Ronco de Danilo, Leci Brandão e uísque de Juvenal: os bastidores do SP tri da América

Francisco De Laurentiis e Vladimir Bianchini, do ESPN.com.br
VANDERLEI ALMEIDA/AFP/GETTY IMAGES
Rogerio Ceni Levanta Trofeu Copa Libertadores São Paulo Final Morumbi 14/07/2005
Rogério Ceni levanta a taça: há 10 anos, São Paulo conquistava o tri da Libertadores

Nesta terça-feira, dia 14 de julho de 2015, o São Paulo celebra o aniversário de 10 anos da conquista do tricampeonato da Copa Libertadores da América. O título foi ganho após a goleada por 4 a 0 sobre o Atlético-PR, no Morumbi lotado por mais de 70 mil torcedores, com gols de Amoroso, Luizão, Fabão e Diego Tardelli.

Uma década depois do feito, o ESPN.com.br conversou com jogadores daquele time tricolor e descobriu divertidas histórias dos bastidores da campanha do São Paulo, que eliminou Palmeiras, Tigres-MEX e River Plate-ARG nos mata-matas até faturar a taça mais cobiçada do continente.

Confira algumas delas:

O ronco de Danilo

O meia Danilo, hoje no Corinthians, foi um dos destaques daquele título, principalmente pelos importantes gols marcados nos jogos de ida e volta contra o River Plate, no Morumbi e no Monumental de Nuñez. Só que, 10 anos depois, o então camisa 10 é lembrado pelos colegas devido a outra coisa: seus poderosos roncos no ônibus.

"O Danilo é brincadeira. Você conversa com ele e pensa que está com dengue (risos). Ele parece que está lento o tempo inteiro, acha que tudo está sempre bom, nada está ruim", conta o zagueiro Alex Bruno, hoje no Operário-MT, que disputa a Série D.

O defensor costumava sentar próximo ao meio-campista no ônibus e sofria com a potência da "serra elétrica" do colega.

"Nossa Senhora, o Danilo roncava toda vez no ônibus, era um absurdo! No caminho para o Morumbi, até mesmo na final, quando todo mundo estava naquela ansiedade e com uma pilha danada, falando pra caramba, tocando um pagode, ele ia dormindo e roncando, parecia uma motosserra (risos)", recorda.

FERNANDO PILATOS/Gazeta Press
Danilo Comemora Gol São Paulo River Plate Semifinal Libertadores 2005 Morumbi 22/06/2005
Danilo comemora gol contra o River Plate

No entanto, segundo Alex Bruno, a tranquilidade, por vezes até exagerada, de Danilo, foi muito benéfica ao elenco tricolor, que foi no embalo do meia para conquistar o tão sonhado título da Libertadores.

"Esse cara é um monstro sagrado! Toda tranquilidade que ele tem fora do campo ele leva para dentro da partida. O 'bicho' joga demais, e parece que nas partidas difíceis ele cresce ainda mais", define.

O lateral direito Cicinho, por sua vez, concorda em gênero, número e grau com Alex, e ainda conta mais "resenhas" do antigo companheiro de equipe.

"Não é à toa que a gente chamava o cara de 'Zidanilo', porque ele é esse cara, todo mundo pensa que é lento, mas não é. Ele faz a bola correr, tem uma qualidade fantástica, não existe meia no Brasil como ele. Mas como ele é muito tranquilo, às vezes te deixa bravo, porque ele dormia do CT até o estádio (risos). A gente falava: 'Como um cara desses vai jogar Libertadores, velho?' (risos)", diverte-se o ala, que hoje atua pelo Sivasspor, da Turquia, após passagens por times como Real Madrid e Roma.

"Então chegava a hora do jogo, a gente colocava a bola no pé dele e o cara sempre decidia. Ele tem essa chavinha que liga no automático quando atua contra time grande, não precisava falar nada. Já contra time pequeno, ainda mais se jogo fosse de Paulistão às 16h, a gente dava umas broncas nele: 'Acorda, fio' (risos)", gargalha.

Cicinho e o pacote de bolachas

Cicinho tinha apenas 25 anos quando chegou à final da Libertadores pelo São Paulo. Apesar de ter jogado muito durante toda a campanha, estava extremamente nervoso antes da partida contra o Atlético-PR, no Morumbi. Tanto é que fez algo totalmente contrário à recomendação de qualquer nutricionista.

"Cheguei no vestiário e flagrei o Cicinho comendo um pacote inteiro de bolacha Passatempo escondido de todo mundo, pra ninguém ver, principalmente o Paulo Autuori [técnico]. Perguntei: 'Que foi, Cicinho?'. E ele: 'Tenho que comer o pacote inteiro, senão não consigo correr' (risos). Eu fiquei na minha e só pensei: 'Esse bicho é doido' (risos)", lembra Alex Bruno.

