Lado B da Bola: Só grana? China mira futuro no futebol com 'exército' de 8 milhões de crianças

André Donke, Igor Resende e Jean Pereira Santos, para o ESPN.com.br
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Lado B da bola - Futebol na China

O mundo parado em frente à televisão. Na tela, um homem de olhos puxados e com uma camisa vermelha ergue a famosa taça Fifa. Uma multidão de mais de um bilhão de pessoas vai às ruas para comemorar. Com a bola nos pés, a China finalmente conquista o mundo no futebol.

Um sonho?

Claro que sim! Mas não tão impossível quanto parece. Ao menos não para o futuro. E em um futuro que pode nem ser tão distante assim.

Afinal de contas, milhares de crianças chinesas já correm para reescrever a história do país no planeta bola.

Hoje, o futebol na China não vive mais apenas das milionárias contratações, pelo contrário: é política de estado e prioridade de desenvolvimento. E isso significa muito em um país com uma população de 1,3 bilhão de pessoas.

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Xin Jinping, em visita a Dublin
O presidente Xi Jinping, em visita a Dublin

Há um nome por trás da mudança de mentalidade do governo em relação ao futebol: Xi Jinping. Pela primeira vez na história, um aficionado por futebol emergiu ao poder. E chegou pensando grande.

O atual presidente chinês criou um plano de reforma para o futebol no país. São três objetivos em sequência:

1 - Voltar a participar de uma Copa do Mundo;

2 - Sediar a competição;

3 - Ganhá-la.

E as medidas para que isso aconteça são agressivas.

O futebol passa a ser parte do currículo para as crianças, obrigatório nas aulas de educação física. Em cinco anos, cerca de 20 mil escolas serão especializadas - e com treinamento compulsório - no esporte. E isso deve resultar em cerca de oito milhões de crianças jogando. 

Para se ter uma ideia, o número será o dobro do que tem o Reino Unido (formado por Escócia, Inglaterra, Irlanda do Norte e País de Gales). Hoje, são apenas 50 mil crianças nos gramados chineses.

Pelas estatísticas, este verdadeiro exército já deve bastar para que a China tenha um time e tanto. Alguns estudos mostram que é necessário um grupo de cerca de 200 mil crianças para que uma se sobressaia. Na matemática, a seleção chinesa terá nada menos que 40 potenciais craques treinando em 2020, ou seja, daqui a apenas cinco anos.

E esse universo pode explodir ainda mais. Em 2025, a ideia é que haja nada menos que 50 mil escolas especializadas em futebol.

Histórico semelhante

A história é bem parecida com a que alavancou o esporte como um todo na China. O país não disputava as Olimpíadas até 1984; em 1988, ganhou quatro ouros e foi o 11º no ranking geral. Vinte anos depois, em 2008, os chineses sediaram o evento e conseguiram a marca história de cem medalhas, com 51 de ouro e o primeiro lugar geral, desbancando os Estados Unidos pela primeira vez desde o fim da União Soviética.

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China
'Exército de crianças' já está escalado

"Até a década de 1980, a economia da China era relativamente fechada e, quando a abertura aconteceu, a maior preocupação era justamente com a economia. Como as crianças e os jovens eram incentivados a estudar muito, em virtude da competição profissional, os esportes eram deixados de lado. Com seu lugar assegurado entre as potências, tornou-se possível voltar os olhos para outras questões", explicou ao ESPN.com.br o historiador Rud Eric Paixão, que se formou pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), mas também estudou na Universidade de Hubei, na China.

E por que se investir tanto em esporte e, principalmente, no futebol?

"Sendo o esporte mais popular do mundo, bons resultados em competições internacionais de futebol levariam mais pessoas a voltar seu olhar para a China", diz Paixão. Foi exatamente desta forma que os chineses atraíram a atenção ao liderar o quadro de medalhas olímpicas.

Da vergonha à paixão

Sim, a China sempre teve o número de pessoas para se formar um bom time e agora passa a ter a vontade e os investimentos necessários para isso. Mas não falta alguma coisa, aquela paixão necessária para qualquer esporte crescer em um local?

