Daniel Alves vê 'briga errada' na Copa e não aceita críticas por 7 a 1: 'Só quem viveu sabe'

Thiago Arantes, de Barcelona, para o ESPN.com.br
Sem ser procurado, Daniel Alves entra no último ano de Barcelona e diz que gostaria de ficar

O piercing dental no canino direito de Daniel Alves brilhava como nunca. O sorriso do lateral na manhã da segunda-feira, 23 de março de 2015, serviria para contar até ao mais desinformado dos seres humanos como terminou o clássico entre Barcelona e Real Madrid, um dia antes, no Camp Nou.

Daniel já não costuma economizar nas gargalhadas e na maneira de levar a vida; mas, no dia em que conversaria com o ESPN.com.br estava acima até de seus próprios padrões.

Não sem motivo. Um dia antes, o Barcelona vencera o Real Madrid por 2 a 1, com direito a assistência do brasileiro para Luis Suárez marcar o gol da vitória.

Mas, nos 20 minutos de entrevista, nem tudo foram sorrisos. O jogador ainda não sabe se ficará no clube catalão na próxima temporada, e o assunto não está entre seus favoritos.

"Na vida existem momentos em que é preciso fazer mais do que falar; eu estou em um desses momentos", afirmou.

A Copa do Mundo também faz o lateral falar sério. Faz ele sofrer. Para ele, a seleção brasileira "comprou uma briga que não deveria", e acabou pressionada não apenas para ser campeã, mas para resolver todos os problemas do país.

Daniel também falou do Clássico, é claro, disse que o Barcelona ainda não está perto do título da Liga Espanhola, e fez elogios a Messi - para ele o melhor jogador da década - e Neymar, sua aposta para herdar o trono do argentino no Barcelona.

ESPN.com.br - Falando do clássico de domingo: o Real Madrid jogou muito melhor no primeiro tempo, depois vocês reagiram... Como você viu o jogo de dentro do campo?

Daniel Alves - O Clássico sempre tem essa dificuldade. Porque você está competindo contra grandes jogadores, em um alto nível, então isso sempre dificulta mais. Mas acredito que, se a nossa segunda chance de gol [com Neymar, aos 30 minutos do primeiro tempo] tivesse entrado, o jogo teria tido uma outra leitura. No primeiro tempo, porque no segundo tempo acho que a gente foi superior. Mas acho que a gente passou da possibilidade do segundo gol ao empate por 1 a 1, então isso deu uma mudada no jogo. Eles tiveram o lance do Cristiano com a bola na trave e depois uns bate-rebates na área, que infelizmente a bola sempre sobrava pra eles... E eles não estavam acertando. Mas, no contexto geral, acho que fomos merecedores. As grandes oportunidades de gol no jogo foram nossas, sobretudo no segundo tempo.

ESPN.com.br - Com a vitória e os 4 pontos de vantagem, o Barcelona dá um passo importante na Liga. Qual o tamanho desta vantagem?

Daniel Alves - Sem dúvida nenhuma é uma vantagem importante. Mas essa vantagem só serve se, no jogo seguinte, você conseguir mantê-la ou tentar apliá-la. Não serve para nada você ganhar do Real Madrid se no jogo seguinte você não conseguir os três pontos. No final das contas, na história da Liga, dificilmente os clássicos são o que definem os campeonatos. Normalmente são os jogos contra times inferiores que são os jogos mais complicados, mais difíceis... Então acho que a gente precisa estar bastante consciente de que, pra realmente a gente conseguir esse objetivo a gente não pode ficar comemorando o clássico ganho, mas sim tentar nessas 10 rodadas que faltam fazer o máximo de pontos possível.

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Alves brinca durante evento promocional do Barcelona
Alves brinca durante evento promocional do Barcelona

ESPN.com.br - Quem te vê nos treinos, no dia a dia, nas redes sociais, sempre nota um cara descontraído, de bem com a vida. De onde sai tanto bom humor?

