Sr. Waldemar lembra apresentação desastrada e diz: 'Trabalho foi melhor da história do Fla'

Francisco De Laurentiis, do ESPN.com.br, e Vladimir Bianchini, da Rádio ESPN
Relembre a famosa apresentação de Waldemar Lemos no Flamengo, em 2003

"O novo técnico do Flamengo é o senhor Waldemar".

Nunca um anúncio causou tanto furor na Gávea.

Fernando Maia/O Globo/Gazeta Press
Waldemar Lemos Apresentacao Flamengo 03/03/2006
Waldemar Lemos, ex-técnico do Flamengo

"Waldemar é o c..., p...! Vai tomar no c...! Waldemar é a p... que o pariu!", gritam os torcedores presentes, insatisfeitos com o nome apontado para comandar o Flamengo em um momento de crise, em outubro de 2003, após a demissão de Oswaldo de Oliveira, que fazia campanha ruim no Campeonato Brasileiro.

Era Waldemar Lemos de Oliveira, treinador que somava apenas passagens por times pequenos do Rio, além da equipe B do Fluminense e das seleções de base do Brasil, até então na carreira. E, curiosamente, auxiliar e irmão do demitido Oswaldo.

"E por que o Waldemar, hein?", questiona Cícero Melo, repórter dos canais ESPN, a Eduardo Moraes, o Vassoura, assustado diretor do time rubro-negro.

Vassoura, porém, parece imobilizado. Tenta falar, mas as palavras não saem.

"A gente tem que pensar no melhor para o Flamengo, achamos que a torcida é muito importante. São 10 jogos, e o Waldemar é uma pessoa de confiança", explica.

A explicação não convence...

"Ah, ah, ah, fora, Waldemar! Ah, ah, ah, fora, Waldemar!", bradam os inquisitores.

Mas não teve choro, nem vela: Waldemar ficou, apesar dos protestos.

12 anos se passaram desde então.

E Waldemar nunca esqueceu a apresentação mais desastrada da história do Fla.

"A torcida não me aceitava, porque queria um nome expressivo. Houve muita reclamação, porque eu nunca tinha sido treinador de um clube grande. Tive que pensar duas vezes antes de aceitar o convite, porque estava tendo uma contestação muito grande da torcida, e eu não entendia aquilo. Mas, por fim, a diretoria me convenceu a ficar", conta o treinador, hoje com 60 anos, em entrevista à Rádio ESPN.

Em pouco mais de dois meses de trabalho interino, Lemos calou os críticos.

Pegou o Flamengo em frangalhos e comandou uma reação espetacular que fez o time terminar o Brasileirão na 8ª colocação, a melhor da equipe desde 1997.

Em dezembro, a torcida já estava mais calma, e todos esperavam a efetivação do técnico. Mas, para surpresa geral, Waldemar foi dispensado.

Mesmo após 6 vitórias, 3 empates e só 2 derrotas em seus 11 jogos.

Um aproveitamento de 63,64%.

No entanto, aquele não seria o fim.

Maior trabalho de todos os tempos

Vivendo anos tenebrosos após a parceria com a empresa de marketing ISL, que faliu e deixou o Flamengo à beira da bancarrota, o time rubro-negro vivia mais uma temporada difícil em 2006. No Campeonato Carioca, ficou na penúltima colocação e só não sofreu um rebaixamento vergonhoso porque a Portuguesa conseguiu fazer campanha ainda pior.

Era hora de acionar Waldemar Lemos.

Ele assumiu o time em 4 de março, e, mais uma vez, teve grande desempenho.

Em suas próprias palavras, foi "o melhor trabalho da história do Flamengo".

Afinal, uma equipe quebrada, com cinco meses de salários atrasados, foi atropelando rival atrás de rival com goleadas impiedosas e chegou à final da Copa do Brasil, contra o Vasco.

"Foi a maior campanha, o maior trabalho que houve na história do Flamengo. O time estava completamente desacreditado, quase caiu para a Série B do Carioca, e fomos à final da Copa do Brasil. Foi muito especial", relembra.

Waldemar sabe como foi difícil. Afinal, foi um dos que mais sofreu com os problemas.

"Para você ter uma ideia, no começo daquela Copa do Brasil, a situação era tão ruim que, chegando em Natal para jogar contra o ABC, eu estava entrando no ônibus e um torcedor acertou um ovo minha cabeça. Os jogadores ficaram revoltados, mas nós contornamos. O rapaz que me acertou ficou preso, eu pedi ao delegado e ao segurança do clube que me arrumassem três ovos: um para jogar no cara, um para o pai e outro para a mãe dele. Mas acabei não fazendo isso, porque me convenceram do contrário (risos). Mesmo nesse caso, eu não deixo de pensar na educação das pessoas", ensina.

