Há 49 anos, CBF também criou comissão para salvar seleção; não deu certo

ESPN.com.br
Gazeta Press
João Havelange CBF CBD 23/04/1969
João Havelange (esq) criou comissão para 'salvar a seleção' após o vexame de 66

Após o vexame da seleção brasileira na Copa América, com a queda nas quartas de final para o Paraguai, a CBF convocou uma comissão de ex-treinadores da equipe nacional para tentar diagnosticar o que está errado no time verde e amarelo. Até o momento, nenhuma resposta foi encontrada por nomes como Carlos Alberto Parreira, Sebastião Lazaroni, Paulo Roberto Falcão, Zagallo ou Candinho. No entanto, essa não é a primeira vez que a entidade que comanda o futebol brasileiro recorre à estratégia da "comissão de notáveis".

Aconteceu na sequência de outro vexame: a eliminação do Brasil, então bicampeão do mundo, na primeira fase da Copa do Mundo de 1966, em um grupo que tinha Portugal, Hungria e Bulgária. O baque foi tão grande que, após o Mundial, a CBD (que depois virou CBF) e seu então presidente, João Havelange, passaram a ser acompanhados pelo SNI (Serviço Nacional de Informações) da ditadura militar.

A ideia era que fosse instaurada uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito)  no Congresso para investigar o que deu errado na Copa. Segundo escreve Carlos Eduardo Sarmento no livro A regra do jogo: uma história institucional da CBF, os militares viam a seleção como a melhor maneira de manipular a população, e não iriam aceitar mais fracassos.

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"A noção crescente entre os agentes do SNI era a de que o futebol, por seu potencial de mobilização das massas, deveria ser mantido sob estreita e severa observação. Nesse quadro, assumia importância ainda maior a gestão da seleção, mais uma vez compreendida como símbolo da representação nacional. Como todo símbolo, ela poderia ter os mais distintos usos, interpretações e manipulações", diz o autor.

Havelange, então, criou a Cosena (Comissão Selecionadora Nacional), grupo que tinha a missão de escolher o treinador e os membros da comissão técnica, bem como avalizar a lista de jogadores convocados para servir à equipe.

Entre os "notáveis" que formaram a comissão, havia nomes como Paulo Machado de Carvalho, famoso advogado e empresário que foi chefe da delegação brasileira nas Copas de 1958 e 1962 - hoje, ele dá nome ao estádio do Pacaembu, em São Paulo.

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A primeira atitude da comissão foi recolocar Aymoré Moreira no cargo de técnico, no lugar de Vicente Feola, e marcar incríveis 21 amistosos de preparação para a Copa do Mundo de 1970. Após uma derrota por 2 a 1 para um combinado entre Grêmio e Internacional na "estreia", o Brasil emplacou duas vitórias seguidas (2 a 0 e 4 a 0) sobre o Uruguai. Parecia que tudo caminhava bem, mas a sequência foi bastante irregular.

"A turnê do time canarinho no continente europeu começou com uma derrota (1 x 2) para os vice-campeões mundiais, a seleção da Alemanha Ocidental. Nas outras partidas, vitórias pouco convincentes sobre Polônia e Iugoslávia (6 x 3 e 2 x 0) e uma derrota para o time tcheco (3 x 2)", lembra Sarmento.

Agência Estado
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Sem emplacar resultados convincentes, a seleção brasileria ainda viveu um vexame terrível em 31 de outubro de 1968, quando recebeu o México no Maracanã lotado e perdeu por 2 a 1, selando o adeus de Aymoré. Coube a Dorival Knipel, o famoso Yustrich, comandar a equipe canarinho no último daqueles 21 amistoso: um triunfo por 3 a 2 sobre a Iugoslávia.

Segundo a publicação, "o balanço da frustrante experiência da Cosena levou João Havelange a manobrar politicamente para que se chegasse a uma nova centralização das instâncias decisórias na gestão do selecionado nacional".

Com isso, mesmo com o regime militar mostrando-se contrário, o presidente da CBD dissolveu a Cosena e, em 4 de fevereiro de 1969, anunciou o jornalista João Saldanha, conhecido por ser um crítico ferrenho do "escrete nacional", como novo treinador da seleção, apesar da pouca experiência.

Por desentendimentos com os militares, Saldanha não duraria muito no cargo, mesmo com bons resultados à frente do time. No entanto, o Brasil voltaria a encontrar o bom futebol no ano seguinte, com Zagallo como técnico e a conquista do tri mundial na Copa do Mundo de 1970.

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