Ex-Inter virou lavador de carros e sonha em voltar a um time grande

Francisco De Laurentiis e Vladimir Bianchini, do ESPN.com.br
Marcelo Campos/Preview.com/Gazeta Press
Pessanha Walter Treino Internacional 21/11/2008
Pessanha jogou com Walter no Internacional em 2008

Em 4 de maio de 2008, o zagueiro Diogo dos Santos Pessanha sagrava-se campeão gaúcho pelo Internacional, seu primeiro título como atleta profissional, com uma goleada por 8 a 1 sobre o Juventude. Em 3 de dezembro do mesmo ano, levantou mais um troféu: a Copa Sul-Americana. Parecia tudo certo para o jovem defensor se consolidar como jogador do clube de Porto Alegre e seguir brilhando na carreira.

Três anos depois, contudo, Pessanha estava sem clube. Como as contas não se pagam sozinhas, foi trabalhar no lava jato de um primo para ganhar um dinheiro lavando carros. Depois, ainda atuou como cobrador na Kombi de seu pai, que transportava passageiros.

Para entender como isso aconteceu, é preciso voltar ao princípio de tudo.

Quando era jovem, no Rio de Janeiro, Pessanha percebeu que nada na sua vida seria fácil. Afinal, quase morreu logo aos 10 anos de idade em um alagamento. Viu sua família perder tudo, e só conseguiu seguir em frente porque o Madureira, onde jogava futsal, ajudou.

"Nós perdemos nossa casa de aluguel numa enchente em Rocha Miranda [bairro do Rio], porque passava um rio atrás. Deu um temporal, o muro caiu e perdemos tudo. Eu fiquei com água no pescoço, quase morri. Ficamos sem ter onde morar, mas o pessoal o Madureira nos ajudou e alugou uma casa para gente", conta, em entrevista ao ESPN.com.br.

Talentoso nas quadras, o atleta jogou futebol de salão no Madureira e no Fluminense antes de ir para o campo, no Flamengo, em 1998, na mesma turma de Renato Augusto, hoje no Corinthians. Depois, passou ainda por Botafogo e Palmeiras antes de chegar ao Inter, em 2007.

Jovem em Porto Alegre, Pessanha dividia apartamento com o goleiro Agenor, o "AgeNeuer", hoje destaque do Joinville: "Eu não tinha dinheiro pra nada... Os pais dele deram uma puta força, porque eu não tinha grana pra comprar móveis, nada... Sou muito grato até hoje".

No Beira-Rio, fez toda a base e subiu ao profissional ao lado de atletas como o volante Sandro, o goleiro Muriel e os atacantes Taison e Walter: "Eu concentrava com o Walter. A gente só dava risada, mal conseguia conversar. Ele é muito engraçado", recorda.

Promovido ao profissional pelo técnico Abel Braga, a quem se refere como "segundo pai", Pessanha fez parte do elenco campeão do Gauchão-2008. A estreia pelo time adulto aconteceu em 11 de maio daquele ano, em uma vitória por 1 a 0 sobre o Vasco, pela 1ª rodada do Campeonato Brasileiro.

"Estreei por culpa de uma crise de gripe no elenco (risos). Dias antes, o Abelão pediu cinco jogadores da base para completar o coletivo. Ele me colocou de volante para marcar o Andrezinho, eu fui bem e fui relacionado como titular! Eu sou negro, mas fiquei branco na hora, tamanho o susto (risos)", lembra.

"Depois do treino, cheguei no Andrezinho e falei: 'ô padrinho, porque ele me colocou de titular?' Ele respondeu: 'porque você não me deixou pegar na bola (risos)'. Ganhamos do Vasco de 1 a 0, com gol do Sidnei, isso eu guardo até hoje na minha vida. Joguei muito bem e marquei direitinho o Leandro Amaral. Foi um sonho", suspira.

Ainda em 2008, Pessanha fez parte do elenco que faturou a Copa Sul-Americana sobre o Estudiantes - Tite era o técnico, já que Abel foi para o Al-Jazira.

A carreira do zagueiro tinha tudo para decolar.

E foi aí que tudo começou a dar errado...

De titular do Inter a lavador de carros

Nem o próprio Pessanha sabe explicar bem o porquê de ter deixado o Inter, bem quando começava a se consolidar na equipe principal. À época com 20 anos e inexperiente, diz ter caído em "conversa de empresários". Quando viu, foi transferido contra sua vontade para o Boavista-RJ, e viu sua carreira entrar em parafuso.

"Muitas pessoas me perguntam até hoje por que eu saí do Inter, só que não sei responder... Eu fiquei chateado, fui na conversa de empresários... Meu agente na época acertou com o Boavista, como eu era muito garoto e não entendia nada de contrato, fui. Não tenho nada que reclamar do Boavista, me deu toda estrutura, mesmo sendo um clube pequeno, mas eu estava em um dos maiores times do mundo...", relata.

