Lado B das Olimpíadas: Atleta e dirigente, Major peitou Getúlio, Maluf e ditadura

Antônio Strini, do ESPN.com.br

A partir desta terça-feira até a véspera dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro de 2016, o ESPN.com.br trará quinzenalmente o quadro Lado B das Olimpíadas, com histórias que vão muito além do esporte. Personagens históricos dentro e fora das competições, eventos que marcaram época. Em sua primeira edição, o Lado B das Olimpíadas contará a história de Sylvio de Magalhães Padilha. Atleta de duas Olimpíadas - e só não foram mais por causa da II Guerra Mundial -, o Major reformado se tornou dirigente cedo, bateu de frente com Getúlio Vargas e seu Estado Novo, ajudou 'comunistas' na ditadura militar e ainda vetou proposta de Paulo Maluf para São Paulo ser sede dos Jogos em 1988.

Divulgação
Sylvio de Magalhães Padilha recebe a bandeira do Brasil antes dos Jogos de Berlim-1936
Sylvio de Magalhães Padilha recebe a bandeira do Brasil antes dos Jogos de Berlim-1936

Ato Institucional 1, 9 de abril de 1964.

O comando militar que nove dias antes destituira o então presidente da República, João Goulart, faz a sua primeira lista de pessoas que teriam os mandatos cassados e os direitos políticos suspensos por serem "contra o país". Rogê Ferreira, deputado federal pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB), foi um dos nomes desse rol. Escondido em Brasília, ele procurou ajuda para retornar a São Paulo sem ser preso ou vítima de violência por parte no novo regime.

Recém-eleito presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), o major reformado Sylvio de Magalhães Padilha conhecia Rogê Ferreira, dirigente do Corinthians, dos tempos de diretor do departamento de esportes do estado de São Paulo.

Sem dar as costas para o amigo, Major Padilha foi a única pessoa a recebê-lo e, por consequência, dar-lhe segurança no aeroporto. Em solidariedade a Rogê, ele deixou seu cargo no Conselho Nacional de Desportos (CND) - do qual era mandatário havia apenas um ano pelas mãos de Jango -, apesar do pedido para que continuasse feito pelo novo presidente do Brasil, Castelo Branco.

Sylvio de Magalhães Padilha demonstrou, assim, como era fiel a suas amizades e que não compactuava com aquilo que considerasse contra o interesse esportivo. Um viés crítico que já despontava desde a época de atleta.

O atletismo

Arquivo Pessoal
Sylvio de Magalhães Padilha na final dos 400m com barreiras no Sul-Americano de 1939 em Lima, no Peru
Sylvio na final dos 400m com barreiras no Sul-Americano de 1939 em Lima, no Peru

Nascido em 1909, o natural de Niterói (RJ) entrou no esporte por acaso: ele tinha um amigo que fazia atletismo no América, e um técnico se impressionou com sua altura (quase 1,90m), convidando-o para treinar. Primeiramente Sylvio praticou salto em altura até ir para o Fluminense, clube com mais estrutura. Lá, aos 18 anos, se especializou nas provas de pista e se tornou recordista brasileiro dos 100m rasos. Porém, foi nas corridas com barreiras que se consagrou - 110m e 400m.

Recordista sul-americano nas duas distâncias, ele conseguiu índice para disputar os Jogos Olímpicos de Los Angeles de 1932. No entanto, o jovem atleta embarcou com a perna quebrada por causa de um acidente de cavalo e tirou o gesso no navio, mas não foi capaz de se classificar para as finais. Em seu diário de bordo, críticas à organização da viagem e aos dirigentes, conforme relatado pelo jornalista Caetano Carlos Paioli no livro "Padilha, quase uma lenda".

Gazeta Press
Destaque no jornal A Gazeta sobre Sylvio de Magalhães Padilha na final em Berlim-1936
Destaque no jornal A Gazeta sobre Sylvio de Magalhães Padilha na final em Berlim-1936

Quatro anos depois, em Berlim, Sylvio se redimiu. Inscrito apenas nos 400m com barreiras, ele se tornou o primeiro brasileiro a ser finalista olímpico em atletismo com direito a quebra de de recorde sul-americano na semifinal. Um episódio ajudou a motivá-lo.

Antes de entrar na pista para a semifinal, ainda no aquecimento, o técnico do clube paulistano Espéria, o austríaco Emmannuel Matula, ouviu algumas frases de József Kovács, húngaro e campeão europeu da distância. "Eu sou campeão europeu, já estou na final. Vou competir até contra um que veio de país de macacos", disssera. Kovács, porém, ficou em quarto em sua bateria, logo atrás de Padilha, e não foi à final.

Na decisão, Sylvio terminou em quinto lugar. O nervosismo antes da final, porém, era tão grande que o brasileiro esqueceu de vestir o calção, tendo percebido isso apenas quanto tirou o agasalho para alinhar em sua raia.

