Rugby do Brasil usa anúncio em jornal pra importar gringos, e sobram histórias: 'Não conhecia o Pan'

Tiago Leme e Gustavo Faldon, de Toronto (CAN), ESPN.com.br
William Lucas/Inovafoto
Seleção brasileira de rugby estreia no Pan de Toronto neste sábado
Seleção brasileira de rugby estreia no Pan de Toronto neste sábado

Um inglês que viu um anúncio no jornal, não fala português, nem sequer tinha ouvido falar dos Jogos Pan-Americanos e precisou do Google para descobrir que o time brasileiro existia. Outro britânico, esse já com o "jeitinho brasileiro", que concilia os treinos no esporte com o trabalho de pesquisador mesmo durante as competições, mas pelo menos ganha folga do chefe para viajar com o time. Uma norte-americana que largou a vida acadêmica depois de se formar em dois cursos na faculdade, e quase fazer o terceiro, para realizar o sonho olímpico.

Três histórias de vida distintas, três perfis bastante diferentes, mas com objetivos iguais no momento: vestir a camisa da seleção brasileira e ajudar a desenvolver o rugby no país.

Matthew Gardener, Juliano Fiori e Isadora Cerullo são três talentos estrangeiros que foram importados pela Confederação Brasileira de Rugby e fazem parte do planejamento de contribuir no crescimento do esporte no país. Filhos de pai ou mãe brasileiros, os três são nascidos em outras nações, mas estarão representando as cores verde e amarela no Pan de Toronto.

Os jogos começam neste sábado, e a seleção brasileira feminina, que tem boas chances de medalha, estreia contra os Estados Unidos, às 11h27 (de Brasília). Já a equipe masculina, que tem bem menos possibilidades de subir ao pódio, faz sua primeira partida contra a favorita Argentina, às 12h55.

Fotojump
O inglês Matthew Gardner defende o Brasil
O inglês Matthew Gardner defende o Brasil

Jogos Pan-Americanos? Rugby no Brasil? "Nunca tinha ouvido falar"
Filho de uma sergipana de Aracaju que se mudou para a Inglaterra aos 16 anos de idade, Matthew Gardner tem a cidadania brasileira, mas até dois anos atrás tinha pouco envolvimento com o país sul-americano. Ele acabou tendo a oportunidade de vestir a camisa amarela da seleção depois de ler um anúncio no jornal colocado pela Confederação Brasileira de Rugby, que buscava atletas estrangeiros com alguma ligação com o Brasil.

Em conversa com alguns jornalistas nesta sexta-feira em Toronto, o atleta inglês, que ainda não fala a língua portuguesa, admitiu que até então não sabia nem o que eram os Jogos Pan-Americanos.

"Pra ser sincero, eu não sabia nada sobre o Pan-Americano. Eu nunca tinha ouvido falar antes de começar a jogar pelo Brasil. Agora eu já sei que é,  me explicaram, sei que é um grande torneio e sinto isso aqui", disse Gardner, que também mostrou sinceridade ao falar sobre a falta de tradição do país na modalidade.

"Eu também nunca tinha ouvido falar sobre a seleção de rugby do Brasil. Assim que eu vi o anúncio, entrei na internet e fui procurar no Google. Eu não tinha ideia que no Brasil tinha time de rugby desde os anos 70. Depois vi que já existe uma certa história do rugby no país, e fiquei animado com isso, com a possibilidade de jogar."

Nascido no pequeno condado de Barrow in Furness, próximo à Escócia, Matt Gardner começou a praticar o esporte com seis anos de idade, por influência do irmão, e hoje atua pelo Swinton Lions, time da cidade de Manchester, onde mora atualmente

Inglês concilia seleção brasileira de rugby com trabalho como pesquisador
Também nascido na Inglaterra, Juliano Fiori tem uma conexão com o Brasil bem maior. Mesmo tendo um pouco de sotaque, a fluência no português já deixa claro a sua proximidade com o país. O atleta de 30 anos entrou na seleção brasileira depois que seu pai, um gaúcho de Porto Alegre que mora em Londres desde os anos 60, viu a delegação de rugby no aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, há cinco anos, e resolveu falar com um dirigente, contando que seu filho praticava a modalidade.

William Lucas/Inovafoto
O inglês Juliano Fiori concilia o rugby com o trabalho como pesquisador
O inglês Juliano Fiori concilia o rugby com o trabalho como pesquisador

Depois de uma troca de e-mails e vários contatos, Juliano foi convidado para se juntar ao time brasileiro em uma excursão à Europa e acabou não saindo mais. Mesmo tendo morado a vida toda em Londres, ele faz questão de destacar a sua identificação com o Brasil.