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Cicinho Comemora Gol São Paulo Palmeiras Libertadores 2005 18/05/2005
Cicinho comemora seu golaço sobre o Palmeiras

O próprio Cicinho confessa o nervosismo antes da finalíssima, mas lembra que foi no embalo de companheiros mais experientes, como Amoroso e Luizão, e teve boa atuação contra o time de Curitiba, que não foi páreo para os tricolores.

"Aquela Libertadores foi memorável. Os episódios que mais me marcaram foram o Amoroso chamando a responsabilidade, pedindo para jogar a bola nele que ele resolvia. Também teve o Luizão me pedindo: 'Pelo amor de Deus,  cruzar certinho na minha cabeça, porque sou melhor com a cabeça do que com o pé'. O Lugano gritando: 'Vamos, muchachos, tenemos que ganar'. Eu, como sempre, estava com um frio na barriga danado, ansioso, mas nós fomos campeões!", celebra.

Alex Bruno também confessa ter suado frio antes da última partida do torneio.

"A noite anterior ao jogo é sempre complicada, aquela pressão de torcida, TV monstrando tudo e você naquela ansiedade, não dá pra dormir cedo, o olho não fecha. Eu sempre faço meus melhores jogos em finais, quando a bola rola eu esqueço tudo, mas antes é sempre difícil", relata.

Juvenal: uísque, charuto e bronca

Os jogadores são-paulinos de 2005 lembram diversas histórias engraçadas de Juvenal Juvêncio, ex-presidente do clube e que foi diretor de futebol da equipe na época da Libertadores. Uma, em especial, fez o volante Alê cair na risada em plena entrevista.

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Juvenal Juvêncio, em banco em treino do São Paulo
Juvenal era diretor de futebol em 2005

"O técnico ainda era o (Emerson) Leão, e ele gostava de ser pontual. Quando marcava treino às 7h, era para chegar às 6h30 na Barra Funda. Nós treinamos de manhã e o Tardelli quis descer para o Guarujá com o Souza. Eu disse: 'Tardelli, não vai, isso vai dar m...'. Ele nem deu bola: 'É tudo nosso, fica tranquilo'. Não podia se atrasar para a reapresentação, senão o Leão adiantava o treino para as 7h como castigo", narra.

"Começou a passar o tempo, a gente já ficando desesperado e aí aparecem o Tardelli e o Souza de helicóptero. O Diego falou pro piloto: 'Pode pousar ali no campo do Nacional que aí eu mando (risos)'. No dia seguinte, o Juvenal, que estava fumando aquele charuto gigante e com o famoso copo de uísque do lado, chamou os dois na sala dele: [imitando Juvenal] 'Seu Tarrrrrdelli e Seu Souza, os senhoresssss essssstão multados'. O Tardelli ficou com uma carinha de cachorro que caiu da mudança", sorriu.

Mesmo com Tardelli e Souza multados, o elenco escapou da punição de Leão.

Só que pouco adiantou...

"Uns dias depois, o Falcão [jogador de futsal, que estava no elenco do São Paulo na época] atrasou e não deu outra: treino às 7h da manhã no dia seguinte (risos)", relembrou.

Juvenal também foi decisivo para segurar o zagueiro Alex Bruno na equipe. Inicialmente reserva, o defensor participou de vários jogos dos mata-matas e teve boas atuações, principalmente contra o Palmeiras, nas oitavas de final.

"Eu era parceiro de quarto do Falcão no São Paulo, imagina o quanto o Leão gostava da gente (risos). Eu tinha acabado de ser contratado do Santo André e ele já me colocou na lista de dispensa. Daí bateu aquele desespero, mas o Juvenal falou: 'Você não vai sair, pelo menos em um jogo terá que atuar'. Então fui escalado logo contra o Palmeiras, joguei bem e ele garantiu: 'Você vai ficar no São Paulo! Depois do que vi, você pode até ficar encostado com o Leão por um ano, mas não vou te emprestar'", contou.

Cicinho lembra título 'memorável' da Libertadores-2005

Amoroso não ficou com carrão

Contratado em meio à competição, depois que Grafite se lesionou, o atacante Amoroso foi peça-chave no título são-paulino, marcando contra River Plate, na semifinal, e Atlético-PR, na final. Eleito o melhor em campo naquele 4 a 0 no Morumbi, o jogador ganhou um carrão da patrocinadora Toyota, mas decidiu não ficar com o veículo.

