 anos, é bastante experiente. Os atletas da delegação possuem no currículo participações em torneios na Europa e também em duas oportunidades no futebol brasileiro (2014 e 2015). A expectativa da comissão técnica surge até como usada: passar pela fase de grupos.

Além do Juventus, o grupo conta também com o América-MG e o São Caetano. Todos os jogos serão realizados no estádio da rua Javari.

Combustível brasileiro

Se o motor do Pérolas Negras é haitiano, o combustível é brasileiro.

A equipe é mantida desde 2011 pela organização social carioca Viva Rio, que investe anualmente US$ 500 mil dólares no projeto, e tem como treinador o mineiro Rafael Novaes. Além do comandante, quem inspira os jogadores do clube são todos trajados de verde e amarelo. Não apenas na figura dos ídolos como Ronaldinho e Neymar, mas também nos nomes. 

Alguns carregam no documento de identidade homenagens a brasileiros. São os casos dos volantes Muraille Bebeto, 19, e Oxat Edinho, 18, ambos titulares e cujos nomes foram escolhidos pelos pais para reverenciar, respectivamente, o campeão da Copa do Mundo de 1994, nos Estados Unidos, e o zagueiro da Copa do Mundo de 1982, na Espanha.

Rafael Valente/ESPN.com.br
Time do Haiti 2
Time haitiano estreia neste domingo

"Os haitianos são apaixonados pelo Brasil. Conhecem mais do futebol brasileiro do que o próprio brasileiro. Lembram de várias gerações da seleção brasileira. Muitos têm nome de jogadores do nosso país. Vir ao Brasil e jogar uma competição tradicional como a Copa São Paulo é um momento único para eles", disse o técnico Rafael Novaes ao ESPN.com.br.

"Haiti jogou somente uma Copa do Mundo e foi em 1974. Eles querem voltar ao Mundial, mas é muito difícil. Viemos aprender um pouco mais, mas também queremos deixar uma mensagem. A gente fica chateado quando as pessoas mostram apenas as dificuldades do Haiti. As pessoas só lembram do terremoto, mas no futebol podemos mostrar que lá também tem trabalho, tem meninos com sonhos", completou o treinador.

Origem humilde

A humildade é a caractéristica principal dos jogadores dos Pérolas Negras.

Jovens, eles ficam calados quando há estranhos por perto, como quando abordados pela reportagem do ESPN.com.br. Nenhum se apresenta com o visual produzido como jovens da mesma idade que atuam no Brasil. São, sobretudo, discretos.

A alegria é vista em campo. Com brincadeiras e tentativas de reproduzir dribles de craques como Messi, Cristiano Ronaldo e Neymar, o sonho de todos recai apenas em um ato: alcançar o sucesso.

"O futebol representa para mim a chance de melhorar a minha vida e a vida da minha família", disse o zagueiro Wilmond Oracius, 18, um dos poucos que fala português.

Assim como ele, os demais jogadores vivem a expectativa de transformar o futuro por meio da Copa São Paulo de futebol júnior. Querem ganhar dinheiro para receber os familiares no Brasil. A maioria tem muitos irmãos e os pais desempregados.

"A Copinha pode mudar tudo para mim. Se eu for um jogador profissional, posso trazer minha familia para cá. Ajudar os meus pais e meus amigos.  Eu fico muito triste quando lembro do terremoto que atingiu meu país. Tinha 12 anos. Vi muita gente morta. Só de lembrar eu me entristeço. Tenho alegria com o futebol", relembrou o meia-atacante Fenelon Marckenson, 17.

Marckenson fala português fluentemente. Aprendeu no período em que defendeu o Audax-SP (2012-2013) e o Boavista (desde maio de 2014). Após a Copa São Paulo, o haitiano vive sob a expectativa de retornar ao clube carioca para a disputa do campeonato estadual nesta temporada. 

Rafael Valente/ESPN.com.br
Fenelon Marckenson, 17 anos, jogou no Brasil
Fenelon Marckenson, 17 anos, jogou no Brasil por Audax e Boavista

Futuro profissional

Como a equipe haitiana é apenas amadora, isto é, conta apenas com as categorias sub-12, sub-15, sub-17 e sub-20, a expectativa é que os jogadores consigam atrair a atenção dos clubes brasileiros e recebam convites para ficar no país. 

A preocupação recai especialmente sobre os atletas próximos da idade limite. São nove dos 23 que tem 19 anos. Mas, ainda que não apareça uma oportunidade após a Copa São Paulo, a trajetória deles no Pérolas Negras não será encerrada.

O clube conseguiu montar uma filial no Rio de Janeiro e inscreveu-se para jogar a terceira e última divisão do Estado. Após o fim do torneio paulista, a delegação viajará para a cidade de Paty do Alferes, a pouco mais de 100 km do Rio, onde poderá treinar para o campeonato Estadual.

"Nossa ideia é a disputa da Copa São Paulo seja apenas o começo de uma nova etapa do nosso projeto. Estamos formando o Pérolas Negras no Brasil. Vamos formar jogadores de até 17 anos no Haiti e de 18 anos para frente eles terão sequência no Brasil. A ideia é fazer uma ponte permanente entre Haiti e Brasil. É a diplomacia do futebol", explicou à reportagem Rubem Cesar, diretor executivo da Viva Rio.

Projeto

Rafael Valente/ESPN.com.br
Time do Haiti
Projeto conta com o apoio da Viva Rio

Criada em 1993 como uma 'resposta à violência no Rio', a organização social Viva Rio está no Haiti desde 2004. Foi ao país a convite da ONU para colocar em prática projetos sociais que já desenvolvia nas comunidades cariocas, com trabalhos que envolvem desde educação e formação até aos cuidados com a saúde e com o meio-ambiente.

Em 2010, quando ocorreu o terremoto que deixou o Haiti arruinado, a Viva Rio intensificou os trabalhos no país. Adotou o Pérolas Negras com o objetivo de ajudar os jovens do país.

O Haiti é a nação mais pobre de toda a América Latina - com IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) calculado pela ONU (Organização das Nações Unidas) em 0,483 -, a população vive em condição de miséria e quase não há oportunidades de emprego e estudo para a população. Por outro lado, a equipe dos Pérolas Negras convive com uma realidade diferente.

Os treinamentos ocorrem em um centro de treinamento moderno na periferia de Porto Princípe, em espaço construído pela Viva Rio. Os atletas têm acompanhamento de profissionais brasileiros formados na Universidade de Viçosa, interior de Minas Gerais. Alguns jogam até mesmo pelas seleções de base do país.

"Fizemos um alojamento com hotel para 96 atletas, além do estafe. Os jovens ficam de segunda a sábado no local. Treinam de manhã e pela tarde, e tem cinco refeições por dia", explicou Rubem Cesar. "Lá é trabalho, trabalho e trabalho. Eles acordam cedo, comem, treinam, estudam e depois dormem de novo", continua.

"Quando se pensa no Haiti se pensa somente na tragédia que foi o terremoto. Mas a gente vê valor no Haiti. E onde achamos isso? No futebol. Se eles têm tanta paixão pelo futebol é possível que tenham talento também. E estamos dando oportunidades para eles", finaliza.

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