Ex-Flu, Fernando Henrique renasce em SC, vira 'Presidente' e critica 'geração mimadinha'

Francisco De Laurentiis, do ESPN.com.br, e Vladimir Bianchini, da Rádio ESPN
Reprodução/Facebook
Fernando Henrique Goleiro Inter de Lages Campeonato Catarinense
Fernando Henrique em ação pelo Inter de Lages: renascimento no interior de SC

Se algum instituto organizasse hoje uma pesquisa eleitoral na cidade de Lages, interior de Santa Catarina, daria vitória de Fernando Henrique com 100% dos votos.

Mas não de Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente da República, e sim de Fernando Henrique dos Anjos, 31 anos, ex-goleiro do Fluminense por 12 anos.

Sim, ele segue na ativa, e fez grande Campeonato Catarinense pelo Inter de Lages, maior surpresa do Estadual, ao lado de Marcelinho Paraíba. Acabou eliminado no hexagonal final, mas sua passagem por Santa Catarina pode ser considerada um renascimento, já que ele vinha cogitando até mesmo encerrar a carreira após passagens por Ceará e América-RN.

"Eu estava até pensando largar o futebol, estava desmotivado, tinha acabado de casar, inclusive. Mas essa oportunidade no Inter foi fantástica, acabou sendo um renascimento na minha carreira. Fiz ótimas partidas e fui muito reconhecido pelas pessoas em Lages. Vi que ainda sou jovem e tenho muita lenha para queimar", celebra o arqueiro, em entrevista à Rádio ESPN.

O carinho da torcida do Inter por Fernando Henrique foi tanto que ele ganhou um apelido imponente na cidade: "Presidente", em referência a FHC. No entanto, seu nome não tem nada a ver com a política, garante.

"Não foi inspirado no ex- presidente, nem sei de onde minha mae tirou esse nome (risos)", brinca, antes de lembrar os "duelos políticos" nos tempos de base do Fluminense.

"Engraçado que na base do Flamengo tinha o Getúlio Vargas, que também era goleiro. Quando atuávamos contra, diziam que era o 'duelo dos presidentes' (risos). Mas eu levava vantagem, deitei muito no Flamengo dele (risos). Essa eleição eu ganhava fácil", diverte-se.

Em Lages, Fernando Henrique começou vivendo um inferno logo de cara, levando uma goleada por 5 a 0 para a Chapecoense logo na estreia. No entanto, o jogador não se abalou, e foi peça chave na reação da equipe colorada no Estadual. Aos poucos, o time se encontrou e avançou até o hexagonal final, terminando na 4ª posição. Muito bom para uma equipe que estava há 12 anos fora da elite de Santa Catarina.

Greik Pacheco/Inter de Lages
Fernando Henrique Marcelinho Paraiba Treino Inter de Lages 31/03/2015
FH fez sucesso ao lado de Marcelinho Paraíba

"O Catarinense é muito equilibrado, com equipes de Série A e uma de Série B. Nosso time tinha Reinaldo, Marcelinho Paraíba, Michel, eu, vários 'dinossauros' (risos). Não começamos bem, mas fomos melhorando e nos classificamos para a fase final. No fim das contas, fizemos uma grande campanha. Mesclamos juventude com experiência e deu certo", comenta.

Com o fim da participação da Inter no Estadual, porém, Fernando Henrique deixou Lages, para tristeza do "eleitorado" local. No entando, o goleiro deve seguir em Santa Catarina, já que o Figueirense planeja contratá-lo para disputar o Brasileirão.

Carona de caminhão e jogadores 'mimadinhos'

Natural de Bauru, interior de São Paulo, Fernando Henrique sempre quis ser jogador de futebol, mas deu azar de nascer em uma cidade na qual o Noroeste, clube local, vivia enorme derrocada. Por isso, saiu de casa aos 15 anos para se aventurar e tentar uma chance. Ficou sabendo de uma peneira no Matsubara e se mandou para o Paraná. Acabou aprovado, e viveu algumas de suas maiores aventuras no time de Cambará.

"O time não tinha estrutura, e a gente comia todo dia carne moída e frango. Eu podia até voar de tanto frango que comi (risos). Até hoje não aguento comer carne moída, fiquei traumatizado. Já o frango era bom, porque eu comia vários no almoço e no jantar, pra não engolir durante a partida (risos). Graças a Deus tomei poucos frangos na carreira, acho que foi por isso", brinca.