"Desde que eu me lembro eu tive um vínculo muito forte com o Brasil. Meu pai é ítalo-brasileiro, minha mãe é inglesa-belga, é uma mistura, mas sempre tive algo forte com o Brasil em termos de identidade, a gente sempre visitava o país. Eu já falava português, mais não muito fluente, aí com 16 anos e decidi que queria fazer um esforço para realmente aprender, Eu também sempre torcida pela seleções brasileiras, tinha bandeira brasileira no meu quarto, gostava de música brasileira. Minha irmã dançava numa escola de samba, aí eu fui tocar com ela na bateria, comecei a me vincular mais com a cultura brasileira", contou Juliano Fiori, que também falou sobre a contribuição que pode dar para a modalidade crescer ainda mais no país.

"Acho que o principal de tudo isso é o desenvolvimento do esporte no Brasil. Se jogadores do exterior podem agregar algo, pode ser uma boa ideia, Mas tem que ser feito de uma certa maneira que integre também os jogadores que já têm anos de jogo no Brasil. Na Inglaterra o rugby tem grande tradição, então podemos trazer algo disso. Fiz 30 anos na semana passada e jogo rugby há 25 anos, acho que posso contibuir com experiência, aprendi muito com os melhores jogadores lá na Inglaterra, acho que posso levar isso para os jogadores mais jovens do Brasil".

Apesar de ter uma vida quase inteira dedicada ao rugby, Fiori, que joga pelo Apache (no Sevens) e Richmond (no time de 15), também tem outra profissão e precisa concilira as duas coisas, inclusive durante a disputa do Pan de Toronto.

"Eu tenho uma outra vida fora do rugby, eu tenho outra profissão, trabalho na área de pesquisa política e estratégia para uma ONG internacional, então muita gente nem sabe que eu jogo rugby. Ou melhor, nem sabia, porque quando cheguei na seleção eles souberam. De repente, eles viram uma foto no Facebook ou no jornal e todo mundo ficou sabendo", contou o atleta, que acrescentou.

"É difícil poder viajar tanto, mas meu chefe gosta muito de rugby, então ele ajuda. Ele tem me dado um apoio muito grande. No final do ano passado, eu falei pra ele: 'se você quiser que eu continue no trabalho, eu vou ter que ter um contrato flexível e vou ter que trabalhar enquanto eu estiver viajando'. Agora depois do treino aqui, eu vou voltar lá pra Vila Pan-Americana e vou ter que trabalhar, mandar uns e-mails, ler alguns artigos dos meus colegas de trabalho, mandar algo para eles. Então, é pesado, eu trabalho de oito a dez horas por dia e treino mais duas ou três horas todos os dia".

Norte-americana larga vida acadêmica por sonho olímpico
Na seleção feminina, a presença estrangeira fica por conta da norte-americana Isadora Cerullo, de 24 anos, que largou a vida acadêmica e a ideia de cursar medicina, que seria o seu terceiro curso na faculdade, para realizar um sonho. Assim como aconteceu com Matt Gardner, o anúncio da confederação brasileira também foi a forma como ela foi recrutada.

"Eu queria muito conhecer o Brasil, conhecer minha família lá, e também quis correr atrás do sonho de disputar uma Olimpíada", afirmou Isadora, explicando sua decisão de deixar os Estados Unidos e se mudar para o Brasil por causa do esporte no ano passado.

Tiago Leme/ESPN
A norte-americana Isadora Cerullo joga pela seleção brasileira de rugby
A norte-americana Isadora Cerullo joga pela seleção brasileira de rugby

"Eu joguei futebol a minha inteira, como meus pais são brasileiros, quando eu comecei a andar, meu pai jogou uma bola de futebol no meu pé, Eu só fui conhecer o rugby no meu segundo ano de a faculdade, no Estados Unidos. Eu me formei na faculdade, na Columbia University, em Nova York, fiz dois cursos, biologia e direitos humanos, e depois me mudei pra Filadélfia pra trabalhar de pesquisadora. Aí minha treinadora me mandou um aviso que a seleção brasileira estava fazendo uma chamada para estrangeiros, pra quem tinha cidadania brasileira e estava morando fora do Brasil. Eu falei 'bacana', mas eu já estava estudando para prestar vestibular de medicina, então eu já estava meio nesse caminho de continuar na vida acadêmica. Mas eu pensei, pensei e percebi que eu ia me arrepender se eu pelo menos não tentasse", explicou Isadora, que hoje atua pelo Niterói Rugby.

Comentários

Rugby do Brasil usa anúncio em jornal pra importar gringos, e sobram histórias: 'Não conhecia o Pan'

COMENTÁRIOS

Use a Conta do Facebook para adicionar um comentário no Facebook Termos de usoe Politica de Privacidade. Seu nome no Facebook, foto e outras informações que você tornou públicas no Facebook aparecerão em seu cometário e poderão ser usadas em uma das plataformas da ESPN. Saiba Mais.