Chile campeão se formou com geração 2007, 'bielsista' na La U e travessão contra o Brasil

Antônio Strini, de Santiago (Chile), para o ESPN.com.br
Reuters
Jogadores do Chile com a taça da Copa América de 2015: o fim de jejum centenário
Jogadores do Chile com a taça da Copa América de 2015: o fim de jejum centenário

Em 105 anos de história, a seleção chilena sofreu. Mesmo com gerações de atletas históricas, campeonatos disputados em casa e um futebol vistoso, a Roja não conquistava o mais importante: títulos. Na Copa América, por exemplo, Bolívia e Peru haviam sido campeões, e os chilenos amargavam o jejum ao lado de Equador e Venezuela.

Os tempos de gozação, porém, acabaram. Como anfitrião, o Chile exorcizou todos os seus fantasmas para finalmente conseguir sua primeira taça diante da temida Argentina de Lionel Messi, com requintes de crueldade - chance perdida pelos rivais no último lance, disputa por pênaltis e o grito preso ecoando pelo país.

Para que finalmente a seleção se tornasse campeã, três fatores podem ser considerados: jogadores que atuam juntos há oito anos; um técnico seguidor de Marcelo Bielsa; e uma queda na última Copa do Mundo por causa de um travessão.

A geração 2007

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Alexis, Isla (primeiros à esq.), Vidal e Medel (primeiros à dir.): Chile no Mundial sub-20 de 2007
Alexis, Isla (primeiros à esq.), Vidal e Medel (primeiros à dir.): Chile sub-20 em 2007

A Copa do Mundo sub-20 do Canadá teve um país campeão pra lá de costumeiro: a Argentina. Mas foi uma outra seleção sul-americana quem apresentou uma equipe que lhe renderia frutos quase uma década depois.

Mauricio Isla, Gary Medel, Carlos Carmona, Arturo Vidal e Alexis Sánchez foram titulares daquele time comandado por José Sulantay que deixou pelo caminho Portugal e Nigéria até cair para a futura campeã na semifinal.

Mas o terceiro lugar depois de vitória sobre a Áustria resgatou uma confiança que parecia perdida desde o fim da era Zamorano-Salas.

Carmona se machucou pouco antes da Copa América, mas disputaria posição no time titular com Marcelo Díaz. Os outros quatro atletas formam a espinha dorsal dos atletas de linha da atual seleção roja, com Isla na lateral direita; Medel deixando o meio-campo para atuar na zaga; Vidal organizando o jogo; e Alexis no comando de ataque.

Também em 2007, um argentino iniciaria sua caminhada em solo chileno para começar a fazer história no futebol sul-americano.

O bielsista

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O bielsista Jorge Sampaoli à frente da Universidad de Chile em 2011: história
O bielsista Jorge Sampaoli à frente da Universidad de Chile em 2011: história

Jorge Sampaoli era apaixonado pelo jeito como Marcelo Bielsa via e falava de futebol. Quando "El Loco" comandou a seleção argentina (1998-2004), "El Zurdo" fazia questão de ir até o CT em Ezeiza, distante 350 quilômetros de sua cidade, Casilda, apenas para acompanhar os treinamentos e as entrevistas coletivas.

A admiração pelo hoje técnico do Olympique de Marselha começou ainda no começo dos anos 1990, quando ele treinou o Newell's Old Boys. "Cheguei ao ponto em que era bielsadependente. Saía correndo e escutava coletivas de Bielsa. Eu o seguia e gravava todas as entrevistas dele", chegou a dizer Sampaoli.

O estilo de jogo de Bielsa, o treinador do Chile carrega até hoje. Pressão no campo rival, saída por todos os lados do campo, atletas mais leves... E a história de Jorge Sampaoli no país começa no final de 2007, quando após cinco anos treinando no Peru recebe o convite para assumir o O'Higgins de Rancagua.

Foram duas temporadas de resultados surpreendentes, como um terceiro lugar no Campeonato Chileno. Demitido durante início ruim no segundo semestre de 2009, o argentino foi para o Equador comandar o Emelec. Lá, acabou como vice-campeão nacional, o que chamou a atenção da Universidad de Chile.

Em 2011, volta ao Chile para comandar umas das forças do futebol local e faz história: o estilo ofensivo marca La U, que conquista três títulos consecutivos do Chileno (Apertura e Clausura do mesmo ano e Apertura-2012) e ainda a inédita Copa Sul-Americana.

Sob seu comando, o goleiro Johnny Herrera, o zagueiro José Rojas, o lateral Eugenio Mena, os meias Marcelo Díaz e Charles Aránguiz e o atacante Eduardo Vargas. Todos, hoje, campeões da América do Sul com a seleção chilena.

Sampaoli assume a Roja no final de 2012 no lugar de Claudio Borghi - o substituto de Bielsa no Chile -, que faz campanha sofrível nas eliminatórias para a Copa do Mundo de 2014. Com "El Zurdo" e sua mentalidade bielsista, o Chile consegue cinco vitórias, um empate e uma derrota nos últimos sete jogos da campanha, o suficiente para carimbar vaga direta no torneio do Brasil.

Um trauma para os chilenos.

O travessão

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A bola no travessão de Pinilla contra o Brasil em 2014
A bola no travessão de Pinilla contra o Brasil em 2014

Eliminar a então campeã mundial, Espanha, ainda na fase de grupos já levara o Chile a outro patamar na Copa. E diante do Brasil nas oitavas de final surgiu a oportunidade de espantar um de seus maiores fantasmas em Mundiais - 1962, 1998, 2010...

No Mineirão, empate por 1 a 1 no tempo normal. Equipes exaustas, poucas chances, até que aos 14 minutos do segundo tempo da prorrogação acontece um contra-ataque visitante. A bola chega aos pés de Mauricio Pinilla, o centroavante. O homem-gol.

Ele tira de Júlio César, a bola sobe. O gol da salvação? Não.

Havia um travessão. A bola explode e vai para frente, mas sem rebote para os chilenos. "Al palo", para desespero dos milhões de chilenos.

Nos pênaltis, o goleiro brasileiro defende duas cobranças, e mais uma na trave, agora de Gonzalo Jara, decretam a doída eliminação dos comandados de Sampaoli. Jogadores brasileiros choram de emoção, os chilenos de dor.

A dor durou um ano.

E nada como tentar estancar a amargura batendo de frente com ela. Pinilla foi astro de um comercial no qual uma operação especial rouba a trave do Mineirão, e o atacante tem a chance de se vingar de todos: explode as barras de ferro.

Será que ele sentiu melhor sensação do que essa?

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