Pioneiro africano só tinha visto o Tour de France pela TV; hoje, é 'Rei da Montanha'

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Daniel Teklehaimanot é líder na categoria dos montanhistas do Tour de France
Daniel Teklehaimanot é líder na categoria dos montanhistas do Tour de France

Se realizar um sonho de criança é um dos pontos altos de qualquer profissional, Daniel Teklehaimanot está no topo. Aos 26 anos, o ciclista fez história na última quinta-feira ao vestir a camisa branca com bolinhas vermelhas, dada ao melhor montanhista do Tour de France.

O atleta da Eritreia ainda se tornou o primeiro africano a liderar a categoria da mais tradicional competição do ciclismo.

Teklehaimanot se tornou o principal nome da MTN-Qhubeka, primeira equipe africana a competir no Tour. E o mais curioso de tudo isso: 2015 é apenas o ano de sua estreia na competição.

"Eu não posso acreditar. Sonhava desde pequeno em ter esta camisa. É um dia que eu nunca vou esquecer. É um grande passo para o ciclismo africano", declarou ele logo após vestir a camisa pela primeira vez - a qual manteve em sua posse até o início da décima etapa, nesta terça-feira. 

O eritreu pode não ser do primeiro escalão no esporte, mas é considerado um dos pioneiros do ciclismo africano.

Teklehaimanot começou a andar de bicicleta quando tinha cerca de 10 anos de idade. Aos 16, já assistia ao Tour e comentava com os seus amigos como gostaria de ter a camisa de melhor montanhista.

Em 2009, foi selecionado para fazer parte de um programa de desenvolvimento da União Ciclística Internacional (UCI), voltado a atletas promissores de regiões sub-representadas no esporte.

Passou pela equipe GreenEdge entre 2012-2013 - quando problemas burocráticos o impediram de fazer várias provas na Europa - e assinou no ano passado com a MTN-Qhubeka.

"Temos vários ciclistas na Eritreia, as pessoas amam, é realmente popular", descreveu Teklehaimanot ao jornal "The Guardian".

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Teklehaimanot durante etapa do Tour
Teklehaimanot durante etapa do Tour-2015

E com razão de ser. A Eritreia foi colônia da Itália. No século XIX, italianos trouxeram as primeiras bicicletas e ajudaram a estabelecer o "Giro da Eritreia" em 1946. Bicicletas viraram comuns na capital do país, Asmara.

A própria geografia do país também ajuda a explicar o sucesso em provas com inclinações. A capital fica a mais de dois mil metros de altitude.

"A geografia explica muito por que somos tão bons, mas também trabalhamos duro", afirmou Teklehaimanot.

O ciclista também faz parte de um grupo de esportistas que tem a confiança do presidente do país, Isaias Afewerki, que está no poder desde 1993, quando o país se tornou independente da Etiópia após 30 anos. 

O regime local é descrito como repressivo pela Anistia Internacional. E autocrático: Afwerki é líder do Executivo, presidente do Parlamento, comandante das Forças Armadas e líder do única partido autorizado no país, o PFDJ. 

De acordo com a constituição de 1997, a Eritreia é uma república presidencialista com democracia parlamentar. No entanto, o documento nunca foi de fato implementado. O governo local diz que um conflito de fronteiras com a Etiópia impede que o sistema seja adotado. 

Os atletas eritreus só podem deixar o país mediante um visto especial concedido pelas autoridades locais. É uma espécie de missão também promover a nação quando possível.

No último mês, Teklehaimanot e Merhawi Kudus, que também está no Tour, voltaram para a Eritreia para competir no campeonato nacional. Foram bem recebidos e encontraram o presidente. "Foi um grande momento para nós", disse o ciclista da MTN-Qhubeka.

Com tanto sucesso e pioneirismo, Teklehaimanot, agora, tentará manter a camisa que tanto ama com ele. Nesta terça, o décimo trecho, justamente o que marca o início das montanhas, acontecerá com um percurso de 167 km entre as cidades de Tarbes e La Pierre-Saint-Martin, com transmissão ao vivo da ESPN e do WatchESPN a partir das 9h.

Assista ao resumo da nona etapa do Tour, na qual a BMC ganhou o contrarrelógio por equipes
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