"Quando fui pegar minha rescisão no escritório do Inter, estava com o Gil [ex-atacante do Corinthians, atualmente no Juventus-SP], e ele perguntou o que eu estava fazendo lá. Estava pegando minha rescisão sem entender muito o motivo. Eu não queria sair, simplesmente o empresário fechou para mim porque eu tinha procuração. Eu poderia estar lá no Inter até hoje ou em outro grande clube", lamenta.

Divulgação/SC Internacional
Pessanha Levanta Trofeu Internacional Sub-20
Pessanha levanta taça pelo sub-20 do Inter

De volta ao Rio de Janeiro, o zagueiro rodou por Boavista, Duque de Caxias e Madureira. Em 2011, atingiu seu auge pelo clube de Saquarema indo à final da Taça Guanabara contra o Flamengo, que venceu o primeiro turno do Carioca daquele ano por 1 a 0. Foi aí que tudo desmoronou.

"Surgiu uma proposta do CRB para jogar a Série B, só que ao mesmo tempo apareceu um empresário dizendo que eu ia para o Belenenses, de Portugal. Na hora de ir, ligaram dizendo que o clube tinha contratado dois jogadores do Porto de graça e não tinha mais vaga pra mim. No meio de uma temporada, me vi sem clube. Não podia ser inscrito em lugar nenhum e fiquei quase um ano só treinando e trabalhando para me sustentar", conta.

Como a vida não pode parar, Pessanha começou a se virar para pagar as contas. Afinal, como ele sempre soube desde os 10 anos, nada viria fácil para ele.

"Meu primo abriu um lava jato e eu pedi para trabalhar com ele. Pela criação maravilhosa que eu tive dos meus pais, nunca fugi de nenhum trabalho. Ficar das 6h da manhã até 19h da noite com sol na sua cabeça não é fácil. Quem trabalha com isso tem que se orgulhar e ser valorizado, porque é uma profissão dura", observa.

Outro "bico" que Pessanha arranjou durante seu tempo sem clube foi de cobrador.

"Também trabalhei na Kombi, meu pai era o motorista e eu o cobrador. Você tem que ser muito simpático e educado com os passageiros. Lidar com público não é fácil, mas eu escutava uma coisas que me doíam...", recorda.

"Tinha aqueles 'amigos da onça' que passavam e ficavam em zoando por estar na Kombi, ouvia muitos comentários maldosos sobre isso: 'olha lá, o jogador virou cobrador'... Mas nunca deixei me abater, porque sabia que Deus estava preparando algo melhor para mim. Foi um ano muito difícil, mas no ano seguinte dei a volta por cima", completa.

O lanche com a namorada e o sonho

Pessanha admite que não foi fácil trabalhar como lavador de carros e cobrador enquanto esperava nova chance em um time. O que lhe carregou durante esta fase difícil foi o amor pela então namorada, hoje esposa, Maiara.

Divulgação/AA Portuguesa
Pessanha Portuguesa-RJ
Pessanha hoje defende a Portuguesa Carioca

"Eu trabalhava para ganhar R$ 30 e ver minha namorada. Ganhava esse dinheiro e gastava boa parte com a condução até a casa dela, demorava quase 1h30. Íamos comer um lanche e só me sobrava dinheiro para voltar", relata.

"O que mais me deixava feliz era chegar na casa e ver o sorriso dela porque íamos sair para comer só um lanche. Dividíamos os momentos mais simples, e isso me dava mais força para continuar. Por isso, dou tanto valor para minha esposa e meu filho", diz.

A chance de dar a volta por cima veio em 2012, no mesmo Madureira que já havia lhe ajudado na juventude, após sua família perder tudo na enchente. Destacou-se e foi contratado para jogar pelo Cabofriense, desta vez na 2ª divisão fluminense.

"Passava um filme na minha cabeça: 'Eu fui campeão da Sul-Americana, fui campeão gaúcho jogando, olha aonde eu estava e tudo o que aconteceu'. Naquele ano fomos muito bem, subimos pra elite, foi excelente pra mim também", afirma.

Atualmente, Pessanha defende a Portuguesa-RJ, que, neste sábado, às 15h30 (horário de Brasília), disputa a final da Copa Rio, contra o Resende, que vale uma vaga na Copa do Brasil ou na Série D do ano que vem - a partida de ida acabou 0 a 0.

Titular absoluto, o defensor, hoje com 27 anos, sonha com o título para, quem sabe, ter uma nova chance em um grande clube brasileiro.

"Fiz 47 partidas e 9 gols pela Lusa. Esse ano foi excelente, porque subimos para a elite do Carioca e conseguimos vaga na Copa do Brasil ou Série D. Eu tive propostas para sair, mas tenho contrato até o final do ano que vem. Sempre deixei bem claro para eles que sonho em voltar a jogar em um time grande", ressalta.

"Espero voltar um dia a jogar a um grande clube no país ou fora. Só peço uma oportunidade, tenho certeza que ainda posso jogar em alto nível e estou preparado para ajudar. Vou procurar ser feliz como eu era no passado, hoje estou feliz e sou muito agradecido, mas quero melhorar ainda mais", finaliza.

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