Lado B das Olimpíadas: Como os palestinos driblam guerras para chegar ao Rio

Tiago Leme, do ESPN.com.br

Até a véspera dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro de 2016, o ESPN.com.br trará quinzenalmente o quadro 'Lado B das Olimpíadas', com histórias que vão muito além do esporte. Personagens históricos dentro e fora das competições, eventos que marcaram época e assuntos que merecem reflexão. Em sua 6ª edição, a série conta sobre as dificuldades da Palestina em disputar a Olimpíada. Por causa de conflitos, instalações esportivas destruídas pela guerra e a ocupação de Israel, os atletas não conseguem treinar e viajar para disputar competições. Uma entrevista exclusiva com o corredor palestino Bahaa Al-Farra retrata a dura vida dos esportistas na região.

ESPN.com.br
Lado B das Olimpíadas: conflitos, ocupação e as dificuldades da Palestina no esporte
Lado B das Olimpíadas: conflitos, ocupação e as dificuldades da Palestina no esporte

"A Olimpíada é a maior competição do mundo, acontece somente a cada quatro anos. O momento é difícil, mas eu vou fazer o impossível para participar e realizar esse sonho novamente, com muita determinação e força, esse é o sonho de todo palestino na Terra". Em meio a um cenário de tragédia, bombardeios, destruição e morte, nem mesmo esporte sai ileso. Mais forte do que tudo isso, no entanto, é a esperança. E ela existe.

A frase acima é do corredor palestino Bahaa Al-Farra, que disputou a prova dos 400 metros livres de atletismo em Londres-2012. Em entrevista ao ESPN.com.br, o atleta de 24 anos e que mora na Faixa de Gaza, deu depoimentos emocionantes, relatou a dura vida dos moradores da região e as dificuldades da Palestina para disputar os Jogos Olímpicos por causa da opressão. O sonho de estar presente no Rio de Janeiro 2016 ainda está vivo, mas esbarra nas medidas impostas por Israel, como a ocupação do território que é alvo de disputa histórica entre os dois povos e o fechamento das fronteiras impedindo a livre circulação das pessoas.

"Eu continuo praticando esporte diariamente aqui em Gaza, correndo na praia e nas ruas, mas a situação atual não me permite competir. Há mais de dois anos eu não consigo participar de torneios internacionais, porque as fronteiras estão fechadas, não consigo sair da Faixa de Gaza, tem o bloqueio de Israel. Estou me preparando, mas não pude ir aos Jogos Asiáticos na Coreia do Sul, há um mês também não pude participar do Campeonato Árabe de atletismo no Bahrein e também fiquei fora do Campeonato Asiático na China há cerca de duas semanas", contou Bahaa, que falou sofre diretamente no esporte com as consequências dos conflitos.

"As guerras acontecem a cada dois anos ou menos e há muita destruição, com isso não temos boas quadras e estádios, temos apenas quadras sujas e destruídas. Não temos as instalações necessárias para nos preparmos para competições de nível. Sofro com este problema desde que competi na Olimpíada de Londres, em 2012".

A primeira participação da Palestina em uma Olimpíada aconteceu em 1996, em Atlanta, quando Majed Abu Maraheel, que correu os 10.000 metros, entrou para a história ao ser o primeiro porta-bandeira do país. Desde então, os atletas do país do Oriente Médio estiveram em todas as outras edições. Em 2012, Bahaa Al-Farra foi um dos cinco palestinos competindo em Londres.

Arquivo pessoal
Montagem de fotos feita pelo próprio Bahaa Al-Farra sobre sua participação em Londres 2012
Montagem feita pelo próprio Bahaa Al-Farra sobre sua participação em Londres 2012

Com o tempo de 49.93 segundos, ele ficou apenas em oitavo e último lugar na sua bateria, sendo eliminado ainda na primeira fase. O medalha de ouro, Kirani James, de Granada, marcou 43.94, segundos. Derrota? Muito pelo contrário. A vitória de Bahaa foi outra.

"Foi uma experiência maravilhosa na minha vida. Foi uma sensação agradável quando vi que o mundo estava vendo a bandeira da Palestina. Minha participação foi boa, porque eu estava ao lado de neróis do mundo e tive uma ótima oportunidade para provar ao mundo que nós palestinos também somos capazes de competir. E faremos o impossível para podermos competir", afirmou.

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Bahaa e a delegação palestina na cerimônia de abertura da Olimpíada de 2012
Bahaa e a delegação palestina na cerimônia de abertura da Olimpíada de 2012

A participação de Bahaa Al-Farra em Londres ainda deu a ele uma outra experiência inesquecível. Durante a competição na Inglaterra, ele teve a oportunidade de encontrar com um de seus ídolos no futebol, o lateral brasileiro Marcelo. A rápida conversa na Vila Olímpica e, claro, o pedido de foto, foram relatado ao ESPN.com.br pelo palestino com uma alegria de um grande fã.