Não, definitivamente, não falta!

Com uma ‘ajudinha' do novo presidente e também da imprensa, que mudou seu modo de falar sobre o futebol e deu uma grande abertura às transmissões das maiores ligas do mundo, o esporte passou a ser um dos preferidos no país.

"É estranho, mas era uma vergonha ser fã de futebol no passado. Isso mudou depois que Xi [Jinping] se revelou também um fã. Essa é a maior e mais visível mudança que o futebol chinês já teve até agora", contou ao ESPN.com.br o chinês Ning Sun, torcedor e administrador de uma página do Twitter do Jiangsu Sainty, o time que quase tirou Jadson do Corinthians no começo deste ano.

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Futebol na China - Audiências -v2

Os números comprovam todo o potencial do futebol na China. A última Copa do Mundo, por exemplo, contou com uma audiência de nada menos que 87 milhões de pessoas na TV chinesa - e mais nove milhões de pessoas pela Internet. E isso com a China sequer tendo participado do torneio - a única vez que o disputou foi em 2002.

Como base de comparação, Alemanha e Estados Unidos quebraram recordes históricos de audiência, mas não passaram, respectivamente, dos 34,7 milhões e dos 26 milhões de audiência. No Brasil, cerca de 24 milhões de pessoas assistiram à vitória dos alemães sobre a Argentina na final.

Na verdade, o próprio povo chinês nunca entendeu direito o porquê de o futebol não conseguir engrenar no país. Até por isso, a imprensa preferia tratar o assunto de forma mais jocosa, para tentar diminuir um pouco os vexames da equipe nacional - depois da inédita e histórica classificação para a Copa da Coreia do Sul e do Japão, a seleção despencou em rendimento, chegou a perder até da frágil Tailândia e ocupa atualmente a 83ª posição no ranking da Fifa.

Mesmo assim, os chineses jamais deixaram de gostar de futebol. A derrota em 2013 para a Tailândia gerou até mesmo um protesto que acabou com 100 feridos. E vale ressaltar a importância de tal protesto em um país onde qualquer aglomeração deste tipo é completamente vetada.

rio de dinheiro em campo

E como manter a paciência do povo chinês até que os jogadores do país finalmente comecem a dar resultado dentro de campo?

A resposta é fácil: é só usar boa parte da economia do país para fazer com que o dinheiro impulsione o futebol neste meio tempo.

Segunda maior economia do mundo, a China até vem tendo uma redução em seu nível de crescimento, mas segue com um superávit bem maior que o dos rivais. Como comparação, o PIB (Produto Interno Bruto) chinês cresceu 7,4% em 2014 contra 2,4% dos Estados Unidos, maior economia do mundo. O Brasil cresceu menos de 1%.

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Drogba e ANelka juntos na China
Drogba e Anelka juntos na China

Mas por que investir no futebol?

"O que aconteceu na China é o que aconteceu na Ucrânia, encontrou-se no futebol uma chance de se usá-lo para se posicionar na sociedade. Os grandes investimentos no futebol chinês são privados. Um bom exemplo é o [dono do Chelsea, o russo Roman] Abramovich. Por mais rico que fosse, ele jamais seria respeitado, conhecido como foi/ficou após comprar o Chelsea. A mesma coisa é o xeque Mansour [bin Zayed Al Nahyan, emiradense e dono do Manchester City], o dono do PSG [xeque catari Nasser Al-Khelaifi]", opinou ao ESPN.com.br o consultor de marketing e gestão esportiva Amir Somoggi.

É assim que o país tem atraído tanto a atenção nos últimos anos. Por lá, já passaram nomes como Didier Drogba e Nicolas Anelka, completamente consolidados no cenário internacional; o australiano Tim Cahill é o mais novo a se aventurar em terras chinesas.

Mas a aposta sempre foi mesmo em jogadores do futebol brasileiro. Por isso, tanto dinheiro foi desembolsado nas compras de Diego Tardelli e Ricardo Goulart, nomes frequentes da seleção brasileira de Dunga. Gringos conhecidíssimos por aqui, como Darío Conca, Walter Montillo, Marcelo Moreno e Hernán Barcos, também estão por lá.