Daniel Alves - (Risos) Então, é muito tempo livre que a gente tem. Mas normalmente o que eu tento é mostrar a outra cara do profissional, a outra cara do trabalho, a outra cara, digamos, do famoso... As pessoas acham que ser famoso é ser comportadinho, é ir de uma maneira que as pessoas olhem com um olhar de admiração... E eu tento fazer com que as pessoas entendam que a gente é normal... Somos normais, as pessoas é que nos vêm diferente. Então eu tento passar isso, me aproximar um pouco das pessoas que me seguem, das pessoas que gostam de mim, e fazer com que elas entendam que somos alegres, somos divertidos, gostamos de dançar, de cantar, gostamos de viver... Na realidade a única coisa que eu faço é viver e tentar levar um pouco da minha energia e da minha felicidade, que não é 24 horas... Não sou 24 horas feliz, também tenho problemas, tenho minhas coisas. Mas eu tento sempre levar minha parte boa para as pessoas para que essa energia boa possa voltar.

ESPN.com.br - E o que acaba com seu bom humor?

Daniel Alves - Uma derrota, por exemplo, me tira bastante o humor. Ou as pessoas pensarem que eu faço aquilo porque sou de tal jeito, ou porque tenho tal coisa. Isso me incomoda bastante. Mas é normal, faz parte da vida. As coisas desagradáveis são as coisas que te fazem uma pessoa melhor, um melhor profissional, que te fazem ser cada dia um pouco melhor, né? O elogio te acomoda, mas a crítica, ou alguma coisa de que as pessoas não gostem, é algo que te faz repensar no que você está fazendo, se é a coisa certa ou se não é... Então, que nunca falte uma crítica, pra me fazer melhor a cada dia.

ESPN.com.br - Dentro de campo a gente vê que é raro você estourar. O que aconteceu no primeiro jogo das oitavas da Champions, contra com o Manchester City? [ao ser substituído, Daniel protestou e chutou uma garrafa de água que estava ao lado do campo]

Daniel Alves - Então... Eu tenho uma maneira muito espontânea de viver, de ser. Eu nunca calculo muito as minhas reações, se eu vou reagir assim pra cair bem, ou pra cair melhor para as pessoas. Eu tenho as minhas reações como qualquer pessoa normal, e como eu falei, ali eu não queria faltar com respeito a ninguém. Era simplesmente a minha vontade de seguir jogando, de seguir dando coisas para a equipe. Isso era maior do que a minha vontade de sair do jogo, claro. Então eu acabei me estressando, mas pedi desculpas a quem tinha de pedir. Em 12 anos de Europa nunca tinha acontecido isso, mas como sempre tem a primeira vez, acabou acontecendo essa coisa pontual nesse dia, mas é a minha maneira de viver o futebol, de viver a vida também... Sempre vivo intensamente, e naquele momento eu tive aquela reação, e foi, aconteceu, tenho certeza de que não voltará a acontecer.

ESPN.com.br - O fato de não saber onde você vai estar no ano que vem é um desafio ou uma preocupação?

Daniel Alves - Eu encaro sempre as coisas da maneira mais positiva possível. Acredito que seja um desafio. Pelo que vivi aqui, vejo que as coisas nunca acontecem por acaso na vida. Elas sempre têm um porquê, um "para quê" e eu sempre estou em busca deste "para quê?". Para que está acontecendo isso? E eu só trato de me dedicar, penso em dar seguimento ao meu trabalho da melhor maneira possível, e se o clube acredita que eu mereço seguir aqui, será bem-vindo; se não, muito obrigado, acho que eu vivi e estou vivendo um dos maiores sonhos profissionalmente falando.

ESPN.com.br - Você é o jogador que mais deu assistências para o Messi. É o melhor jogador que você já viu?

Daniel Alves - Acho que essa década é dele. O futebol é marcado, no meu conceito, por décadas. Cada década sai um jogador que se destacou mais que todos os outros, e eu acredito que essa década vai ficar marcada por esse jogador, que é um espetáculo.

ESPN.com.br - Aqui se fala muito que ele é o melhor de todos os tempos. Você concorda?