"O Amoroso é um cara fantástico, nunca vou esquecer a humildade e o companheirismo dele. Ele ganhou aquele carrão como prêmio e deixou para os funcionários do clube. Toda vez que eu volto ao São Paulo para visitar, os caras falam disso e o agradecem até hoje", revela Alê.

Amoroso, aliás, conta que seu destino era mesmo defender o São Paulo. Em 1995, quando ainda era uma jovem revelação do Guarani, ele foi sondado pelo clube tricolor, que ofereceu 5 milhões de dólares por seu futebol. O "Bugre", no entanto, não se interessou pelo negócio, e preferiu vendê-lo para a Udinese, da Itália, pouco depois.

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Amoroso Luizão Treino São Paulo 13/07/2005
Os amigos Amoroso e Luizão: dupla decisiva

"Eu fiquei chateado quando soube disso, porque naquele momento era uma grande chance pra mim. Teria sido muito importante, pois eu estava voltando de uma lesão grave e precisava de uma sequência para perder o medo", lembra Amoroso, 20 anos depois.

Em junho de 2005, o atacante estava encostado no Málaga, da Espanha, quando recebeu, pela segunda vez na carreira, o chamado do São Paulo. Não pensou duas vezes: fez as malas, partiu para o Morumbi e foi campeão da Libertadores ao lado do amigo Luizão, que era seu parceiro de ataque desde a base do Guarani.

"A vida deu um monte de voltas e acabei indo para o São Paulo em uma outra condição, já experiente e sem contusão. Eu me encaixei num time sensacional e reencontrei o Luizão, meu parceiro desde os 15 anos. Foi o jogador mais completo com quem atuei, e isso que joguei com Ronaldo, Romário e Schevchenko! Era o cara que mais completava o meu estilo, e isso fez minha adaptação ser ainda mais rápida", bajula.

Além da Libertadores, Amoroso ainda foi decisivo no título do Mundial de Clubes, no final do ano, no Japão. Novamente em evidência, chamou a atenção do Milan, que o contratou pouco depois da vitória por 1 a 0 sobre o Liverpool.

Leci Brandão e Leão

Um dos atletas que mais sofriam com o bullying naquele elenco de 2005 era o lateral esquerdo Júnior. O baixinho foi apelidado pelos colegas de Leci Brandão, devido à semelhança física com a lendária sambista da Mangueira. Isso rendeu um episódio peculiar durante uma das viagens daquela Libertadores.

"O Júnior odiava o apelido, mas não teve jeito, pegou mesmo, porque os apelidos que o Souza colocava pegavam. Você não imagina o tanto que nós rimos no dia em que fomos viajar e encontramos a Leci Brandão no avião! Chamamos os dois, colocamos um do lado do outro e tiramos fotos. Eles eram idênticos (risos)", gargalha Alex Bruno.

Outro atleta que ganhou uma alcunha foi o meia Danilo.

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Junior Desembarque São Paulo Aeroporto 30/06/2005
Júnior encontrou Leci Brandão no aeroporto

"A gente chamava ele de 'Mirrrrna' (risos). Só chamávamos eles assim porque ele parecia o Julião Petrucchio, da novela 'O Cravo e a Rosa' [personagem de Eduardo Moscovis]. Ele é caipirão e muito parecido com ele (risos)", diverte-se Amoroso.

Ninguém tinha coragam, contudo, de colocar apelido no técnico Emerson Leão. Conhecido pela sisudez, o treinador não aliviava nos treinos e nas broncas. No entanto, há um outro lado do comandante que poucos conhecem.

"Um dia, muitos anos depois da Libertadores, encontrei com ele em um cartório, fiquei impressionado, porque saiu de onde estava e foi me cumprimentar. Deu um abraço e aproveitou para dar uma cutucada, já que eu estava com roupa de surfe, porque estava indo para a praia. 'Você não muda, não tem jeito, meu zagueiro (risos)'", relata Alex.

"O Leão é uma figuraça! Eu aprendi muito, porque ele pegava no meu pé e falava todo dia comigo assim: 'Andorinha que acompanha morcego dorme de cabeça para baixo (risos)'. Ele também sempre falava que 'passarinho que acorda cedo bebe água limpa (risos)', porque gostava de dar os treinos logo às 7h da manhã. Nosso time ganhou tudo, mas o pessoal às vezes atrasava no treino e Leão ficava louco", finaliza.

DJALMA VASSÃO/Gazeta Press
São Paulo Posado Final Libertadores 2005 Morumbi 14/07/2005
Time do São Paulo posa para foto antes da final contra o Atlético-PR, no Morumbi
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