Após iogurte, dengue e calote, campeão mundial pelo São Paulo recomeça na Série D

Francisco De Laurentiis e Vladimir Bianchini, do ESPN.com.br
ADHIL RANGEL/Gazeta Press
Alex Bruno Treino São Paulo 19/07/2008
Alex Bruno durante treino no CT do São Paulo, em 2008

Em 18 de dezembro de 2005, Alex Bruno Costa Fernandes realizou o maior feito de sua carreira de jogador: ao lado de Rogério Ceni, Lugano, Mineiro, Aloísio Chulapa, Amoroso e outras feras, levantou a taça do Mundial de Clubes de 2005, pelo São Paulo, após a histórica vitória sobre o Liverpool, no Japão. Fast forward e, uma década depois, o zagueiro de 33 anos, também ex-Botafogo e Atlético-MG, aparece nas fileiras do Operário, de Várzea Grande-MT, para a disputa da Série D do Campeonato Brasileiro.

Os últimos 10 anos da vida de Alex Bruno foram marcados por uma série de acontecimentos insólitos, que envolvem um calote monstruoso, um período parado por dengue e até investimentos em imóveis em Santa Catarina e em uma rede de frozen yougurt, o famoso sorvete de iogurte que virou moda no Brasil.

Não poderia ser diferente, já que, desde o início da carreira, o defensor se notabilizou pelas curiosidades. Quando jogada pela Inter de Bebedouro, em 2002, por exemplo, estava sem receber salários quando aprontou uma "jogada de mestre" para ser contratado por outro clube.

Ele já estava há seis meses sem receber quando, um dia, deu a sorte de atender, por acaso, uma ligação de Ari Mantovani, dirigente do Santo André, que queria falar com Marcão, preparador de goleiros do time do interior paulista, já que buscava a indicação de um arqueiro para contratar. Alex resolveu se arriscar, passou por dirigente e indicou sua própria contratação.

"Ele perguntou se o goleiro era bom, eu de imediato falei que era, mas na hora mandei: 'Olha, além do goleiro, te um zagueiro aqui que é ótimo, seu Ari. Cabeceia bem, é rápido, técnico, alto'. Tive que fazer minha moral, né (risos)? Passei pro preparador de goleiros e pedi pra ele confirmar tudo o que eu disse", lembrou o veterano, em entrevista ao ESPN.com.br.

Deu certo, e Alex Bruno foi chamado para um período de 10 dias de testes no clube do ABC. No segundo treino, já foi aprovado e inscrito no Santo André.

"Acho que nunca contei pro seu Ari essa história (risos). Mas eu era o cara certo na hora certa, melhor do que muito atacante que a gente vê por aí, né?", diverte-se.

Campeão no Santo André e comilão no Morumbi

Logo que chegou ao "Ramalhão", Alex ganhou a titularidade e foi um dos pilares da melhor fase da história do time, conquistando a Copa São Paulo de Futebol Júnior de 2003 e a Copa do Brasil de 2004. Ele se destacou especialmente na final contra o Flamengo, na qual foi considerado um dos melhores em campo no triunfo por 2 a 0 em pleno Maracanã.

Gazeta Press
Alex Bruno em ação pelo Santo André em 2004
Alex Bruno (esq) em ação pelo Santo André, em 2004

"Foi o melhor jogo da minha carreira e mudou a vida de todos que estavam lá. Poderíamos ter feito até mais no Flamengo, porque estávamos muito confiantes. Os caras não respeitaram a gente, tinha até um palco montado para a Ivete Sangalo fazer show depois do jogo. Quando ficamos sabendo daquilo, nem precisou de preleção. O [técnico] Sergio Soares só falou: 'Os caras vão cantar 'Poeira' em cima de vocês?'. Daí a gente entrou voando (risos)", conta.

A ótima partida contra o Fla chamou a atenção do São Paulo, que contratou Alex Bruno pouco depois. Ele passou quatro anos no Morumbi, sendo emprestado neste período para Botafogo, Figueirense, Atlético-MG e Portuguesa, mas esteve no elenco que conquistou o Mundial de Clubes-2005, a Libertadores-2005, os Campeonatos Brasileiros de 2006 e 2008 e o Paulista-2005 pelo "Tricolor".

Nesses quatro anos, também aproveitou para "tirar a barriga da miséria".

MARCELO FERRELLI/Gazeta Press
Alex Bruno Miranda Alex Silva André Dias Treino São Paulo 05/01/2007
Alex Bruno, Miranda, Alex Silva e André Dias no SP

"Eu engordei muito e rápido, porque a comida era boa demais (risos0. Na época do Santo André, eu era 'durango' e tinha dinheiro contado. No São Paulo, tinha uma cozinha aberta 24 horas, uma tia que cozinhava demais, bife à cavalo, essas coisas que eu não estava acostumado. Eu era só pele e osso, engordei oito quilos nos primeiros três meses (risos)", revela.

Isso, porém, acabou lhe rendendo uma bela bronca do técnico Emerson Leão.

"Ele chegou um dia bravo: 'Você está muito 'bundudo', vamos diminuir isso aí. Depois de um tempo, caí na real e acabei voltando ao peso normal", sorri.

Bom investidor

Após o São Paulo, Alex Bruno passou por Nacional-POR, Sport, Paraná e Rio Claro até chegar ao Marília, no início deste ano. Na equipe celeste, fez parte da terrível campanha no Paulistão (que não teve nenhuma vitória), levou um calote monstruoso e pediu a rescisão. Para piorar, ainda ficou doente.

Arquivo Pessoal
Alex Bruno é o rei do iogurte
Alex Bruno é o rei do iogurte no ABC

"Eu peguei uma dengue no Marília que foi osso. Que fase, meu amigo... Além do momento que o time passou, ainda tive mais essa junto com outro zagueiro do elenco", lamentou.

A falta de pagamento, no entanto, não prejudicou muito a vida do defensor, que soube investir bem seu dinheiro no auge da carreira. Ao lado do irmão, que é comerciante, comprou imóveis e franquias apra garantir a aposentadoria após pendurar as chuteiras - o que ainda não tem data para acontecer.

"Sempre gostei de arriscar e ser empreendedor. Pensava nos jogadores que depois da carreira passavam dificuldades financeiras e resolvi fazer diferente. Quando recebi meu primeiro dinheiro no São Paulo, comprei apartamentos para investir no futuro, gastava 70% do salário com as dívidas. Foi bom porque rendeu bem", comenta.

Além dos imóveis, também instalou duas franquias da sorveteria Yogoberry, no ABC Paulista, ao lado de seu irmão, que cuida de lojas de sapatos. Hoje, Alex Bruno tem uma vida confortável e, quando não está jogando em algum clube de outro Estado, mora com a família na bela Balneário Camboriú, em Santa Catarina.

A vida perfeita, né? Bom, nem sempre...

"É um lugar sensacional, com tanta mulher 'feia' que precisa até andar de óculos escuros, senão topo tapa da minha esposa toda hora (risos)".

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