Daniel Alves - De todos os tempos eu não posso falar, porque eu não vi os outros tempos... Eu estou vendo agora, e posso falar que desse nosso tempo, é o melhor com diferença. E é o melhor porque é natural, não é um produto trabalhado. É um cara que tem um dom diferente de todos os demais, e acredito que ele faz desse dom uma arma a favor, e para nossa alegria ele joga do nosso lado e não contra nós. É um grande prazer poder compartilhar coisas com um jogador desse nível e vivenciar coisas com um jogador como ele.

ESPN.com.br - O Barcelona de hoje tem mais repertório do que o de alguns anos atrás?

Daniel Alves - Eu nunca gosto de comparações, acho que cada etapa tem sua importância, e o vivido já foi, eu quero viver algo a mais, algo melhor. Evidente que comparar o time agora com o de cinco ou seis anos atrás é difícil, porque era outro tempo, apesar de ser recente. O futebol evolui muito rápido, cada vez é mais difícil, cada vez mais complicado, e acredito que os dois times têm seu mérito.

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Daniel e o amigo Neymar: para ele, o camisa 11 será o herdeiro de Messi
Daniel e o amigo Neymar: para ele, o camisa 11 será o herdeiro de Messi

ESPN.com.br - O Neymar vai ser o melhor jogador do mundo?

Daniel Alves - Espero que sim! E só depende dele... Depende da vontade dele, do querer dele, afinal estamos falando, na minha opinião, do jogador que vai suprir o Messi, quando o Messi não estiver mais aqui.

ESPN.com.br - Seleção brasileira: você ainda sonha ou acha que "foi legal, mas já passou"?

Daniel Alves - Eu pretendo seguir jogando futebol, desfrutando do futebol, da minha maneira, do meu jeito de ser, de entender, de me comportar... E que as coisas venham em consequência disso. Eu acredito que vivi coisas maravilhosas na seleção brasileira, vivi coisas desagradáveis também, e acho que a seleção nunca vai deixar de existir pra mim enquanto eu jogar futebol e defender essa profissão. O sonho segue existindo e continuará existindo porque a minha vontade de me superar é maior do que qualquer coisa que tenha acontecido, tanto pra bem quanto pra não tão bem. Enquanto eu for jogador de futebol eu vou ficar na expectativa de um dia voltar a ter oportunidade. E também se eu não tiver, obrigado aos que fizeram possível a realização deste sonho.

ESPN.com.br - Entre as coisas desagradáveis está a Copa do Mundo de 2014?

Daniel Alves - Não. A Copa do Mundo não foi desagradável pra mim, não. Na minha maneira de entender, o final da Copa do Mundo pra gente foi drástico, foi doloroso... E eu não aceito que ninguém fale, que ninguém critique, que ninguém tenha opinião sobre isso. Porque só quem viveu pode falar, pode sofrer ou não sofrer. O resto vai opinar sempre à distância. Não adianta vir falar que "o Brasil sofreu"... Quem mais sofreu fomos nós mesmos [jogadores]. Eu sempre vou debater e defender que a Copa do Mundo foi maravilhosa até o nosso final. O nosso final acho que foi bastante pior do que imaginávamos.

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Lateral atendeu a reportagem um dia após o clássico
Lateral atendeu a reportagem um dia após o clássico

ESPN.com.br - Você acha que sofreu mais no banco durante os 7 a 1, ou se estivesse jogando a dor seria igual?

Daniel Alves - Pra mim dá no mesmo. Quando você faz parte de um grupo, se o grupo perde você sofre, e se o grupo ganha você está feliz. É evidente que, se você pode estar presente na primeira linha, é muito melhor do que estar na segunda linha. Mas a dor é igual porque a gente era uma família, e uma família sofre se acontece alguma coisa comigo ou com um companheiro. O sentimento de perda, de dor, é o mesmo, e é uma pena que tenha acontecido isso. Mas eu acho que a gente comprou uma briga que a gente não deveria.

ESPN.com.br - Que briga foi essa?