Alexandre Cassiano/O Globo/Gazeta Press
Waldemar Lemos Luizão Treino Flamengo 05/05/2006
Waldemar e Luizão em treino do Fla

"E também já estava tarde, era 1h da manhã, mas acho que a maior mensagem foi dada depois com o trabalho. Ele acabou depois pedindo desculpas, fizeram até entrevista com ele na televisão", recorda, aos risos.

Segundo o treinador, o clube estava tão endividado que não conseguia pagar nem os fornecedores e prestadores de serviço. Com isso, muitas vezes os atletas ficaram horas esperando a diretoria dar algum jeito de bancar um ônibus para levá-los para casa. Até mesmo estrelas como o atacante Luizão, pentacampeão do mundo, e o lateral Léo Moura...

No entanto, isso só serviu para unir ainda mais o grupo.

"Os jogadores ficavam lá após o treinamento à noite, todos calados, não reclamaram de nada. Juntamos um grupo de muito caráter, e tínhamos um líder muito grande, o [zagueiro] Fernando, que era capitão e tinha muita representatividade, mas que algumas vezes o clube não reconheceu", ressalta.

"Por isso que eu digo que, de todas as épocas, esse foi o maior trabalho que o Flamengo já fez na sua vida", torna a enfatizar Waldemar.

A inesperada demissão

22 de maio de 2006.

Lemos comanda o treino do Fla pela manhã. Seu time está na final da Copa do Brasil, que só será disputada após a Copa do Mundo da Alemanha. No Brasileirão, porém, a equipe patina, e vinha de uma derrota por 2 a 1 para o Cruzeiro, de virada, no Mineirão.

Na Gávea, a diretoria se reúne. Em seguida, o comandante é chamado.

Menos de três meses após assumir a equipe rubro-negra e levá-la de maneira heróica a uma final, mesmo sem pagamentos, o treinador é avisado que está demitido. No mesmo dia, o Fla anuncia Ney Franco, técnico revelação do Ipatinga, como seu novo técnico.

Fernando Maia/O Globo/Gazeta Press
Waldemar Lemos Treino Flamengo 28/04/2006
Waldemar teve duas passagens pelo Fla

O mesmo Ney Franco que havia sido eliminado por Waldemar nas semifinais da Copa do Brasil.

O golpe é duro demais para Lemos, que veria pela televisão "seu" time vencer o Vasco na decisão e conquistar a Copa do Brasil no Maracanã lotado.

Na súmula do jogo, porém, consta que o treinador campeão foi Ney Franco da Silveira Júnior.

"Eu fiquei chateado demais com a saída, não tem como negar...", confessa.

"Mas depois tive reconhecimento de muitos jogadores, que vestiram camisas com meu nome nas finais e dedicaram a mim o título", lembra.

"A gente sabe como é... Eu não aceito, mas o futebol brasileiro é isso aí...", lamenta.

Por que foste demitido, então, Waldemar?

"Acho que nessa época eu estava incomodando muitas pessoas no Flamengo... Eles estariam assinando um atestado de burrice diante do que vinha acontecendo. Porque antes não dava certo com ninguém, passaram grandes treinadores com nome e nada acontecia, e as coisas passaram a dar certo comigo", opina.

Marcelo Ferrelli/Gazeta Press
Waldemar Lemos Flamengo Sao Paulo Campeonato Brasileiro 16/04/2006
Waldemar Lemos durou pouco no Fla em 2006

"Eu estava mostrando a eles o que eu achava certo, que era inadmissível um clube grande do Rio de Janeiro trabalhar daquela maneira. Você tem que contratar poucos jogadores, não trazer uma baciada todo ano para montar uma equipe. Precisava ter organização, padrão e metodologia, cobrar conduta e pessoas com perfil para o seu time", acrescenta.

Depois disso, Waldemar seguiu em frente. Ainda em 2006, assumiu o Figueirense, e terminou o Brasileiro na 7ª colocação. Passou por vários times brasileiros, como Paulista de Jundiaí, Atlético-PR, Joinville, Náutico, Sport, Atlético-GO, ABC, Vila Nova, entre outros, além do futebol sul-coreano e... jamaicano!

Seu último clube foi o Boavista, no Carioca deste ano. Durou cerca de um mês no cargo, ficando entre 20 de fevereiro e 22 de março. Mais uma vez, foi vítima de um sistema que batalhou durante toda a carreira para tentar mudar. Sem sucesso...

Mas o técnico garante: ainda tem motivação de sobra para trabalhar.

"Jogo bola quase todos os dias e tento colocar em prática as coisas que eu acho que devem acontecer dentro do futebol. Eu estudo muito, leio muito...", diz.

"É uma pena que as coisas estão assim hoje em dia. Fico muito triste, porque nós estamos perdendo há muitos anos por causa de pessoas que estão mais interessadas em políticas e negócios do que se preocupar com o futebol dentro de campo", finaliza.

Enquanto isso, Waldemar Lemos espera um convite de um novo time para trabalhar.

E espera também que, ao ser apresentado, seja melhor recebido do que em 2003.

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