Veja os gols de Ricardo Goulart na China

O investimento também vem fora de campo. Tetracampeão do mundo com a Itália, Marcelo Lippi comandou o Guangzhou Evegrande na melhor fase de um time chinês na história. Sergio Batista, campeão olímpico com a Argentina, também passou por lá. E hoje, nove dos 16 técnicos da primeira divisão são estrangeiros. Entre eles, o brasileiro Cuca, o capitão do tetra italiano Fabio Canavarro e o sueco Sven-Goran Eriksson, ex-técnico da seleção inglesa.

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Futebol na China - Média de Público - v2

Os resultados já aparecem em campo. O nível do futebol do país melhorou, e o Guangzhou chegou até a ser campeão continental em 2013, algo impensável até então. Na atual temporada, as equipes chinesas também estão muito bem na Champions Asiática. São 24 pontos somados, contra 21 de times coreanos e apenas oito de japoneses.

"Não há dúvidas de que o nível está crescendo. Gastamos muito dinheiro para conseguir grandes jogadores e grandes nomes para a nossa liga. Jadson quase fechou com o Jiangsu neste ano, mas acabamos contratando Jorge Sammir, um brasileiro que jogou pela seleção croata na Copa de 2014. Há dez anos, nós nunca poderíamos imaginar que teríamos jogadores deste nível", celebrou Ning Sun.

O resultado de tamanho investimento rapidamente veio fora das quatro linhas. "Os públicos das ligas chinesas são os mais quentes da Ásia", como diz Sun.

Em 2014, a Superliga Chinesa teve a nona maior média de público do mundo. Foram quase 19 mil pessoas por jogo, superando o Japão (17.160) e também o Brasil (16.555).

Na comparação entre os mais populares dos países, Guangzhou Evergrande e Beijing Guaon também dão um baile em Corinthians e Flamengo: médias por jogo de, respectivamente, 42.154 e 39.395 torcedores contra 28.960 e 26.411.

longo caminho

Com tanto dinheiro e tamanho interesse, desta vez não só do público como do governo, é inevitável que o futebol chinês se consolide como um dos melhores do mundo, certo?

Não, não será tão fácil assim.

Principalmente porque os clubes do país vêm cometendo um erro, ao menos na visão de Somoggi.

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Guangzhou foi campeão da Ásia em 2013
Guangzhou foi campeão da Ásia em 2013

"Olho para a China como olho para o Catar, a Arábia Saudita, os países do leste europeu. Não importa a quantidade de dinheiro, esses países nunca serão protagonistas no cenário do futebol. A China erra em um ponto crucial: não trabalha o produto, a marca. A MLS, por exemplo, segue um princípio diferente: tudo é estruturado do ponto de vista da mídia. Os EUA estão construindo uma competição para se valorizar ao longo dos anos. O Japão já fez isso [contratar jogadores brasileiros pagando caro] que a China está fazendo... Mas isto não compra o status de primeiro mundo do futebol", analisou o consultador de marketing e gestão esportiva.

Seja pela própria realidade ou até por uma precaução para evitar desapontamentos, os próprios chineses não parecem assim tão confiantes na mudança definitiva dos rumos de seu futebol. Ao menos não em um período mais curto de tempo.

"Não acho que a China vá ganhar uma Copa do Mundo. Ainda precisamos de algumas gerações para termos jogadores com uma média forte o suficiente. A seleção teve um bom resultado na Copa da Ásia deste ano (ganhou todas as partidas da fase de grupos, mas caiu nas quartas de final para a Austrália), mas ainda há uma grande diferença para as grandes do continente. Depois de dez anos muito ruins, apenas voltamos ao normal", analisou Ning Sun.

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China
Futebol chinês pode melhorar?

"Nossa liga ainda tem alguns problemas. Posições fundamentais, como as de zagueiros e atacantes, são dominadas por estrangeiros. Isso acaba se tornando um problema para a seleção. Comparada com Coreia e Japão, a China ainda depende mais dos estrangeiros na liga nacional. Talvez seja uma fase necessária até a maturação do campeonato", completou.