Arquivo pessoal
Bahaa e o brasileiro Marcelo, em Londres-2012
Bahaa e o brasileiro Marcelo, em Londres-2012

"Dizem que o talento dos jogadores de futebol da Palestina veio da inspiração nos brasileiros, todos aqui amam os brasileiros, como Neymar, Daniel Alves. Também gosto muito do Ronaldo, do Kaká, admiro muito o Ronaldinho e outros jogadores do Brasil. Sou torcedor do Real Madrid, então gosto muito do Cristiano Ronaldo, de Portugal, e também do Marcelo. Eu encontrei o Marcelo na Olimpíada de 2012, em Londres, tirei uma foto com ele e foi uma sensação incrível. Conversei com ele, falei que eu adoro o Brasil e o Real Madrid, e contei um pouco sobre a opressão à Palestina. Ele desejou sucesso para mim e para a toda a delegação palestina", contou o corredor.

Embaixador acredita que esporte pode ajudar na paz

A disputa sangrenta pela "Terra Santa", que envolve judeus e muçulmanos, começou a partir do século XIX e parece não estar próxima do fim. Entre momentos de trégua e períodos de constante batalha militar, o esporte serve como um alento para um possível entendimento entre dois povos vizinhos.

Pelo menos é isso que acredita o embaixador da Palestina no Brasil, Ibrahim Mohamed Khalil Alzeben, que conversou com a reportagem do ESPN.com.br deu detalhes sobre a situação de momento na região.

Divulgação/Alep
Ibrahim Alzeben, embaixador da Palestina no Brasil
Ibrahim Alzeben, embaixador no Brasil

"Acredito que o esporte possa ajudar a promover a paz, já houve tantas guerras no mundo. Teve a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, e hoje japoneses e alemães disputam campeonatos junto com os americanos", disse o embaixador, que acrescentou.

"A causa de tudo isso é a ocupação israelense, que reflete também na vida esportiva dos palestinos. Nós sempre lutamos para que essa competição entre israelenses e palestinos seja resolvida em um campo de futebol, não em um campo de batalha. Queremos que exista a celebração entre as duas nações, mas é muito difícil cantar vitória antes de acabar a ocupação. Se um dia acabar a ocupação, podemos ter uma vida normal entre dois vizinhos, e ter as disputas somente em campos de futebol, de tênis".

A Palestina hoje é dividida em dois territórios, Cisjordânia e Gaza, que estão separados por Israel. A circulação enter essas duas áreas é bloqueada pelo exército israelense, e poucos são os palestinos que têm autorização para fazer essa movimentação.

Jerusalém, terra considerada sagrada por judeus, muçulmanos e cristãos, é o principal alvo da batalha entre os lados. Mas a faixa de Gaza é a área mais afetada pelos constantes ataques aéreos e ofensivas de Israel, como quando aconteceu novamente em 2014.

"Gaza sofreu três guerras consecutivas, segue com um bloqueio e também com mais de 30% da infraestrutura da cidade destruída, inclusive as instalações esportivas. Dentro da Faixa de Gaza, estádios e ginásios foram destruídos pelos bombardeios e ainda não conseguimos reconstruir", disse Ibrahim Alzeben, que seguiu:

"Em Jerusalém, com a ocupação militar israelense, o exército interfere até nos jogos, muitas vezes os campos de futebol são atacados, inclusive alguns jogadores palestinos foram baleados nos joelhos e nos pés. Imagina um futebolista que recebe uma bala no joelho, ele fica sem poder jogar por muito tempo ou até para sempre. Uma aglomeração de gente nesses jogos pode ser considerado um fato não desejado pela ocupação". O embaixador palestino no Brasil ainda atacou a postura de Israel.

Tiago Leme/ESPN
Muro de separação entre Cisjordânia e Israel
Muro de separação entre Cisjordânia e Israel

"Gaza atualmente está bloqueada por ar, terra e mar. O objetivo de Israel, e não só no esporte, mas em todos os campos, é que a Palestina desista, para ter um território livre dos palestinos. Eles colocam todas as dificuldades possíveis nos movimentos cotidianos, com fronteiras fechadas. Eles apostam que vamos nos cansar um dia e desistir, deixando o território livre para eles. Mas nós não vamos abandonar. O mundo apoia a Palestina, porque é uma causa justa".

Todas as dificuldades da Palestina e as transgressões feitas por Israel, porém, não impedem o sonho olímpico. Apesar de todas as dificuldades, a esperança em dias melhores incluem a participção dos palestinos no Jogos do Rio de Janeiro em 2016.

"Eu estive na semana passada com o presidente do Comitê Olímpico da Palestina e posso assegurar que nós vamos participar da Olimpíada do Rio, do mesmo jeito que participamos pela primeira vez em 1996. Ainda não sabemos como, com quantos atletas, mas certamente a bandeira palestina vai estar presente no Rio. Queremos divulgar a paz através do esporte", disse o embaixador da Palestina no Brasil.

Getty
Sem poder sair do país, Bahaa Al-Farra treina na areia da praia de Gaza
Sem poder sair do país, Bahaa Al-Farra treina na areia da praia de Gaza
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