Agora 'trintão', Sobis admite não gostar do mundo do futebol: 'É uma droga, algo viciante'

Caio Blois, do Rio de Janeiro (RJ), para o ESPN.com.br
Sóbis diz que 'espera vencer' duelo contra o 'fortíssimo' Inter na Libertadores

Chegar aos 30 anos de idade jogando futebol em alto nível jamais passou pela cabeça do menino Rafael em sua infância no Rio Grande do Sul. Assim, meio "sem querer querendo", como ele mesmo define, virou jogador de futebol mesmo sem jamais querer viver no mundo do velho esporte bretão, que ele garante "sequer querer ver na televisão". Ao subir da base para o elenco profissional do Internacional, Rafael adicionou o sobrenome Sobis e se tornou um dos melhores atacantes do futebol brasileiro.

De férias no Rio de Janeiro, Sobis, que faz aniversário e vira "trintão" nesta quarta-feira dia 17 de junho, abriu sua casa na Barra da Tijuca para receber a reportagem do ESPN.com.br, e falou sobre diversos assuntos como futebol brasileiro, troca de treinadores, mudanças táticas, convivência no mundo do futebol, política e corrupção no esporte.

Sem fazer muitos planos para a carreira de jogador, o menino de Erechim acabou se tornando um jogador de seleção brasileira. Vivendo o dia a dia de um meio supostamente "sujo" e uma ilha de consciência em meio ao oceano de opiniões pasteurizadas, Rafael Sobis garante que o futebol, para ele, é como uma dependência química.

"O futebol parece uma droga, algo viciante, você sente falta disso. Meu pensamento segue igual, meus amigos extracampo não são do futebol, prefiro ficar de fora, até porque o futebol já é algo estressante, você é cobrado sempre de torcida, imprensa, de resultados, até de treinadores, presidente. Eu quero ficar longe, só não sei se vou conseguir", disse o jogador.

Após um início fulminante no Inter e com uma carreira sólida no Brasil, o atacante chega à efeméride dos 30 anos sem muita crise: "Agora vai começar a doer tudo, né? (risos)", brincou o jogador, com 4 gols nesta edição da Libertadores.

Getty Images
Rafael Sobis marca, mas Tigres perdem no Mexicano
Rafael Sobis tem quatro gols pelo Tigres na Libertadores

No auge físico e técnico, de acordo com sua auto avaliação, Sobis comanda o Tigres, do México, em uma histórica campanha na Libertadores de 2015, torneio em que foi peça importante para levar a equipe às semifinais contra o Inter. Tudo isso anos depois de se sagrar campeão de tudo pelo Colorado e também pelo Fluminense, clube que se diz torcedor junto com os filhos Rafael e Nicholas.

"Eu estou torcendo pelo sucesso do clube, porque eu hoje sou um torcedor, vivi momentos mágicos e maravilhosos. O Fluminense melhorou muito e pouco a pouco vai melhorar ainda mais", disse Sobis, que deixou o Tricolor carioca no fim do ano passado para atuar no futebol mexicano.

Divulgação / Fluminense
Rafael Sóbis comemora o gol da vitória do Fluminense sobre o Goiás, no Serra Dourada
Sóbis teve passagem marcante pelo Fluminense, clube que se declara torcedor 

Confira a íntegra da entrevista exclusiva com Rafael Sobis:

V
olta à posição original

Onde eu jogo agora é mais parecido o que joguei a vida toda, o que eu fiz nas ultimas temporadas no Fluminense foi algo pro time, nunca me preocupei com isso, até porque se me preocupasse não faria. E fiquei feliz, independente de fazer gol ou não, foi proveitoso, foi bom, aprendi muito taticamente. hoje no México jogo diferente, uma posição diferente que vem dando certo, cinco meses felizes, as coisas deram certo a esperança é que continue assim.

Passagem no México

Passagem maravilhosa. Pelo Fluminense, os momentos de turbulência foram um aprendizado, são situações que temos que passar por cima, mas nada do que reclamar, foi bom, foi ótimo. No México, não tenho nada para reclamar, tudo aconteceu rápido pro lado bom, nem poderia imaginar cimo seria tão bom, fui bem recebido pelos companheiros, é um clube sério.

Futebol Mexicano

Futebol mais rápido. É um país muito organizado, que gosta muito do futebol, que vive o futebol. Eu que não sou muito rápido, tive que adaptar e me adaptei bem. É totalmente diferente. É um futebol diferente, eles procuram sempre sair jogando independente do que aconteça, você não vê um chutão, é muito difícil de acontecer. É o estilo mexicano, a torcida gosta que seja assim, as vezes até peço que mudem um pouco na Libertadores que tem muita porrada e muito contato, ainda assim esse é o nosso estilo e foi o que nos trouxe até a semifinal, e tá dando certo.

Internacional no caminho

Vai ser legal, ótimo, maravilhoso. Um jogo muito bom, semifinal de Libertadores, talvez eu jogando contra o Inter seja um ingrediente a mais, mas mais pra torcida. Para o jogador, não. Eu encaro como um grande jogo, contra uma grande equipe, uma das equipes mais fortes que tem no continente e vou me preparar da melhor forma possível

Mundo do Futebol

Pretendo não viver, não quer dizer que vou conseguir. O futebol parece uma droga, algo viciante, você sente falta disso. Meu pensamento segue igual, meus amigos extracampo não são do futebol, prefiro ficar de fora, até porque o futebol já é algo estressante, você é cobrado sempre de torcida, imprensa, de resultados, até de treinadores, presidente. Eu quero ficar longe, só não sei se vou conseguir. Talvez por isso que minha carreira tenha dado certo. Não dá pra viver só disso, você enlouquece, tem hora que você não quer saber mais. Dentro de campo dou a vida, faço meu melhor, mas quando saio dali depois, fico de fora, prefiro ficar longe. Não gosto nem de ver na televisão.