Aquela que seria a Olimpíada para Padilha, em 1940, em Tóquio, não aconteceu por causa da Segunda Guerra Mundial. Afinal, dos quatro atletas que ficaram a sua frente em Berlim quatro anos antes, um havia se aposentado (Glenn Hardin) e dois morreram em combate - Miguel White e Joseph H. Patterson. Sua carreira como atleta acabou em 1947, mas ainda como um dos principais esportistas do país ao lado da nadadora Maria Lenk.

Militar, dirigente e inimigo de GV

Sylvio era filho de João Avelino, militar, capitão da Marinha e campeão brasileiro de esgrima (florete). A mãe, dona Thereza, morreu quando ele tinha apenas nove anos, e o pai decidiu colocá-lo em uma escola militar. Ele se casou com 18 anos com Ivone, cujo pai era almirante e o instigou a prestar concurso para entrar no colégio militar. Padilha, então, se formou em 1932 no Realengo e depois foi transferido para São Paulo.

Conciliando a carreira como atleta, o capitão Sylvio foi convidado pelo então interventor do estado, Adhemar de Barros, para comandar a recém-criada Diretoria de Esportes. Com a ideia de massificar o esporte, construiu os primeiros centros esportivos e poliesportivos como o Baby Barioni, na Água Branca, e o Constantino Vaz Guimarães, no Ibirapuera. Além disso, criou uma lei estadual que regulamentou a atividade esportiva e a profissão do professor de educação física.

Ditador do Estado Novo, Getúlio Vargas aproveitou a onda para também criar leis a nível federal de regulamentação do esporte, mas aos seus moldes, com confederações e entidades esportivas atreladas ao Estado. Sylvio critica a iniciativa, e o então presidente o transfere de São Paulo para Passo Fundo (RS) como represália, ficando em um local sem água quente e luz elétrica. Ele marca uma audiência com o então ministro da Guerra, Eurico Gaspar Dutra, para se entregar à prisão, pois desobedecia Getúlio. Dutra pediu que ele tirasse um ano de licença não-remunerada, e pouco depois ele deixou a carreira militar como Major em 1940.

Além disso, deixou o Conselho Nacional de Desportos feito pelo presidente do Brasil. "Não querendo ser conivente neste desmoronamento, e tendo a certeza de que a ação do Conselho Nacional de Desportos tem sido tão somente para embaraçar o desenvolvimento esportivo de São Paulo, tudo o que possuímos de organização e progresso foi que, não sem muito esperar, resolvi solicitar minha demissão e, comigo, meus companheiros de trabalho", escreveu em sua renúncia.

As brigas com GV, porém, continuaram. Após a Segunda Guerra, como diretor de Esportes de SP, Sylvio convidou os "peixes voadores", como eram conhecidos os melhores nadadores do mundo, a virem ao Brasil para fazer uma demonstração pelo estado. O detalhe: eles eram do Japão, que era tido como país proibido, sem relações diplomáticas com o mundo por causa das consequências da guerra.

Getúlio Vargas quis vetar a ideia. O major Padilha, porém, peitou o presidente e disse que essa era uma "questão estadual, não federal. Eles não vêm em missão política, são atletas". Após o desembarque do grupo, contudo, o presidente cobrou que as apresentações acontecessem sem hino e bandeira do Japão. Sylvio voltou a peitá-lo e antes de todos os eventos acontecia a homenagem aos japoneses. Uma dessas visitas, em Marília, despertou o interesse de Tetsuo Okamoto: ele tomou gosto pela natação e se tornou o primeiro medalhista olímpico brasileiro nesse esporte.

Pan e COB

Gazeta Press
Sylvio de Magalhães Padilha (1º à esq.) em frente à Vila dos Atletas para o Pan-1963 de São Paulo
Major Padilha (1º à esq.) em frente à Vila dos Atletas para o Pan-1963 de São Paulo

Sua atuação como dirigente esportivo (criou por exemplo os Jogos Regionais e Jogos Abertos do Interior) lhe rende a chefia da organização dos Jogos Pan-Americanos de São Paulo em 1963. Aproveitando as instalações já existentes, Sylvio de Magalhães Padilha realiza apenas uma obra: a Vila dos Atletas, o hoje Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo (Crusp).

Já membro do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) desde 1947, assume a presidência na eleição do final de 1963. Além disso, com a morte do ex-presidente José Ferreira Santos, é indicado a vaga no Comitê Olímpico Internacional (COI).

Como relatado no começo desta reportagem, sua relação com a ditadura militar instaurada um ano depois era distante. "Ele não seguia a linha política. E, afinal, quem concorda com torturas?", questiona seu neto Alberto Murray ao ESPN.com.br. "É hipócrita dizer que ele não conhecia esse pessoal que estava no poder; eram militares, alguns até formados com ele. Meu avô sempre fez questão de manter equidistância. Discordava da maneira como as coisas eram levadas".

Além do caso de Rogê Ferreira, Sylvio de Magalhães Padilha também ajudou outro considerado "subversivo" pelos militares: Waldemar Zumbano, irmão de Ralph e tio do campeão mundial Éder Jofre, lendas do boxe nacional. Filiado ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), Waldemar era amigo do Major, que o ajudou a ser tirado da prisão nas vezes em que fora detido.

