Quando o futebol é mais que um jogo: a Copa do Mundo dos Refugiados em São Paulo

José Edgar de Matos, do ESPN.com.br
Emiliano Capozoli/©ACNUR
Copa do Mundo dos Refugiados reúne 270 homens em busca de uma nova vida
Copa do Mundo dos Refugiados reúne 270 homens em busca de uma nova vida

"Algumas pessoas acreditam que futebol é questão de vida ou morte. Fico muito decepcionado com essa atitude. Eu posso assegurar que futebol é muito, muito mais importante".

Bill Shankly, uma das maiores lendas da história do Liverpool, profetizou durante a carreira uma das frases mais marcantes sobre o esporte bretão. Para quem vive, quem sente, o futebol é muito mais do que um simples jogo entre 22 pessoas correndo atrás de uma bola.

Você tem dúvidas? Pergunte aos 270 refugiados que ganharam, em um campo, a chance da ressocialização. Este é o grande propósito da Copa do Mundo dos Refugiados de São Paulo, que terá a fase final marcada para este sábado. A partir das 10h, no Centro Esportivo, Recreativo e Educativo do Trabalhador, Zona Leste de São Paulo, quatro seleções decidem o campeão da segunda edição.

Para nigerianos, camaroneses, marfinenses e os vencedores de uma tripla-disputa de pênaltis entre Congo, Guiné Bissau e Mali, o resultado é o que menos importa. A maior busca da Copa do Mundo dos Refugiados mira o lado humano, a amizade e a interação cultural entre diversas nações no Brasil, o país dos sonhos para quem viveu ao lado da guerra e da crueldade humana.

"O principal objetivo é integrar os refugiados. Há diversas culturas entre eles e poderia haver tensão, mas o futebol permite a união e a integração na sociedade. No primeiro dia de jogos, brasileiros que estavam no Centro queriam se inteirar sobre o torneio", contou Luiza Bodenmüller, relações externas do Centro de Acolhida para Refugiados, em conversa com o ESPN.com.br.

Mais do que a socialização dentro de um país completamente diferente, os 270 refugiados querem derrubar o preconceito. O futebol surge apenas como uma ferramenta para atrair o interesse da população para a causa, que cresce cada vez mais.

Emiliano Capozoli/©ACNUR
Oportunidade para unir povos de diferentes culturas
Oportunidade para unir povos de diferentes culturas

Segundo o Centro de Referência para Refugiados, o número de consultas aumentou 2000% nos últimos quatro anos; mais de 3.600 pessoas buscaram refúgio na capital paulista. Com a maior demanda, o trabalho do instituto cresce com apenas um objetivo: fazer do país a nova casa para esses seres-humanos.

"A sociedade tem um desconhecimento de quem é o refugiado. Muitos acham que essas pessoas cometeram crimes nos seus países, que mataram alguém ou que estão devendo. Os próprios refugiados falam que juntar tantas pessoas no mesmo espaço é importante para contribuir ainda mais para a causa. Queremos derrubar preconceitos", acrescentou Luiza.

A Copa do Mundo dos Refugiados reuniu 18 seleções, cada uma com 15 jogadores inscritos. Países como os semifinalistas Nigéria e Camarões encontraram facilidade para fechar o time, enquanto os refugiados da Síria e Afeganistão precisaram de reforços, por exemplo, palestinos para definir a delegação.

Emiliano Capozoli/©ACNUR
Time da Síria é reforçado por palestinos
Time da Síria é reforçado por palestinos

A oportunidade única de trocar experiências culturais e conviver com quem enfrenta a mesma dificuldade tornou o campeonato uma atração. Jogadores de várzea e até das divisões inferiores do futebol paulista se uniram aos atletas de final de semana - ou de quem nunca calçou chuteiras na vida, como o palestino responsável pelo gol da delegação Síria, que jogou pela primeira vez de goleiro justamente na Copa dos Refugiados.

A primeira edição do torneio ocorreu no ano passado. Incentivados pela realização do Mundial de 2014, aquela competição dos milhões de reais investidos e craques milionários, líderes dos grupos de refugiados decidiram realizar uma competição de futebol para, acima de tudo acelerar a adaptação daqueles que ainda enfrentam dificuldades na nova terra.

Emiliano Capozoli/©ACNUR
Camarões é um dos semifinalistas
Camarões é um dos semifinalistas

Os lideres de cada comunidade (dividida por países) contaram com a ajuda do Centro de Referência para organizar o torneio, que, em 2015, possui o apoio da Prefeitura de São Paulo, responsável por ceder o campo e dar um ar de profissionalismo à competição ao contratar árbitros para a final e o terceiro lugar, jogos marcados para a tarde deste sábado.

O futebol surge como a oportunidade e da integração, ou até mesmo uma chance de mudar toda a vida. Luiza conta que quatro jogadores já beiram o profissionalismo no futebol e que, em 2016, a ideia é despertar a atenção de olheiros de clubes para os jogos da próxima edição.

O grande sucesso, no entanto, vem fora das quatro linhas. O sorriso e a união entre nações diferentes, desde a África até o Oriente Médio, simbolizam o recomeço; este, sim, o grande legado da Copa, a Copa do Mundo dos Refugiados.

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