Nas quadras, vilarejo baiano ajuda a 'colonizar' inventores do futebol

Bianca Daga e Thiago Cara, do ESPN.com.br
Arquivo Pessoal
O Helvécia, criado por um brasileiro, é o maior campeão no futsal da Inglaterra
O Helvécia, criado por um brasileiro, é o maior campeão no futsal da Inglaterra

O que um distrito no extremo sul da Bahia, com 3.741 habitantes - segundo o último censo do IBGE, de 2010 -, tem a ver com o futsal na Inglaterra? Tudo. Muita gente não sabe nem que a modalidade é praticada na Terra da Rainha, país do futebol de campo. Mas é, e com muita influência brasileira. Há 11 anos, o baiano Ademar da Silva Pereira, de Helvécia, no município de Nova Viçosa, criou o Helvécia do Brasil, que hoje leva o nome de Helvécia Futsal London e é o time com mais títulos na Liga Nacional.

"Influências brasileiras, espanholas, portuguesas e croatas têm se revelado importantes para o desenvolvimento do futsal na Inglaterra. Nos primeiros tempos, ganhamos muito com a presença de treinadores estrangeiros. Agora, é tempo de entrarem em cena técnicos ingleses para introduzirem o nosso próprio estilo e a nossa cultura de jogo", disse Simon Walker, gerente nacional de futsal da Federação Inglesa (FA), em entrevista ao site da Uefa em 2012.

Helvécia, o baiano-inglês

Depois de se envolver com esporte quando trabalhou no Ministério da Educação e no Ministério das Relações Exteriores, Ademar da Silva Pereira foi trabalhar na embaixada brasileira na Nigéria e lá criou uma equipe de futsal com brazucas que viviam no país. Mais tarde, foi transferido para Londres e convidado para competir em uma competição amadora. Foi então que nasceu o Helvécia do Brasil.

Em 2008, quando a Federação assumiu o futsal e criou a FA National Futsal League, Ademar precisou reformular sua equipe e mudar o nome para Helvécia Futsal London. Foi aí então que ele convidou o paranaense Ronaldo Negrão, que jogava pelo time, para assumir o posto de treinador. No começo, os jogadores eram todos brasileiros. Depois, com a entrada dos estrangeiros, o técnico passou a fazer a preleção em inglês e português, como é até hoje. Neste ano, a FA passou a exigir pelo menos quatro ingleses no elenco.

"A ideia da FA era que nós, brasileiros, ajudássemos a difundir o futsal no país", contou Ademar, hoje com 63 anos e presidente de honra do Helvécia, em entrevista ao ESPN.com.br. "O Brasil é visto na Inglaterra como o coração do futsal mundial. As pessoas olham para o Brasil como inspiração e para aprender o melhor do jogo", disse Simon Walker.

Amadorismo ainda impera... com uma exceção

De fato, o futsal cresceu por lá. Na temporada 2011/12, a FA National Futsal League contava com 23 times. Hoje, são 45, sendo 36 ingleses, dois da Ucrânia, três da Lituânia, dois do Brasil e dois de Portugal. "Temos muitas comunidades de imigrantes vivendo em Londres, com mais experiência no futsal do que tínhamos aqui. Quando começamos a Liga, esses estrangeiros criaram suas equipes, e com o passar dos anos os ingleses começaram a também ocupar espaço, com jogadores e técnicos", explicou Walker.

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Diego Pagliuso e jogador do Helvécia
Diego Pagliuso e jogador do Helvécia

Mas o futsal ainda caminha a passos curtos na Inglaterra, o que se comprova pela estrutura amadora dos clubes. "A quadra em que o Helvécia treina é alugada por hora, e o clube conta com a ajuda de uma empresa que paga os custos do espaço, além de transporte para os jogos fora, uniformes e outros gastos. Este ano, parece que alguns times começaram a pagar os jogadores por partida. Não sei se é verdade. Na nossa, até onde sei, ninguém recebe. A Liga é amadora", contou Diego Pagliuso, jogador do Helvécia, nascido em Campinas, no interior de São Paulo.

Por enquanto, somente uma equipe é profissional: o Baku United FC, que conseguiu um patrocínio há dois anos e consegue pagar salário para seus jogadores. O resultado? Desequilíbrio nas competições. "Eles treinam todos os dias, vivem disso. Então, ficou muito complicado jogar contra eles. Normalmente, o primeiro tempo é disputado, mas no segundo é praticamente impossível acompanhar o ritmo deles", admitiu Diego.

Enquanto o Helvécia está em quarto em seu grupo na FA National Futsal Super League - que reúne os melhores da FA National Futsal League -, o Baku lidera sua chave. Por enquanto, não há previsão para nivelar a diferença. "Todos os times querem se profissionalizar como o Baku, mas isso depende de empresas preparadas para investir, e por enquanto, é exceção. Acredito que ainda vá demorar alguns anos para as outras equipes conseguirem atrair investimentos", analisou Simon Walker.

É por conta do amadorismo que Diego tem que se virar. O paulista de 25 anos, que já jogou na base da Ponte Preta e fez peneira no Santos, ganhou a chance de ir para Londres em 2008, quando seu pai já morava lá. Depois de muitas tentativas frustradas, por não ser jogador da comunidade europeia, conseguiu um espaço no London United Futsal Club - que tem um diretor brasileiro.

Hoje, o ala-pivô joga pelo Helvécia e concilia outras atividades, por prazer e para pagar as contas. Além de trabalhar em um restaurante ganhando 12 libras por hora, ele recebe 25 libras por aula para ensinar futsal às crianças da equipe. Em paralelo, cuida da própria escola de futsal, que montou em outubro do ano passado e já conta com quase 100 alunos, entre 4 e 14 anos.

English Team, um pontinho na Europa e no mundo

A seleção inglesa, por enquanto, também ainda engatinha. Criada no mesmo ano que o Helvécia, em 2004, a equipe nacional nunca conseguiu se classificar para uma Copa do Mundo ou uma Eurocopa. Além das duas competições, disputa de 8 a 10 amistosos por ano. A seleção, inclusive, já está eliminada da Eurocopa-2016, depois de ter perdido para a Letônia.

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