Em um causo emblemático, a delegação brasileira, composta por mais de 200 pessoas, estava no aeroporto pronta para embarcar aos Jogos Olímpicos de Tóquio poucos meses após o golpe militar. Então, um oficial apareceu pronto para prender Waldemar Zumbano - membro da equipe de boxe - por ser filiado ao "Partidão".

Sylvio, então, repreende o militar e lhe lança um desafio: "Você, solte ele já ou então vou falar para todos aqui voltarem a suas casas e diremos que o Brasil não vai à Olimpíada por tua causa". A pressão funcionou, e todos viajaram ao Japão.

Gazeta Press
Sylvio de Magalhães Padilha, que confere medalha a Rosa Branca, foi presidente do COB durante 27 anos
Sylvio de Magalhães Padilha e Rosa Branca: presidente do COB durante 27 anos

O Major Padilha esteve à frente do COB em sete Olimpíadas, de 1964 a 1988. Nos Jogos de Munique-1972, ele estava presente como membro do COI quando 11 integrantes da equipe olímpica de Israel foram tomados como reféns pelo grupo terrorista palestino Setembro Negro. Nas negociações - que acabaram fracassadas -, ele e outros dirigentes do comitê internacional chegaram a se oferecer em troca dos reféns.

Oito anos depois, durante a Guerra Fria entre Estados Unidos e a então União Soviética, o presidente do país-norte americano, Jimmy Carter, quis promover o boicote mundial à Olimpíada de Moscou. As discussões foram fortes em 1979 e 1980, mas Sylvio manteve-se impassível em sua posição: o Brasil levaria delegação para os Jogos.

"Política e esporte são coisas que não devem ser misturadas. Sou frontalmente contrário ao boicote. Quando fomos eleitos (para o COI), prestamos o juramento de jamais adotarmos discriminações religiosas, políticas, raciais, filosóficas ou qualquer outra, contra países e pessoas", afirmou em nota o presidente do COB.

"Temos que encontrar um campo comum nos Jogos, onde a paz e a consideração fraternal possam existir entre os jovens deste mundo. O Nacionalismo exagerado nos esportes deve ser condenado pelas suas consequências", continuou.

Padilha também foi contra o projeto de lançar São Paulo como candidata a sede dos Jogos Olímpicos de 1988. O então governador biônico, Paulo Maluf, foi o principal defensor da ideia, mas para isso precisava do apoio do COB.

"É uma enorme responsabilidade, porque qualquer problema só trará desprestígio para o COB, que será o responsável por tudo que acontecer. Além disso, é necessário que se tenha a prévia autorização do presidente da República. Também é imprescindível que o sucessor do governador Paulo Maluf garanta tal investimento, que me parece ser excessivo para um país como o Brasil, que tem muitos outros problemas para resolver", disse o presidente do comitê nacional por 27 anos (1963 a 1990).

Presidente do COI?

Arquivo Pessoal
Presidente do COB, Sylvio de Magalhães Padilha, em evento da Federação Paulista de Tênis (FPT)
Sylvio de Magalhães Padilha em evento da Federação Paulista de Tênis (FPT)

Alberto Murray revela que o avô sempre disse que não aspirava ser presidente do Comitê Olímpico Internacional. No entanto, ele acredita que houve um espaço de tempo cercado de coincidências que quase o fizeram comandar o COI.

"Ele se tornou primeiro vice-presidente do COI em 1979, e no ano seguinte teria a eleição. Havia no seio do COI mudar o viés europeu, anglo-saxão, para algo mais latino. Meu avô teve todos os apoios, era o candidato natural, e seu mandato à frente do COB acabaria em 1979, ficando livre para isso. (João) Havelange (presidente da Fifa) também o apoiava. Eu me lembro de Havelange folheando uma revista que tinha o nome de todos os membros do COI e riscando os nomes de quem votaria nele. Na fila, ele vinha à frente do (Juan Antonio) Samaranch. Seria eleito se quisesse".

"Ele sempre disse que não queria. Em 1979, prestes a acabar seu mandato no COB, ele me disse: ‘Para mim, deu. Esse ano eu largo'. As coisas estavam ligadas, juntando essas peças. Mas então houve uma reunião muita controversa no COB, e (Carlos Arthur) Nuzman surgiu como candidato", cita Murray.

Nuzman era o presidente da CBV e favorito na eleição, e apenas o Major Padilha poderia derrotá-lo, pois "ele já sabia quais eram seus propósitos", afirmou Alberto Murray Neto, ex-membro do COB e opositor de Carlos Arthur Nuzman, presidente da entidade olímpica brasileira desde 1995.

E assim foi: Major Padilha se reelegeu e ficou até 1990. Um ano antes, sofreu um derrame cerebral e se afastou como dirigente esportivo. Presidente de honra do COB, Sylvio de Magalhães Padilha morreu em 2002 aos 93 anos.

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