O volante Júnior Urso, ex-Coritiba e que defende o Shandong Luneng desde a temporada passada, chegou a admitir em entrevista ao ESPN.com.br que a qualidade do futebol local não é alta.

"Antes de vir, achava que os chineses eram fracos. Vou ser sincero: tem bastante ‘china' aqui que é fraco mesmo, algumas equipes que a gente enfrenta, nós temos umas 15 chances e eles nem chegam no nosso gol. Mas tem time com chineses de qualidade, jogadores fortes, rápidos, habilidosos. No nosso time, por exemplo, existem jogadores que vão para a seleção chinesa, a maioria vai", disse.

"Normalmente a gente (os estrangeiros - hoje, a equipe conta com Diego Tardelli, Montillo e Aloísio ‘Boi Bandido' no elenco) se procura dentro de campo, nada tão exagerado pra que não fique ruim ou estranho. Mas a maioria dos gols sai das nossas jogadas. Os chineses devem ter feito uns sete gols neste campeonato, e o restante é entre a gente. Procuramos sempre dar o passe final, as oportunidades no pé um do outro. Os atacantes daqui são bons, habilidosos, mas perdem muitos gols. Fazemos com que eles deem os passes para a gente", completou.

Fácil, claro, não vai ser.

Mas também não há como negar que a China tem o ‘exército', o dinheiro e agora também a vontade suficiente para finalmente ser grande no principal esporte do mundo.

Um país difícil de se definir

Um país que nasceu ainda antes da contagem moderna do calendário e que passou por tantas modificações que acabou se tornando uma coisa única em todo mundo.

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Mao Tse TUng mudou a história da China
Mao Tse Tung mudou a história da China

A China foi unificada sob a Dinastia Qin ainda em 221 antes de Cristo. Mas praticamente reescreveu sua história a partir de 1949, com a chegada de Mao Tsé Tung e do Partido Comunista ao poder.

Foi sob o comando de Mao que a população do país explodiu no chamado "Grande Salto Adiante". O projeto de reforma econômica e social do país, porém, acabou não saindo como o planejado. Aliado à Reforma Cultural, ele acabou resultando na morte de diversos chineses, seja por fome ou por abuso de poder que culminou na execução de milhares de contra-revolucionários.

Com a morte de Mao, em 1976, a China aos poucos foi se abrindo ao capitalismo. E se tornando uma economia muito difícil de ser definida.

"Diria que é um governo socialista - no sentido de que suas ações são voltadas ao bem-estar social - de partido único com economia voltada ao capital", diz o historiador Rud Paixão.

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McDonald's na cidade de Shangai
McDonald's na cidade de Shangai

"A China é um país capitalista. O seu posicionamento econômico é assim, embora, em termos de estrutura política e partidária, mantenha denominações de um país coletivista.
Estamos observando há cerca de 37 anos de abertura econômica. A China, na verdade, está seguindo um curso, está passando por um caminho previsto para um país que fez uma grande transformação. Esse grande crescimento econômico é esperado, o que assombra muito é que estamos falando de muitas décadas perdidas que a China está recuperando em pouco tempo", analisou Wilson Marchionatti, economista e professor da Pontifícia Universidade Católica (PUC-RS) e que fez mestrado em Xangai por três anos.

A combinação entre socialismo e capitalismo - e, claro, a enorme força de trabalho de um país de mais de 1 bilhão de habitantes - impulsionou a China como uma potência mundial. Para se ter uma ideia, o PIB chinês hoje é de 11,3 trilhões de dólares, ainda longe dos 18,3 trilhões do Estados Unidos, mas já com uma boa vantagem para os 4,2 trilhões do Japão, por exemplo, a terceira maior economia mundial.

"O que sempre impressiona é esse crescimento rápido demais. A China é uma das unidades nacionais mais antigas do mundo, sempre teve papel de destaque na economia e na politica. É natural que seja no futebol também. Ela está recuperando um papel natural para um país do seu tamanho. O único cenário no qual não dá para visualizar esse crescimento no futebol é se a população não gostasse de futebol, mas não é o caso", finalizou Marchionatti.

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