Fluminense

É uma nova história. Por mais que eu diga pro torcedor ter paciência, que é assim mesmo, derrota, troca de treinadores, isso faz parte do processo. As pessoas tem que saber que quem tá lá quer o bem do clube e é tudo para ver o clube melhor. Só que no caminho tem pedras, e tem que se desviar, e o Fluminense está numa reestruturação. Eu tô torcendo né, porque eu sou um torcedor, vivi momentos mágicos e maravilhosos, tenho muitos amigos lá e quero eles bem, pra eles estarem bem o Fluminense tem que estar bem, então sigo na torcida para que as coisas andem. O Fluminense melhorou muito e pouco a pouco vai melhorar ainda mais.

Saída do Fluminense

Depois que saí, antes do episódio com a Unimed, muita gente me chamou de mercenário, falou que eu era isso ou aquilo. Muito pelo contrário, porque eu tinha contrato, deixei dinheiro lá. Eu fui consciente, senti que o ciclo acabou, precisava de novos ares, o Fluminense tinha outros atletas para dar chance. Conversamos, entramos num acordo sobre a minha saída, todo mundo aceitou, foi tudo normal. Não tenho nada pra reclamar, todos foram muito profissionais comigo, até porque sempre fui muito profissional. Foi bom, no fim foi bom para todos, o Fluminense vive uma nova realidade, vai viver alguns obstáculos, mas estou na torcida para que tudo aconteça da melhor forma possível, até porque sou torcedor, virei torcedor, tenho muito carinho, meus filhos torcem pro Flu, então, quero estar como fã ali na arquibancada, onde o time jogue. Menos Volta Redonda que é longe (risos).

Unimed

Não tenho nenhuma pendência com eles. Nada, nada. Nem Fluminense, nem Unimed me devem nada. Eu saí antes do imbróglio, dessa loucura, não tenho nada a receber.

Troca de treinadores

Muda tudo. É uma nova forma de jogar, outro perfil de trabalho, um movimento completamente diferente que você tem que fazer. O que era bom pra um é ruim pra outro. O jogador tem que se adaptar. E a partir de cada momento que chega um treinador a parte boa é que todo mundo ganha motivação, se sente importante e a parte ruim é que tem que ter paciência para que os jogadores possam produzir e que entendam o que pede o treinador.

Corrupção na Fifa

Eu espero que mude, melhore. Tá aí o Bom Senso que tá forte e as coisas que estão acontecendo agora só dão mais força pra gente. Esperamos que mude, que as pessoas estejam interessadas no futebol e não em dinheiro. Tá aí a oportunidade pra mudar, qualquer coisa pequena no futebol envolve muito dinheiro, imagina padrão Fifa. Muita coisa vai aparecer e acontecer, que isso vá para mais lugares no mundo, não só no Brasil e que as pessoas tratem o futebol com mais seriedade. Fico triste porque eu jogo futebol, eu estou nesse meio. E torço pra que isso mude algo. Muita gente imaginava, que bom que tá acontecendo, que sejam punido, mas que seja maior que isso, não só na Fifa, no Brasil, em todos os cantos do mundo. Para que os que venham saibam que isso é uma coisa séria, sim.

Volta ao Brasil

Talvez eu só veja essas mudanças da arquibancada, não sei, só o tempo pra dizer. Não sei. É difícil de falar se vou cumprir esses anos de contrato. Eu quero, porque o que senti nesses primeiros meses foi muito bom, me reacendeu a vontade de jogar. Coisas que por algo as vezes aqui no Brasil a gente muda um pouco. Estou feliz, o pensamento de parar que era grande hoje é bem menor.

Chegada aos 30 anos

Agora vai começar a doer tudo, né? (risos) Nunca tive expectativa de ser jogador, né? Jogava bola e foi acontecendo. O bom da minha carreira é que eu não fazia planos a longo prazo. Fui vivendo a cada dia. Como o futebol pede: não pode pensar muito longe, a cada dia tem que se provar, cada dia tem sua história, tem lesões, as coisas mudam. Não imaginava estar aqui. Hoje me vejo sinceramente no auge para o futebol, fisicamente, de cabeça, vivo um momento mágico na minha carreira. Não imaginava ganhar tanto. Trabalhei pra isso tudo, mas não imaginava. A gente as vezes precisa perder para aprender. Até porque se só ganha você não evolui, as derrotas que tive me serviram de muito e me ajudou a chegar onde estou. Eu nunca fiz planos. As coisas foram acontecendo pouco a pouco e acho que isso fez eu colher muitas coisas boas, aprendi muito com quem tinha que aprender, com quem me ajudava, procurei me diferenciar bem, sempre dei o máximo a cada treino. Não me imaginava chegar aos 30 anos tendo o que eu tive e com uma perspectiva tão boa daqui pra frente. Então é desfrutar os momentos da melhor maneira possível, porque cada dia que passa o fim tá mais próximo então é hora de aproveitar a carreira.

Gazeta Press
Rafael Sobis na época de garoto no Internacional
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