Daniel Alves - Acho que a gente queria sanar as coisas do nosso país com uma Copa do Mundo, acho que isso não era o melhor caminho. A gente tinha que competir por nós mesmos, pelas pessoas que queriam aquilo, e evidentemente competir pelos brasileiros, afinal a gente estava ali representando a nossa nação. Mas não podíamos achar que a nossa conquista iria sanar os nossos problemas, porque nossos problemas vão além do futebol, de uma Copa do Mundo. Acho que uma Copa do Mundo seria tentar tapar o sol com a peneira. Mas, enfim... Infelizmente a gente teve de viver essa situação desde a nossa posição, de jogador, mas que tudo sirva como aprendizado. E eu serei sempre defensor de que a revolução nunca vai ser o remédio.

ESPN.com.br - Em toda a história do futebol, você é um dos jogadores que mais vezes venceu o Real Madrid. Voltando no tempo, o garoto lá de Juazeiro imaginava que poderia chegar nesse ponto algum dia?

Daniel Alves - Eu acho que o brilho de tudo isso, da minha carreira - e eu tive sorte de encontrar muita gente que me ajudou - , é que eu jogo futebol porque eu amo, e não porque estou preocupado em bater recordes ou em conseguir um monte de títulos, ou conseguir sem bem sucedido financeiramente... Eu jogo futebol porque eu amo, e esse prazer que eu tenho de jogar futebol, de amar a minha profissão, de tentar defender que é uma profissão normal, como outra qualquer... Eu acho que isso faz com que, cada dia mais, esse livro, essa história vá tendo uma página mais bonita, mais brilhante, e espero continuar colocando mais páginas neste livro e nesta história. As pessoas que mais amo são meus pais, e tenho certeza de que eles estão muito orgulhosos no filho que têm e do profissional que eles conseguiram apresentar para o futebol.

ESPN.com.br - Mas ganhar 14 vezes do Real Madrid é um número legal...

Daniel Alves - (Risos) É legal! E é especial, porque é um clássico do futebol mundial, e é legal ir acumulando essas coisas positivas, porque daí vai ser difícil me superarem (risos). Quanto mais puder ampliar essa marca, mais difícil será para os outros baterem.

ESPN.com.br - Se você pudesse responder em uma palavra só: você quer ficar no Barcelona na próxima temporada?

Daniel Alves - Ah, é um assunto que eu não estou querendo falar muito... Na vida a gente tem momentos em que deve fazer mais do que falar, e eu estou nesse momento.

ESPN.com.br - Em algum momento, nem que seja por um segundo do seu dia, você pensa em voltar pro futebol brasileiro?

Daniel Alves - (Suspira) Eu nunca falo nunca. E acho que na vida a gente nunca deve falar nunca. Mas acredito que, neste momento, como está o futebol brasileiro, é um pouco complicado. É um pouco difícil, mas eu nunca falo nunca, sempre espero que as coisas melhorem, não só em nível futebolístico como social, político também. Espero que essa melhora faça com que a nossa cabeça mude com respeito a isso, quem sabe um dia eu possa voltar. Eu tenho um sonho, e esse sonho tenho certeza que vou cumprir, que é encerrar minha carreira onde eu comecei, no Bahia, e tenho certeza que isso vai acontecer. Em quanto tempo eu não sei, mas que isso vai acontecer eu acredito que sim.

ESPN.com.br - Achei que você fosse falar de outro tricolor...

Daniel Alves - Eu já falei, em várias oportunidades, que são os dois clubes que eu amo no Brasil: o São Paulo, porque meu pai me fez são-paulino, apesar de ele ser palmeirense; e o Bahia, porque joguei no Bahia e vivi coisas maravilhosas lá. Isso fez com que esses dois tricolores façam parte do meu coração e tenham um cantinho guardado. Não é algo que eu falo "vou voltar pro Brasil e jogar nesses times", mas seria interessante porque são times que eu gosto. Acho que o Brasil tem infinitos times grandes também, mas sem dúvida nenhuma esses destacariam por cima dos demais porque são os times que eu amo no Brasil. 

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Daniel Alves ficou no banco na derrota para a Alemanha, por 7 a 1
Daniel Alves ficou no banco na derrota para a Alemanha, por 7 a 1
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