Cadeia, drogas, porrada e propina de atletas: quem são os temidos 'donos' do Boca Juniors

Francisco De Laurentiis, do ESPN.com.br
ALEJANDRO PAGNI/AFP/Getty Images
Rafael Di Zeo La Doce Boca Juniors La Bombonera 30/10/2011
Rafael Di Zeo (dir), o homem que transformou 'La 12' em uma organização criminosa

O vexame que aconteceu em La Bombonera durante o clássico entre Boca Juniors e River Plate, na última quarta-feira, não teve a participação direta, mas pode ser colocado "na conta" de duas pessoas: Rafael Di Zeo e Mauro Martín.

São esses os dois líderes da torcida organizada "La 12", conhecidos na Argentina como os verdadeiros "donos" do tradicional e vitorioso time de La Boca.

Atualmente proibidos pela polícia de entrarem no estádio do clube em dias de jogos, eles deram continuidade ao trabalho de José Barrita, o Abuelo, e transformaram a uniformizada em uma verdadeira organização criminosa, com diversas fontes de renda, como tráfico de drogas, cambismo e até mesmo propinas pagas pelos próprios jogadores xeneizes.

Antigos inimigos, Di Zeo e Martín hoje são aliados, e, dos bastidores, seguem comandando a organizada que faz o que quer em La Bombonera, sem nenhum tipo de repreensão e com a complacência dos dirigentes - além do temor dos atletas. A história da dupla é tão cheia de meandros que virou livro: "La Doce - a Explosiva História da Torcida Organizada Mais Temida do Mundo", do jornalista Gustavo Grabia.

A preocupação com eles é tanta, aliás, que, na quarta-feira, um dia antes do "Superclássico do spray de pimenta", o ministro da Segurança Pública da Argentina, Sergio Berni, deu pronunciamento garantindo que a polícia iria fazer de tudo para que os líderes da barra brava não estivessem no estádio durante a partida da Libertadores.

De fato, a dupla não foi flagrada nas arquibancadas durante o jogo.

Porém, certamente estavam presentes em espírito.

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- Rafael Di Zeo

Entre 1981 e 1994, "La 12" foi comandada por José Barrita, que transformou o que era uma mera uniformizada em uma máfia. Nesse período, a torcida trocou as rifas e os churrascos de outros tempos por outras fontes de renda, agora ilícitas: cobrança de estacionamento nas ruas ao redor da Bombonera, tráfico de drogas e "doações" de dirigentes e até jogadores da equipe xeneize - os atletas que não contribuiam eram perseguidos pelos torcedores e viam suas vidas virarem um tormento.

Em 1990, porém, Barrita foi preso, acusado de diversos crimes. Da cadeia, seguiu comandando a barra brava, mas viu sua saúde se debilitar e acabou morrendo em 1994, aos 48 anos, supostamente de pneumonia. O posto de líder de "La 12" ficou vago, mas acabou rapidamente ocupado por seu braço direito: Rafael Di Zeo.

O novo chefe da uniformizada, conhecido pelos cabelos brancos e pela brutalidade, deu continuidade ao trabalho do mentor e "profissionalizou" ainda mais a organizada. De 1996 em diante, "La 12" passou a se envolver cada vez mais em brigar violentas, em especial contra sua principal inimiga, a barra dos "Borrachos del Tablón", a maior do River Plate, além da polícia.

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Entre os novos métodos de arrecadação, destaque para a participação em eventos políticos e de sindicatos (afinal, a maior torcida do país consegue encher qualquer praça e deixar uma imagem bonita na TV), a participação na venda de jogadores das categorias de base, o cambismo e a organização de "tours guiados" pela Bombonera, que incluíam a "inesquecível experiência" de assistir um jogo em meio aos organizados.

A principal fonte de renda de "La 12", porém, foi a troca de dinheiros por votos em políticos "ligados ao esporte". Não é por obra do acaso que Mauricio Macri, presidente do Boca Juniors entre 1995 e 2007, foi eleito prefeito de Buenos Aires.

Em 2007, porém, Di Zeo foi preso por porte de arma de fogo em uma briga contra barras do Chacarita Juniors na Bombonera. Na cadeia, ficou amigo de Richard Laluz Fernández, conhecido como El Uruguayo, que viria a se tornar seu braço direito na prisão. Em 2011, porém, Di Zeo foi liberado. Em março daquele ano, festejava seu aniversário na boate Cocodrilo com membros da organizada quando uma briga enorme aconteceu. Richard levou três tirou e por pouco não morreu.

