Como a Palestina deu, na Copa da Ásia, um 'tapa político na cara' da Austrália

Jean Pereira Santos, de São Paulo (SP)*
Getty Images
Copa da Ásia Japão Palestina Torcedora Bandeira 12/01/15
Torcedora exibe bandeira da Palestina na Austrália, que não reconhece a mesma como país

Na bola, a Palestina foi goleada por 4 a 0 pelo Japão em sua estreia na Copa da Ásia, na última segunda-feira; já no campo, gramado e político, o país deu um verdadeiro 'tapa na cara' da Austrália, sede da competição e que no apagar das luzes de 2014 votou contra a resolução que, via Organização das Nações Unidas (ONU), tinha como objetivo a criação de um Estado palestino próprio, sem as limitações impostas por Israel.

A proposta, submetida por uma coalizão árabe liderada pela Jordânia e debatida pelo Conselho de Segurança da ONU no dia 30 de dezembro de 2014, teve oito votos a favor, mas precisava de nove e nenhum veto dos membros permanentes (China, Estados Unidos, França, Reino Unido e Rússia) para ser aprovada.

Como já era esperado, os norte-americanos posicionaram-se contra, o que já vetaria a resolução; mas o que chamou a atenção mesmo foi o outro voto contrário, da Austrália. 

Exatos 13 dias depois, a nação da Oceania, que no 'mapa' da Fifa pertence à Ásia, teve que engolir a 'resposta'. Em pleno seu território, no Newcastle Stadium, em Newcastle, a Palestina teve, por meio de sua seleção masculina de futebol, sua bandeira hasteada e seu hino executado, o que repetiu-se nesta sexta-feira, antes da derrota por 5 a 1 para a Jordânia, agora em Melbourne.     

O ESPN.com.br procurou a Embaixada da Austrália no Brasil para falar sobre o assunto, mas o vice-embaixador, Quinton Devlin, que substitui o titular, Patrick Lawless, em férias, solicitou que as três perguntas fossem enviadas ao Departamento de Relações Exteriores e Comércio do país. 

As perguntas foram:

1 - Por que a Austrália votou, no final de 2014, contra a resolução que criaria via ONU um estado proprio da Palestina?

2 - Como a Austrália não reconhece a Palestina como país, mas permite a participação da mesma na Copa da Ásia, a qual sedia?

3 - Ter a bandeira hasteada e o hino da Palestina tocado em seu território não configura um problema ou, no mínimo, um incômodo diplomático para a Austrália?

Desta vez as respostas vieram. E em forma de 'saia justa', afinal, o governo australiano jogou toda a responsabilidade da participação da Palestina, a qual o mesmo não reconhece como nação, sobre a Confederação Asiática de Futebol (AFC, na sigla em inglês). 

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Copa da Ásia Japão Palestina Equipe Alinhada Hino Nacional 12/01/15
Seleção palestina, com hino executado em Newcastle

"O torneio da Confederação Asiática de Futebol (AFC) é organizado pelo Comitê de Organização Local, afiliado à AFC, não pelo governo australiano", diz uma parte do e-mail respondido pela área de comunicação do Departamento de Relações Exteriores e Comércio da Austrália.    

"A Palestina é membro da AFC, e a decisão de permitir que ela participe da Copa da Ásia [na Austrália] é uma questão da AFC; acrescentamos que a decisão de permitir que a Palestina tivesse sua bandeira hasteada e seu hino executado nos jogos [dentro do território australiano] também é um assunto da AFC", diz a outra parte.

Para responder à pergunta 1, foi enviado à reportagem do ESPN.com.br um link com o comunicado oficial do governo australiano emitido no próprio dia 30 de dezembro de 2014, data da votação da resolução na ONU. Entre outras coisas, o texto, assinado pelo embaixador e representante permanente da Austrália nas Nações Unidas, Gary Quinlan, diz:

"A Austrália continua empenhada em um futuro no qual Israel e um Estado palestino possam existir lado a lado em paz e segurança... Lamentavelmente, o projeto de resolução apreciado hoje não vai ajudar neste processo e é por isso que votamos contra ele. Falta-lhe equilíbrio, e ele tenta impor uma solução apresentada apenas por um lado... Um processo acordado por ambas as partes é o único caminho a seguir para se alcançar um acordo duradouro."

"Ver a bandeira da Palestina exibida dentro da Austrália, que não nos reconhece como país, é mais do que um gol", afirmou o diretor técnico da seleção palestina, Husam Younis, em entrevista à "Folha de S. Paulo" publicada no último dia 12.

Entenda o conflito Israel x Palestina

O território atualmente disputado por Israel e Palestina esteve sob domínio de assírios, babilônios, persas, macedônios e romanos ao longo da história. Ao término da I Guerra Mundial, em 1918, com o final do Império Otomano, o Reino Unido foi designado para comandar o território, submetendo-se a pressão de israelenses e palestinos pela área.

A perseguição a judeus na Europa durante a II Guerra Mundial acelerou o processo pela formação de um Estado Judaico, e Israel foi fundado em 1948 sob argumentos bíblicos e históricos, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU).

Também contemplados com um próprio país, os palestinos não aceitaram a partilha feita pela ONU. Insatisfeitos, Egito, Jordânia, Síria e Iraque, nações árabes da região, reagiram de imediato e invadiram o novo vizinho, Israel, dando início a uma série de conflitos que se estendem até hoje, transformando a configuração do território de tempos em tempos.

Atualmente, a Palestina, reconhecida como estado por quase 70% dos membros da Assembleia Geral da ONU (134 de 192), se limita à Faixa de Gaza, ao Sul do Mar Mediterrâneo e à Cisjordânia, próximo ao Mar Morto, regiões separadas por cerca de 45 quilômetros.

Além de reclamar a retomada da posse de Jerusalém Oriental - cidade sagrada para cristãos, judeus e muçulmanos, perdida em 1967 para Israel - como sua capital, os palestinos protestam contra os bloqueios impostos pelos israelenses à sua liberdade e à constante construção de assentamentos judaicos na Cisjordânia. 

*Com colaboração de Lucas Borges

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