Dadá Maravilha largou o crime após comparsa ser morto em assalto: 'A bola me salvou'

Francisco De Laurentiis, do ESPN.com.br, e Vladimir Bianchini, da Rádio ESPN
Gazeta Press
Dario Dadá Maravilha Entrevista 05/09/1972
O jovem Dadá Maravilha: infância difícil, com vida no crime e suicídio da mãe

Campeão da Copa do Mundo de 1970 com a seleção brasileira. Campeão do Brasileiro por Atlético-MG e Internacional. Campeão estadual por Flamengo, Sport, Goiás, Bahia e até pelo Nacional do Amazonas. Um dos maiores artilheiros da história do futebol brasileiro. Rápido, letal, implacável. Parava no ar igual beija-flor e helicóptero.

Tudo isso poderia nunca ter acontecido se, nos anos 60, Dario José dos Santos, o Dadá Maravilha, não tivesse dado a sorte de correr para o lado certo.

Sua vida nunca foi fácil. Aos cinco anos, viu sua mãe cometer suicídio em frente aos seus olhos. Atirou querosene no corpo e saiu correndo pela rua, com o filho atrás, desesperado para tentar, em vão, salvá-la das chamas.

Depois disso, a família se despedaçou. Seu pai não conseguia sustentar os três filhos, e colocou todos na Febem, a Fundação do Bem-Estar do Menor, onde, teoricamente, teriam comida, educação e uma vida feliz. Lá, porém, Dadá conheceu o mundo do crime, e resolveu tentar a sorte.

"Levava uma vida de bandido, marginal, roubando e fugindo do colégio. Fazia muitos assaltos", contou o ex-centroavante, em entrevista à Rádio ESPN.

Sua vida mudou no dia em que, por sorte, ele correu para o lado certo.

"Um dia, saí para um comparsa para roubar uma mercearia. Roubamos e saímos correndo em zigue-zague. O português [dono da mercearia] meteu um tiro e pegou no pescoço do meu parceiro, que caiu e morreu na hora. Eu consegui fugir. Mas, daquele dia em diante, fiquei com medo de roubar. Pensei: 'Tenho que fazer algo da minha vida'. Mas o que eu ia fazer? Não tinha nem completado a 8ª série...", recordou.

Aos 18 anos, encontrou pela primeira vez aquela que seria a salvadora de sua vida: a bola de futebol. Foi no exército brasileiro que ele teve contato com a redonda, já que teve a infância sacrificada pelas tragédias familiares.

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Dadá Maravilha era o típico centroavante 'rompedor'.
Dadá: ídolo atleticano

"Minhas peripécias foram até os 18 anos. Depois disso, virei homem do bem, um anjo!", garante.

Estava decidido: Dadá Maravilha seria jogador.

De "ruim de doer" ao Galo

"Fui passando de time em time, sendo dispensado por ruindade. Na 7ª vez que fui ao Campo Grande [clube da zona oeste do Rio de Janeiro], o técnico falou: 'Você é horroroso, mas tem velocidade e uma impulsão fenomenal'. E me contratou!", lembrou o atacante.

Aos 20 anos, veio a primeira chance como profissional: um Campo Grande x Bonsucesso, preliminar de um Fla-Flu no Maracanã lotado, pelo Campeonato Carioca. Dadá sabia que era sua chance de ouro para mostrar quem ele era para todo o Brasil.

"Matei à pau! Fiz três gols, acabei com o jogo. Ninguém da torcida sabia meu nome, gritavam: 'Dá pro 9, dá pro 9!' (risos). Eu corria demais, ninguém me pegava. No final, veio toda a imprensa falar comigo. Disse que queria ser jogador e ficar famoso, e aí começou todo mundo a rir de mim. Mas continuei ganhando chances e fazendo meus gols", salientou.

Para sua sorte, Jorge Ferreira, vice-presidente do Atlético-MG, estava no Maracanã naquele dia. Sua intenção era observar Carlinhos, do São Cristovão, que jogaria horas antes. No entanto, um torcedor embriagado o recomendou olhar com carinho para o número 9 do Campo Grande.

"Ele disse a um torcedor que tinha ido buscar um goleador no futebol carioca. O cara já tinha tomado todas a falou: 'O Carlinhos é craque, mas não é goleador. Goleador é o atacante do Campo Grande. Ele é ruim de doer, mas, quando joga a bola na frente, ninguém pega'. O Jorge Ferreira disse que o Atlético não contratava jogador ruim, mas resolver dar um chance", narrou.

E assim, em 1968, Dadá Maravilha assinou com o Atlético-MG, clube no qual iria se tornar um grande ídolo, com gols e títulos. Mas, como tudo em sua vida, não foi fácil.

Do Atlético ao tri no México

"Cheguei ao Atlético e fui assistir a um jogo no Mineirão, com 50 mil pessoas berrando 'Galo, Galo!'. Borrei nas calças (risos)! Pensei na hora: 'Não dá pra jogar aqui, essa torcida é muito louca. Vão querer me matar!', contou Dadá.

FERNANDO DANTAS/Gazeta Press
Dario Dadá Maravilha Granja Comary Treino Seleção Brasileira 08/06/2014
'Sem a bola, eu estaria morto', diz Dadá Maravilha

Em seu primeiro jogo, segundo sua memória, o centroavante jogou apenas 10 minutos. No outro, não durou nem três minutos em campo: após cair duas vezes em cima da bola, foi substituído. Ficou um ano e meio no banco, esperando uma chance. Ela veio em um amistoso contra a seleção da União Soviética, em 1969. O atacante não desperdiçou.

"Quando saiu a escalação do Atlético, falaram 'Dario, número 9'. O Mineirão deu uma vaia danada! Eu entrei chorando, mas arrebentei, fiz dois gols. O beque central deles já tinha marcado o Pelé em um jogo, perguntaram como ele tinha conseguido parar o Rei, mas não eu. Ele respondeu: 'O Pelé é um ser humano comum, esse cara é de outro planeta! Olha o tanto que ele corre e pula! Vai ser um dos melhores do mundo'. Foi o primeiro elogio que ganhei na vida", sorriu o "Maravilha".

A fase era espetacular. Em um amistoso do Atlético-MG contra a seleção brasileira, o "Galo" venceu por 2 a 1, com mais um gol do atacante, que não parava de colocar bolas na rede. Não à toa, os brasileiros começaram a pedir Dadá na seleção. No entanto, o futebol de pouca técnica não encantava o técnico da seleção, João Saldanha.

"Falavam: 'Todo mundo quer Dadá, até o presidente [Emílio Garrastazu] Médici'. Aí o Saldanha, que era comunista, soltou a famosa frase: 'Ele escala o ministério, eu escalo a seleção'. Não à toa, entrou o Zagallo depois, que me chamou. O Saldanha foi na TV e falou que eu só tinha sido convocado por causa do presidente, e seria cortado. Eu rebati: 'Saldanha, você está gagá, velho, não entende porra nenhuma! