'Paitrocínio', desmaio, escola x treino: conheça dramas dos nadadores 'retardatários' do Pan

Tiago Leme e Gustavo Faldon, de Toronto (CAN), ESPN.com.br
Getty
Bem atrás dos campeões, nadadores 'retardatários' do Pan têm histórias de dificuldades
Bem atrás dos campeões, nadadores 'retardatários' do Pan têm histórias de dificuldades

Esqueça a briga por medalhas, recordes ou disputas acirradas braçada a braçada para ver quem chega na frente. Enquanto todos os outros nadadores já terminaram a prova, olham seus tempos no cronômetro e comemoram ou lamentam seus resultados, um último atleta ainda está na metade da piscina e vem quase que lentamente se esforçando para completar a prova. Porém, mesmo chegando até 30 segundos depois dos demais, esse bravo competidor bate na borda sob aplausos do público, não tira o sorriso do rosto e sai com sentimento de dever cumprido.

Longe dos microfones e das câmeras que perseguem as grandes estrelas dos Jogos Pan-Americanos, estão os "retardatários". Vários atletas de pequenos países que enfrentam uma rotina de dificuldades e superam duros desafios para realizarem o sonho de estarem disputando grandes campeonatos.

Durante a semana em Toronto, a reportagem do ESPN.com.br conversou com sete jovens nadadores que se enquadram nesta situação, nadadores que chegaram atrás, mais muito atrás de seus concorrentes, mas mesmo assim saíram da piscina se sentindo campeões.

As histórias e os dramas vão desde o início na natação no mar do Caribe, até o treino em uma marina por falta de piscina no país que foi destruído por um terremoto, a dificuldade de conciliar os treinamentos com as provas e estudos no colégio, o apoio financeiro dois pais para pagar viagens e torneios e uma atleta que desmaiou após competir no Pan.

E os heróis são Samantha Roberts e Noah Mascoll-Gomes (ambos de Antigua e Barbuda), Nikolas Sylvester e Shné Joachim (ambos de São Vicente e Granadinas), Omar Adam (de Guiana), Corey Ollivierre (de Granada) e Frantz Dorsainvil (do Haiti).

Tiago Leme/ESPN
Samantha Roberts, de Antígua e Barbuda
Samantha Roberts, de Antígua e Barbuda

Samantha Roberts (Antígua e Barbuda): Início no mar
Com apenas 15 anos de idade hoje, Samantha Roberts começou a nadar no mar do Caribe, antes de ir treinar na piscina. Natural de Antígua e Barbuda, uma pequena ilha de apenas 88 mil habitantes, ela disputou três provas no Pan de Toronto. Nos 200m livre, chegou em último na sua bateria, com o tempo de 2min15s25, 17,63 segundos atrás da vencedora, a brasileira Larissa Martins, e 10 segundos atrás da sexta colocada, Lani Cabrera, de Barbados.

"Eu comecei a nadar quando tinha cinco anos, mas não na piscina, comecei nadando no mar. Atualmente eu treino todo dia da semana, algumas vezes em duas sessões. Então, eu tenho que balancear os treinos da natação com os estudos. São duas horas e meia de natação e oito horas de estudo por dia. Mas é muito legal estar competindo aqui, é muito bom ser tão nova e já estar competindo em um evento deste. Quando eu for mais velha já saberei o tempo que terei que fazer, vou ganhando experiência. Eu achei que eu estava indo mais rápido na prova aqui, mas esse não foi o meu melhor tempo. Eu estava um pouco nervosa, tremendo um pouco, mas foi uma boa experiência", disse Samantha.

Tiago Leme/ESPN
Noah Mascoll-Gomes, de Antígua e Barbuda
Noah Mascoll-Gomes, de Antígua e Barbuda

Noah Mascoll-Gomes (Antígua e Barbuda): 'Paitrocínio' para competir
Também de Antígua e Barbuda, Noah Mascoll Gomes, de 16 anos, conta com o apoio financeiro dos pais para poder competir em torneios fora do seu país. Apesar de a federação de natação antiguada ter pago as despesas da equipe no Pan-2015, isso não acontece na maioria dos outros campeonatos, segundo ele explicou ao ESPN.com.br. Noah disputou os 400m livre no Canadá, terminou 22,15 segundos depois (com o tempo de 4min13s55) do brasileiro Leonardo de Deus, que ganhou a bateria, e quase 19 segundos depois do quinto colocado, Marcelo Acosta, de El Salvador.

"Natação é um esporte relativamente novo em Antígua, não é tão grande ainda. Mas é bom que nós estamos aqui nos Jogos Pan-Americanos, esse é o maior torneio que já disputei na minha vida. Eu não estava pensando em chegar às finais ou algo assim, queria fazer bons tempos pessoais, estou muito orgulhoso e feliz. Gostei do meu desempenho aqui. Não temos condições tão boas de treino em Antígua, as facilidades de treinamento ainda não estão prontas por lá, mas eles estão querendo melhorar. Nós só temos piscina de 25 metros no país, mas não temos academia de ginástica, nem fisioterapia, não temos o equipamento necessário, mas trabalhamos com aquilo que temos. Meus pais fazem de tudo que eles podem pra me ajudar, pra dar o que eu quero, ele trabalham por mim, me apoiam bastante, pagam as viagens para eu poder competir", contou Noah.

Tiago Leme/ESPN
Nikolas Sylvester, de São Vicente e Granadinas
Nikolas Sylvester, de São Vicente e Granadinas

Nikolas Sylvester (São Vicente e Granadinas): Irmão quase se afogou
Aos 15 anos de idade, Nikolas Sylvester é um dos melhores nadadores do Caribe e uma promessa de São Vicente e Granadinas, outra pequena ilha com praias paradisíacas na região. No Pan-Americano, o jovem atleta, que começou a nadar aos sete anos de idade depois que seu irmão quase morreu afogado, disputou três provas e, apesar de ainda estar em um nível bem inferior em relação aos outros concorrentes, até que não fez tão feio. Nos 100m peito, Nikolas fez o tempo de 1min11s94, foi o último colocado, mas ficou a "apenas" 12,10 segundos do vencedor da bateria, o brasileiro Felipe França, e menos de 4 segundos atrás do sexto lugar, o peruano Gerardo Huidobro.

"Comecei a nadar quando tinha sete anos, comecei porque meu irmão quase se afogou na piscina, então minha mãe resolveu me colocar em aulas de natação desde cedo. Eu sempre acordo às 4 horas da manhã, vou treinar até umas 6h15, depois saio da piscina e vou para a escola. À tarde, eu volto para a psicina e treino até o começo da noite. A natação está começando a crescer em São Vicente, a federação paga algumas das viagens para campeonatos, mas para alguns torneios nós mesmos que temos que pagar. Meus pais ajudam, minha mãe é uma advogada. Eu quero continuar nadando e ter uma carreira, mas também quero estudar medicina, no Reino Unido ou nos Estados Unidos. É fantástco estar aqui, estou amando a experiência. Eu espero poder voltar a nadar nos Jogos Pan-Americanos e fazer tempos melhores", disse Nikolas.

Reprodução/Facebook
Izzy Shné Joachim, de São Vicente e Granadinas
Izzy Shné Joachim, de São Vicente e Granadinas

Izzy Shné Joachim (São Vicente e Granadinas): Desmaio após prova no Pan
Uma das atletas mais novas a competir na história dos Jogos Pan-Americanos, Izzy Shné Joachim, também de São Vicente e Granadinas, completou 15 anos de idade em maio deste ano. Em Toronto, ela desmaiou após se sentir mal depois de sair da pisicina na prova dos 100m peito, quando fez o tempo de 1min20s25, 12,4 segundos atrás da vencedora, a canadense Tera Van Beilen. Com isso desistiu de disputar os 50m livre. Dois dias antes, Shné, nos 200m, peito, Shné também não teve bom desempenho e chegou 33,31 segundos (tempo de 2min58s72) depois de Kierra Smith do Canadá, que ganhou a bateria.

"Cheguei muito atrás da primeira colocada na minha bateria, isso nunca tinha acontecido comigo antes em nenhuma competição. Eu não estava me sentindo muito bem e desmaiei depois dos 100m peito. Eu treino duas vezes por dia, cinco dias por semana. Eu tento conciliar a natação com os treinos, mas antes do Pan-Americano eu tive provas no colégio e, como já tinha faltado muitas aulas por causa de campeonatos, tive que estudar bastante pra conseguir passar. Por causa disso, só tive duas semanas de preparação antes do Pan, não foi o ideal", contou a atleta de 15 anos.

