Os sonhos de Marta e por que ela quer um passaporte sueco

Bonnie D. Ford, do ESPN.com*
Jakob Carlsen
Marta: sonhos, títulos e equilíbrio
Marta: sonhos, títulos e equilíbrio

Ela já tem 15 gols em Copas do Mundo e é a atleta mais vencedora da história do prêmio da Fifa, considerando homens e mulheres - são cinco títulos. Mas Marta Vieira da Silva, a maior jogadora de futebol que o Brasil já teve, ainda persegue sonhos. E equilíbrio.

Dentro de campo, o trabalho continua na noite desta quarta-feira. Às 20h (horário de Brasília), ela, no banco ou no campo, ajudará a seleção brasileira na Copa do Mundo de 2015. As meninas comandadas pelo técnico Vadão, já classificadas às oitavas de final do torneio, enfrentam a Costa Rica pela última rodada do grupo E.

Vencer o Mundial é uma das lacunas não preenchidas na carreira de Marta. Garantir o ouro olímpico no Rio de Janeiro, em 2016, é outra. Dois momentos que a própria jogadora confessa que passam constantemente pela sua mente.

"Vamos ver se a gente vai conseguir realizar na Copa e ano que vem nas Olimpíadas. Esses momentos não saem da minha cabeça. Espero que isto aconteça em 2016, com os estádios lotados prestigiando o futebol feminino", afirma em entrevista exclusiva à espnW.

Mas não é só nos gramados que existem sonhos a se perseguir. Fora deles, a camisa 10 do Brasil já se movimentou para garantir um conforto duradouro na sua segunda casa. Marta entrou com o pedido para receber o passaporte sueco e se tornar também uma cidadã de fato do país europeu.

Para ela, a Suécia, palco da sua primeira e da sua atual aventura no exterior, é o complemento perfeito para o Brasil. Tal como o cara e coroa de uma moeda, ambos podem ser completamente diferentes, mas se tornaram indispensáveis para ela viver tranquilamente.

"É um balanço na minha vida", define ela, jogadora do FC Rosengard-SUE.

Nada mais justo uma malabarista buscar o equilíbrio.

Leia abaixo a entrevista de Marta à espnW:

E se não fosse jogadora de futebol?
Eu já pensei muitas vezes e eu acredito que já estaria casada e com filhos. A mentalidade na minha cidade não tinha tanta perspectiva de vida. É casar, trabalhar para o poder público ou trabalhar na plantação... É o que aconteceria comigo se eu não tivesse tomado esta decisão de deixar tudo para trás e ir atrás do meu sonho.

O começo no futebol e a falta de oportunidade
Quando eu tomei a decisão de ir praticar este esporte, de viver do futebol, o apoio era quase nenhum. Achavam que era meio impossível de acontecer. Há muitos anos, quando jogava no meio dos meninos, achavam que era ridículo. A gente vê que a situação do futebol feminino do Brasil não é a ideal para que a gente possa ter oportunidade para aparecer. Têm muitas meninas boas no Brasil, mas não há oportunidade.

Nós tentamos dar o nosso melhor o tempo todo para que possamos enviar a mensagem para as pessoas que ainda não acreditam

Sobre a luta diária no futebol feminino

Como as dificuldades alimentaram sua fome no futebol
Eu acho que as dificuldades de certa forma me ajudaram na minha carreira porque eu tinha que ser muito forte. Todos os dias eu pensava: preciso superar o fato de vir de uma região muito pobre, de não ter condições financeiras de bancar meu sonho e não podia deixar que estes obstáculos fossem mais fortes do que eu... E, bom, graças a Deus eu consegui. Até hoje estou nesta batalha, porque a luta continua. Acho que todas estas dificuldades serviram para me fazer mais forte.

O apelo diário pelo apoio
Sempre ter que explicar, tendo sempre, de alguma forma, pedir apoio, pedir ajuda. É essa chave que estamos constantemente batendo, todos os dias, cada vez que temos a opção e a oportunidade de falar na frente das câmeras, em entrevistas e até mesmo dentro do nosso trabalho. Nós tentamos dar o nosso melhor o tempo todo para que possamos enviar a mensagem para as pessoas que ainda não acreditam [no futebol feminino].

Como a Suécia transformou sua vida
Se eu for pensar tudo no que aconteceu na minha vida... Começaram a surgir coisas positivas quando eu vim para a Suécia. Eu me deparei com treinos em alto nível constantemente, competições muito fortes... E o carinho que tenho visto toda vez que eu estou na ruas. As pessoas dizem que estão felizes com a minha presença aqui e que torcem muito por mim. 

Preciso destas duas opções (Brasil e Suécia) porque é um balanço na minha vida.

Sobre ter cidadania sueca

Por que é importante se tornar uma cidadã sueca
Eu considero como a minha segunda casa, então é uma opção que eu tenho de talvez morar na Suécia quando parar de jogar [Marta entrou com o pedido para receber o passaporte sueco]. Com certeza é bastante difícil, tenho amigos e vida na Suécia, mas também tive uma vida no Brasil. Tenho amigos de infância, família que mora lá... Quando eu estou há muito tempo da Suécia me dá saudades do Brasil. Vou para lá, fico alguns meses naquela bagunça, naquele tumulto, porque a vida lá é muito mais agitada do que aqui. Daí eu canso daquela agitação, quero o aconchego, quero ficar tranquila... É hora de voltar para a Suécia e descansar e recarregar a bateria. Mas preciso destas duas opções porque é um balanço na minha vida.

Os sonhos que faltam
Levantar a taça da Copa do Mundo e colocar uma medalha de ouro no peito no meu país são dois momentos que sonho constantemente. Vamos ver se a gente vai conseguir realizar na Copa e ano que vem nas Olimpíadas. Esses momentos não saem da minha cabeça. Espero que isto aconteça em 2016, com os estádios lotados prestigiando o futebol feminino. 

*Bonnie D. Ford é repórter sênior do ESPN.com e da ESPN The Magazine. A entrevista acima foi retirada de uma matéria escrita para o espnW, portal de notícias dedicado ao mundo esportivo feminino. A reportagem original, em inglês e publicada em 10 de junho de 2015, pode ser lida clicando aqui.

**Colaborou Guilherme Nagamine, do ESPN.com.br

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