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Di Zeo foi apontado como mandante do crime (mas não autor dos disparos). Em julgamento realizado em maio do ano passado, o advogado do Uruguayo, que hoje está na cadeira de rodas, pediu ao menos 12 anos de prisão para o chefe de "La 12".

Segundo relato do jornal Clarín, o barra brava passou toda a sessão mexendo no celular, sem prestar atenção alguma em advogados ou juízes. Ao final, levantou-se, cumprimentou os policiais um por um, chamando-lhes pelo nome, e deixou o tribunal sorrindo, como se soubesse que nada iria lhe acontecer.

Em 8 de maio desse ano, ele foi absolvido.

- Mauro Martín

Mauro Martín sempre foi um personagem de grande influência em "La 12". Tanto é que, quando Rafael Di Zeo foi preso, em 2007, imediatamente apontou o pupilo como novo líder. Os organizados aceitaram a ordem do chefe e passaram a seguir Martín com a mesma idolatria que tinha por Di Zeo

Sob sua liderança, tudo continuou na mesma: tráfico, extorsão, propinas, cambismo e uma infinidade de brigas com outras barras bravas e com a polícia.

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Mauro Martin La Doce Boca Juniors La Bombonera 30/10/2011
Mauro Martín, de 'La 12', em 2011

Obcecado pelo poder de comandar a maior e mais influente torcida organizada do futebol argentino, Mauro decidiu que não queria largar o osso. Em 2011, quando Di Zeo saiu da cadeia, pediu ao aliado que lhe devolvesse o trono. Martín disse "não".

Começou aí uma verdadeira guerra pelo poder em "La 12", que culminou em um episódio assustados em La Bombonera, em 30 de outubro daquele ano.

Jogavam Boca Juniors e Atlético de Rafaela, pelo Campeonato Argentino. Quando Rafael Di Zeo entrou na arquibancada, foi recebido com um Messias pelos torcedores que haviam se mantido fiéis a ele. O problema é que outra parte da uniformizada ainda apoiava Mauro Martín como líder. Resultado: "La 12" dividida ao meio, com cada metade cantando juras de morte para a outra enquanto o jogo transcorria sem ninguém dar atenção.

Martín e Di Zeo foram parar no tribunal e proibidos de entrar no estádio até o final do ano, mas escaparam de punições mais graves.

A situação piorou no ano seguinte, quando sob mando de Rafael Di Zeo, atiradores metralharam um ônibus de "La 12" com Mauro e seus simpatizantes depois de um jogo do Boca na cidade Santa Fe. Martín foi atingido na barriga, e precisou ser levado às pressas a um hospital de Rosario, mas escapou da morte.

Não só sobreviveu como manteve-se na vida criminosa. Em janeiro 2013, Mauro foi preso, acusado pelo assassinato de Ernesto Cirino, vizinho de seu cunhado, que havia ocorrido em 2011 - o líder de "La 12" alega que não teve nada a ver com o crime, já que teria aparecido no local do crime apenas para tentar acabar com a briga. Já em julho do mesmo ano, uma briga monstruosa entre as duas facções da organizada deixaram mortos e feridos nas proximidades do estádio do San Lorenzo.

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Por esses e muitos outros crimes, a dupla está proibida desde agosto de 2012 de entrar nos estádios de futebol do país, por ordem da Justiça. A fiscalização é rigorosa, e eles foram barrados na última quinta na Bombonera, o que fez a organizada colocar suas bandeiras de cabeça para baixo, em sinal de protesto.

Após muita negociação, porém, Martín e Di Zeo apararam as arestas e entraram em um acordo. A chefia de "La 12" foi devolvida a Rafael, que deixou Mauro como seu "vice", acabando assim com a "guerra civil" que existia dentro da própria uniformizada.

Atualmente, eles acompanham o Boca in loco apenas em jogos fora da Argentina, onde podem entrar sem problemas nos campos. Neste ano, foram fotografados abraçados e cantando loucamente na partida contra o Zamora, na Venezuela, pela Libertadores, e 17 de março. Ao final do jogo, tiraram fotos com os "fãs" e distribuíram autógrafos juntos, como verdadeiros popstars.

Uma grande mudança para quem já tentou matar o "amigo" em muitas ocasiões.

REUTERS
Rafael Di Zeo Mauro Martin La 12 La Doce Boca Juniors Zamora Libertadores 17/03/2015
Mauro Martín (esq) e Rafael Di Zeo cantam abraçados durante Zamora x Boca Juniors
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