Técnico do São Paulo conta como barrou dois homens em seleção feminina às vésperas de Copa

José Edgar de Matos e Vladimir Bianchini, do ESPN.com.br
São Paulo site oficial
Marcelo Frigério (ao centro) é o treinador do São Paulo no futebol feminino
Marcelo Frigério (ao centro) é o treinador do São Paulo no futebol feminino

Você, fã do esporte, já assistiu ao filme ‘Ela é o cara’?

Neste blockbuster de 2006, lançado às vésperas da Copa do Mundo da Alemanha, a atriz Amanda Bynes se fantasia de homem para atuar em um time de futebol do high-school americano. A situação é impensável para o futebol dos dias atuais, no qual a tecnologia e o controle contra picaretagens crescem a cada dia mais. Entretanto, fã do esporte, aconteceu – e às avessas.

Copa do Mundo de 2011. O brasileiro Marcelo Frigerio recebeu o desafio de levar Guiné Equatorial longe no torneio. Antes de encarar, por exemplo, o Brasil de Marta pela fase de grupos, o treinador encarou o primeiro empecilho ainda em solo africano. Aquele filme de Amanda Bynes saiu das telas para a vida real em uma equipe participante do torneio mais importante da modalidade.

“Antes de assumir a seleção eu pesquisei na internet e vi que tinha uma acusação de que, na Copa Africana de Nações, duas atletas da seleção de Guiné na realidade seriam homens. Seria um escândalo nível mundial que eu não tinha noção até então”, contou, em entrevista ao ESPN.com.br.

Reprodução
Salimata Simpore era estrela da seleção feminina
Salimata Simpore era estrela da seleção

“Perguntei das duas gêmeas que não haviam se apresentado e estavam junto com a equipe olímpica masculina, concentradas em um hotel. Aí chegaram dois caras e me cutucaram: ‘Essas são as duas irmãs’. Respondi: ‘Vocês estão de brincadeira, eles são homens’”, acrescentou o treinador.

“Eles são homens”. Marcelo Frigerio não acreditava no que presenciava ao se encontrar pela primeira vez com Salimata e Bilguisa Simpore. Em pleno século XXI, o filme estilo ‘Sessão da Tarde’ tornou-se real. Neste caso, uma federação utilizava-se de uma manobra primitiva para burlar a regra básica da diferença de gênero. Para evitar um escândalo global e utilizar homens na Copa do Mundo, o treinador precisou de ajuda médica para convencer a federação local.

“Então elas treinaram e eu pedi para o medico as examinar, porque tinha certeza de que eram homens. Ele foi lá e constatou que eram homens mesmo. Elas tinham sido campeãs da Copa Africana e tudo mais”, recorda o treinador brasileiro que dirigiu Guiné Equatorial no Mundial de 2011.

Evidenciado o escândalo às vésperas da Copa do Mundo na Alemanha, Frigerio precisava tomar uma atitude. Como explicar publicamente o corte das gêmeas Salimata e Bilguisa, duas fundamentais peças nos últimos anos da equipe? No meio do futebol, a verdade por muitas vezes aparece anos depois.

“Na hora, eu pedi para mandarmos elas (eles) de volta pra Burkina Faso - eram naturalizadas – e falar que uma delas tinha machucado o joelho e a outra tinha ido embora junto porque não queria ficar longe. Cortei as duas da seleção, enquanto todo mundo esperava a presença delas. Quando chegou na hora da entrevista, precisei falar isso”, relembra.

Ditador ‘sanguinário’ não interferia na seleção

A aventura na Guiné Equatorial reservava uma nova vida para o treinador. Durante os seis meses em que permaneceu no país africano, Frigerio conviveu com uma realidade completamente diferente. A democracia consolidada no Brasil era uma utopia no país africano, palco de uma ditatura desde o ano de 1979.

Com uma população de 1,6 milhões e habitantes, a Guiné Equatorial é governada por Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, um político acusado pela ONG Anistia Internacional de violar os direitos humanos com execuções extrajudiciais, tortura, prisões arbitrárias e repressão a protestos.

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Teodoro Obiang Nguema Mbasogo governa a Guiné Equatorial desde 1979
Teodoro Mbasogo governa o país desde 1979

Recentemente, a Guiné Equatorial se tornou pauta dos principais jornais brasileiros. Em fevereiro, a escola de samba Beija Flor de Nilópolis sagrou-se campeã do Carnaval do Rio de Janeiro com um enredo sobre o país.

Além de falar sobre uma nação polêmica, a Beija-Flor recebeu recursos do governo ditatorial para realizar o desfile. O filho do presidente e uma comitiva da alta cúpula do país acompanharam o evento em um camarote na Marquês de Sapucaí.

Com Frigerio, no entanto, a relação era diferente. Durante o período na Guiné Equatorial, o treinador recebeu um tratamento diferenciado.

“Não tive problemas em relação ao presidente. Eu era considerado quase uma autoridade e tinha tudo do bom e do melhor, já o filho era o ministro dos esportes e todos foram simpáticos. Não tive problema algum”, garantiu o treinador, que, como única mudança de realidade, precisou tomar remédios para se prevenir da malária.

Projeto melancólico no São Paulo

Experiente no meio do futebol feminino, Frigerio comandou um novo projeto em 2015. Contratado para comandar o time do São Paulo, que retornou à ação no Campeonato Paulista deste ano.

Suseli Honório/SPFC/Divulgação
São Paulo encerrará o projeto feminino
São Paulo encerrará o projeto feminino

O projeto são-paulino nasceu com potencial. Mesmo no ano de estreia, o time do Morumbi terminou com o vice-campeonato, derrotado pelo São José na decisão. A boa campanha, contudo, não gerou recursos.

“Foi uma parceria entre o São Paulo e a Capes (Centro de Apoio Profissionalizante, Educacional e Social). A Capes não pagou o valor acordado na parceira, e o São Paulo teve que pagar tudo, nem aluguel do CT eles pagaram”, disse Frigerio, ainda sem perspectivas para o restante do ano.

“Por enquanto não temos nada. Algumas meninas estarão em outros time no Brasileiro, mas eu posso ficar desempregado. O projeto será descontinuado após a final e vamos tentar fazer um novo projeto do de 2016. Estamos vivendo a cada dia, pensando no futuro e esquecendo problemas. Queremos fazer com que as pessoas que falharam com a gente tenham vergonha de olhar na nossa cara”, discursou o magoado Frigerio, que, após passagem quase incólume (com exceção aos gêmeos que queriam ser gêmeas) pela Guiné Equatorial, encontrou problemas justamente no Brasil.

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