Reprodução
Frantz Dorsainvil, do Haiti
Frantz Dorsainvil, do Haiti

Frantz Dorsainvil (Haiti): Sem piscina para treinar no país
Enquanto todos os outros nadadores já tinha chegado na prova curta dos 50m livre, Frantz Dorsainvil, do Haiti, ainda dava as suas braçadas. O atleta de 24 anos fez a péssima marcxa de 33s83, 11,71 segundos mais devagar do que o líder de sua bateria o norte-Americano Cullen Jones, e mais de 10 segundo depois do sexto colocado, o paraguaio Charles Hockin. Na saída da piscina, o haitiano contou sobre as precárias condições de treino que enfrenta no país que foi destruído por um forte terremoto, de 7 graus na escala Richter, em 2010. Sem nenhuma piscina por lá, ele treina no mar, em uma marina com águas mais calmas, dividindo o espaço até com barcos algumas vezes.

"Meu país só tem olhos para o futebol. No máximo, atletismo. Conseguir competir aqui é algo inimaginável. Estar aqui é uma conquista tão grande quanto ir a uma Copa do Mundo. A natação lá sobrevive graças à paixão de quem pratica. Não reconstruíram a piscina olímpica lá (depois do terremoto), nunca treinei lá numa piscina", explicou Frantz.

Tiago Leme/ESPN
Omar Adams, de Guiana
Omar Adams, de Guiana

Omar Adams (Guiana): Fã de Phelps e aplausos do público
Nascido na Guiana, Omar Adams, de 18 anos, também participou de três provas em Toronto. Fã do norte-americano Michael Phelps, ele teve o seu esforço reconhecido pelo público e terminou os 200m livre muito aplaudido, depois de chegar com 26,97 segundos de atrasado (com o tempo de 2min15s58) em relação ao ganhador de sua bateria, o argentino Federico Grabich, e 21 segundos depois do sexto colocado, o mexicano Long Yuan Gutierrez.

"Eu comecei quando eu tinha uns cinco ou seis anos, mas eu parei de nadar durante dois anos, e em 2010 voltei e comecei a competir. Meu ídolo é o Michael Phelps, ele é minha inspiração. Foi muito bom estar presente neste ambiente do Pan-Americano, ao lado de atletas muito rápidos, é bom ir se acostumando com isso", disse Omar.

Tiago Leme/ESPN
Corey Ollivierre, de Granada
Corey Ollivierre, de Granada

Corey Ollivierre (Granada): Desafio conciliar treinos e estudos
Outro retardatário que chamou a atenção nos Jogos de Toronto foi Corey Ollivierre, de 18 anos, de Granada, outro pequeno país caribenho com apenas 109 mil habitantes. Ao ESPN.com.br, ele falou sobre as suas dificuldades diárias de conciliar os treinos e os estudos na escola. Na prova dos 200m peito, o jovem nadador marcou 2min41s52 e chegou muito depois de todos os outros competidores. Ele bateu na borda da pisicna 29,90 segundos depois do primeiro colocado, o colombiano Jorge Murillo, e quase 20 segundos após o sexto colocado, Rafael Alfaro, de El Salvador.

"Eu comecei a nadar por causa dos meus pais, meu pai me levou à praia e depois me levou a uma piscina de hotel, Granada é sempre quente, então você nunca sente temperaturas extremas, como o frio. A piscina lá não é coberta. Eu nado e estudo ao mesmo tempo, é um desafio fazer as duas coisas, mas é possível. Eu quero ir para a universidade nos Estados Unidos no próximo ano. Mas é fantástico estar aqui, uma grande experiência, é um bom sentimento só de fazer parte dos Jogos, foi legal ouvir o público aplaudindo, mesmo eu chegando em último. Meu sonho é tentar se classificar para a Olimpíada. Isso está muito difícil pelos tempos que eu tenho feito hoje, mas eu continuo tentando", afirmou Corey.

Tiago Leme/ESPN
Provas de natação do Pan-Americano de Toronto terminaram neste sábado
Provas de natação do Pan-Americano de Toronto terminaram neste sábado
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