Wagner Meier/Agif/Gazeta Press
Fernando Henrique America-RN Vasco Serie B 19/07/2014
FH estava jogando no América-RN

Um de seus grandes companheiros nesta época era o atacante Nilmar, hoje no Internacional. Fernando praticamente "entrou para a família" do companheiro de equipe, já que não tinha dinheiro para voltar para Bauru.

"Eu ia com ele pra cidade de Bandeirantes visitar a família dele de final de semana, porque não tinha o que fazer na concentração lá em Cambará. A gente sempre arrumava carona com alguém", lembra.

O problema era a volta...

"A gente nunca tinha dinheiro para voltar, então pegávamos carona com um caminhoneiro que transportava borracha às 5h30 da manhã para chegar no treinos das 9h no Matsubara, senão tinha que vir a pé. Mas isso tudo foi bom, eu aprendi a valorizar mais as coisas que conquistei e precisei amadurecer mais cedo", relata.

Relembrar as agruras do início de carreira, inclusive, faz o goleiro disparar uma saraivada de críticas à atual geração de jogadores de futebol, a quem considera "mimadinhos", já que são controlados por empresários e assessores.

"Os empresários estragaram o futebol. Eles mimam demais os jogadores, que ganham tudo de mão beijada, até chuteira caríssimas! Viram todos 'mimadinhos'! O futebol não pode perder esses valores, as pessoas precisam saber o valor do sacrifício par valorizar mais, mas isso está se perdendo", dispara.

"Na minha época, a gente rezava pra chegar ao principal, ficava super feliz quando um jogador profissional nos dava uma chuteira. Olhávamos para eles como nosso heróis. Hoje, tem juniores que chegam folgados e só faltam bater nos profissionais", completa.

De tudo um pouco no Flu

Após Nilmar ser levado para o Inter, Fernando Henrique foi para o Fluminense em 1998, junto com o atacante Rodrigo Tiuí. Nas Laranjeiras, treinava com os juvenis, mas completava os trabalhos da categoria de cima. Um dia, foi chamado pelo técnico Marcos Paquetá para ficar no banco em um torneio de juniores no Paraná. Deu sorte: o titular quebrou o braço e a vaga caiu no colo de FH, que se destacou.

Na volta, não demorou para ser promovido ao profissional, em 2000, e chegar à titularidade do Flu, em 2002. Ao todo, foram oito anos como titular do clube tricolor, com vitórias, derrotas, alegrias, tristezas... E um sentimento de dever cumprido.

"No Fluminense, aconteceu de tudo comigo. Fui campeão, tomei peru, peguei pênaltis... Só não fiz gol", recorda, antes de citar um episódio curioso que lhe marcou.

"Teve um jogo contra o Americano em que aconteceu uma situação única na minha carreira. Eu fiz um pênalti durante a partida e levamos um gol, o jogo ficou empatado, mas o resultado não servia para gente. Nos acréscimos, eu desci para tentar fazer um gol e sofri um pênalti! O zagueiro foi dar uma bicicleta para tirar a bola e acertou meu rosto. Fizemos o gol, ganhamos e deu tudo certo. A torcida já queria me matar, mas depois desse lance saí como herói (risos)", gargalha.

Wallace Teixeira/Photocamera
Fernando Henrique Camisa 250 Jogos Fluminense 14/07/2010
Goleiro jogou 12 anos pelo Fluminense

O goleiro coloca o vice da Libertadores de 2008 como seu grande momento nas Laranjeiras. Apesar da derrota para a LDU, nos pênaltis, em pleno Maracanã, o atleta considera que suas grandes atuações naquela campanha entraram para a história do Flu.

"A final foi muito triste. O Brasil inteiro estava torcendo pela gente, mas fomos mal na altitude e perdemos feio no Equador. Conseguimos reverter a situação mais difícil, mas infelizmente perdemos nos pênaltis no Maracanã. E olha que eu defendi uma cobrança! Mas foi um ano maravilhoso, no fim das contas. O grupo era muito bom, os jogadores se destacaram e fizemos uma história muito bonita", encerra.

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