Relatório mostra pagamento de propina a três 'figurões' da CBF

Antônio Strini, do ESPN.com.br
REUTERS/Ricardo Moraes
CBF Sede Rio de Janeiro 27/05/2015
Membros do alto escalão da CBF recebem propina de J. Hawilla, diz Justiça dos EUA

O extenso relatório sobre as negociatas de J. Hawilla, dono da Traffic, publicado nesta quarta-feira pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos, revela que três pessoas receberam propina pelo acordo dos direitos comerciais da Copa do Brasil entre 2015 e 2022. A investigação não cita os nomes dos suspeitos — chama-os de Co-Conspirator (co-conspiradores) junto aos números 13, 14, 15 e 16 —, mas explica como funcionou o esquema de pagamento.

Pelas informações dadas pela Justiça norte-americana, J. Hawilla pagou propina para três altos dirigentes da CBF para dividir os direitos sobre a competição. O intermediário era um concorrente que aceitou repassar parte do negócio para a Traffic.

Pelos documentos, a descrição dos envolvidos tem enorme semelhança com os ex-presidentes da CBF Ricardo Teixeira (à época já fora da entidade e morando nos EUA) e José Maria Marin, o atual (Marco Polo del Nero) e o ex-mandatário do Flamengo e dono da empresa de marketing Klefer, Kléber Leite, que disputou com a Traffic os direitos comerciais da Copa do Brasil.

Em sua segunda versão do relatório, a Justiça norte-americana confirmou que um dos Co-Conspirador é José Maria Marin, preso nesta quarta na Suíça. Além disso, através de documentos da CPI do Futebol comparados à investigação do FBI, está confirmado que o Co-Conspirador #13 é Ricardo Teixeira, tudo por causa de um contrato fechado com a Nike.

Segundo a investigação, em 8 de dezembro de 2011, a "Empresa de Marketing Esportivo C" entrou na disputa com a Traffic, já parceira da CBF, pelos direitos comerciais da Copa do Brasil para depois do fim do acordo com a empresa de J. Hawilla (2014), oferecendo R$ 128 milhões pelos direitos.

Na época, o jornal Lance! publicou que a Klefer, empresa de Kléber Leite, foi a vencedora na disputa pela compra dos direitos comerciais da competição.

"A assinatura do contrato mencionado levou a uma disputa entre Hawilla e Co-Conspirador #14, um executivo-sênior de Empresa de Marketing Esportivo C", explica o relatório.

"Por volta de 15 de agosto de 2012, a Traffic Brazil e a Empresa de Marketing Esportivo C celebraram um acordo para reunir seus direitos comerciais para edições futuras do torneio, de 2013 a 2022, e dividir igualmente os lucros. Como parte do acordo, a Traffic Brazil também acertou pagar 12 milhões de reais para a Empresa de Marketing Esportivo C durante o curso do contrato", continuou.

Então, o relatório explica como foi organizado o pagamento da propina.

"Co-Conspirador #14 informou Hawilla que ele tinha acertado pagar uma propina anual para o Co-Conspirador #13. Co-Conspirador #14 informou Hawilla que ele tinha viajado para os Estados Unidos em algum momento para discutir a questão com o Co-Conspirador #13. Co-Conspirador #14 informou Hawilla que o pagamento da propina subsequentemente aumentou quando outros membros da CBF, especificamente, Co-Conspirador #15 e Co-Conspirador #16, requereram também os pagamentos de propina. Hawilla aceitou pagar metade do custo dos pagamentos de propina, o que totalizou 2 milhões de reais por ano, para serem divididos entre Co-Conspirador #13, Co-Conspirador #15 e Co-Conspirador #16", disse.

Na segunda parte do relatório, a Justiça dos EUA mostra uma conversa entre Marin (citando o nome do ex-presidente da CBF) e o Co-Conspirador #2, dono e fundador da Traffic (no caso, J. Hawilla), em abril de 2014 para a entrevista sobre a Copa América junta de 2016 entre Conmebol e Concacaf.

Nela, o dirigente discute com Hawilla sobre os pagamentos de propina a ele e ao Co-Conspirador #12 (membro da CBF, da Conmebol e da Fifa) quanto ao esquema da Copa do Brasil. "Em certo momento, quando Co-Conspirador #2 pergunta se era realmente necessário continuar pagando propina ao antecessor de Marin como presidente da CBF (Ricardo Teixeira), Marin diz: "Chegou o momento de, de isso vir ao nosso encontro. Verdade ou não?" Co-Conspirador #2 concordou, afirmando: 'É claro, é claro, é claro. Esse dinheiro tinha que ser dado a vocês'. Marin concordou: 'É isso, está certo'"

Reprodução
Os detalhes da investigação do pagamento de propina de J. Hawilla a quatro dirigentes
Os detalhes da investigação do pagamento de propina de J. Hawilla a três dirigentes

Os perfis oferecidos pelo relatório do Departamento de Justiça dos EUA sobre os Co-Conspiradores são os seguintes:

- Número 13: membro de alto escalão da Fifa e da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), membro da Fifa por sua federação nacional, além de membro da Conmebol. Ele ainda é citado na investigação por receber propina em negociação envolvendo material esportivo ao lado de J. Hawilla;

- Número 14 - executivo-sênior da companhia Empresa de Marketing Esportivo C;

- Número 15 - membro do alto escalão da CBF e membro da Fifa e da Conmebol;

- Número 16 - membro do alto escalão da Fifa e da CBF.

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Veja o fluxograma do crime no futebol segundo FBI
Veja o fluxograma do crime no futebol segundo o FBI

Entenda o caso

A dois dias da eleição para a presidência, um terremoto sacode a Fifa. Na madrugada desta quarta-feira, horário brasileiro, uma operação especial das autoridades suíças, sob liderança do FBI, prendeu sete executivos importantes da entidade sob a acusação de corrupção, entre eles José Maria Marin, ex-presidente da CBF. O grupo dos detidos será extraditado para os Estados Unidos a fim de uma maior investigação sobre o assunto na federação mais importante do futebol mundial.

Segundo nota oficial do Departamento de Justiça norte-americano, 14 réus são acusados de extorsão, fraude e conspiração para lavagem de dinheiro, entre outros delitos, em um "esquema de 24 anos para enriquecer através da corrupção no futebol". Sete deles foram presos na Suíça. Além de Marin, Jeffrey Webb, Eduardo Li, Julio Rocha, Costas Takkas, Eugenio Figueredo e Rafael Esquivel. Um mandado de busca também será executado na sede da Concacaf, em Miami, nos EUA.

O brasileiro J.Hawilla, dono da Traffic, conhecida empresa de marketing esportivo, é um dos réus que se declararam culpados, assim como duas empresas de seu grupo, a Traffic Sports International Inc. and Traffic Sports USA Inc. Em dezembro de 2014, segundo a justiça dos EUA, ele concordou em pagar mais de 151 milhões de dólares, sendo que US$ 25 mi foram pagos na ocasião. As acusações são de extorsão, fraude eletrônica, lavagem de dinheiro e obstrução de justiça.

Além de Hawilla, também se declararam culpados o norte-americano Charles Blazer, ex-secretário-geral da Concacaf e ex-representante dos EUA no Comitê Executivo da Fifa; Daryan e Daryll Warner, filhos do ex-presidente da Fifa Jack Warner.

Veja quem são os 14 acusados:

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