De imigrante ilegal a capitão na Inglaterra: conheça o único brasileiro na 3ª divisão do país

Bruno Andrade, especial para o ESPN.com.br
Divulgação
Raphael Branco
Raphael Branco joga na terceira divisão da Inglaterra

Ilegalidade, risco de ser deportado para o Brasil, pedidos de ajuda financeira para o treinador e, acima de tudo, incertezas. Tudo isso para realizar o sonho de atuar no badalado futebol inglês. O zagueiro brasileiro Raphael Branco demorou, mas conseguiu. Depois de mais de dois anos sem jogar oficialmente por atrasos na documentação, ele hoje colhe os frutos da persistência: ser capitão aos 25 anos do Swindon Town, tradicional clube da League One (terceira divisão).

Filho de ex-goleiro e natural de Campinas, interior de São Paulo, Raphael passou pelas categorias de base de Guarani, Corinthians, Cruzeiro e Vitória antes de se tornar profissional no Porto Alegre, em 2011. Nos gramados gaúchos, o defensor despertou interesse de um empresário uruguaio amigo do ex-meio-campista e compatriota Gustavo Poyet, então treinador do Brighton & Hove Albion, na época na terceira divisão inglesa. Mas não demorou muito para o desejo de infância se tornar um longo e doloroso pesadelo.

"A ideia era fazer um teste de 15 dias, só que gostaram de mim e acabei ficando três meses. Eu estava treinando, me destacando, mas não tinha passaporte europeu e fui obrigado a voltar no início de 2012 para o Brasil, onde fiquei seis meses treinando sozinho. Neste período, minha família correu atrás da documentação para tirar meu passaporte italiano, que ficaria pronto em setembro. Com a certeza disso, voltei para a Inglaterra em junho. Mas o que aconteceu? Atrasou tudo", lembrou Raphael Branco, em entrevista ao ESPN.com.br.

"Mesmo sem a documentação, fiquei seis meses na Inglaterra. O grande problema é que eu estava com a situação irregular nos últimos três meses, meu visto havia vencido. O clube segurou a bronca e me manteve no país mesmo de forma ilegal. Pediram para eu ficar na minha, sem chamar a atenção para não correr o risco de ser descoberto e deportado, o que certamente ferraria minha carreira e, principalmente, o Brighton. Fiquei com muito medo de isso acontecer. O clube correu um enorme risco fazendo isso num país certinho e cheio de leis", completou.

Vivendo como imigrante ilegal na Inglaterra, Raphael Branco sofreu bastante. Sozinho e com apenas uma pequena ajuda de custo da diretoria do Brighton & Hove Albion, ele chegou a pedir dinheiro emprestado para o técnico Gustavo Poyet. Em fevereiro de 2013, o passaporte italiano do jogador, enfim, foi expedido. Drama resolvido? Que nada.

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Raphael Branco
Raphael Branco, em ação pelo Swindon Town 

"Estava tudo certo para assinar com o Brighton, mas o clube precisava de uma carta de transferência (direito de formação) do Brasil. Era uma carta que os clubes por onde passei teriam de assinar declarando que estavam abrindo mão do percentual financeiro da minha formação. Era isso ou o Brigton teria de pagá-los (na época, 200 mil libras). Óbvio que isso não ia acontecer. Ninguém no Brasil deixaria de lado um dinheiro fácil, enquanto o Brigton não pagaria para ter um jogador até então desconhecido. Dito e feito. Voltei para o Brasil mais uma vez", explicou.

Sem clube e longe dos gramados há um ano e meio, o zagueiro realizou alguns testes em outros clubes da Europa, entre eles o Lecce, da Itália, e também do Brasil. Todos, infelizmente, sem sucesso. Perto de desistir do futebol no segundo semestre de 2012, ele então viu surgir uma última luz no fim do túnel. E logo na "conturbada" Inglaterra.

"Fui jogar de graça no Whitehawk, da sétima divisão. Como o time era amador, ele não precisava da carta de transferência do Brasil. Era a chance de jogar e fazer uma ponte para um clube maior. Fiquei lá quatro meses, aprendi muita coisa, vivi outra realidade e, no fim, fomos campeões. Valeu muito a pena tudo o que passei. Com o título, me destaquei e fui convidado para jogar no Swindon Town, da terceira divisão. O convite veio por meio do auxiliar e hoje grande amigo Luck Willians, que havia trabalhado comigo no Brighton & Hove Albion. Era o fim do sofrimento...", declarou.

Desde 2013 no clube, que na última temporada quase conquistou acesso à segunda divisão, Raphael Branco rapidamente se tornou líder e um dos jogadores mais queridos da torcida de Swindon, pacata cidade do Sudoeste da Inglaterra. Mesmo com o time no meio da tabela nesta temporada, o zagueiro, único brasileiro na terceira divisão, ainda sonha com o título. Um título para, quem sabe, chamar atenção de uma grande equipe da elite.

"Cheguei aqui com uma mão na frente e outra atrás. Hoje, felizmente, sou titular e capitão da um time inglês. Ganho um bom salário, aqui não existe atraso no pagamento, os estádios têm média de 9 mil torcedores por jogo, a estrutura é sensacional... Lutei muito e estou realizando um sonho. Sei que preciso de mais experiência, jogar uma Championship (segunda divisão), mas tenho uma vontade enorme de atuar na primeira divisão. Quem sabe no Chelsea (risos)", finalizou.

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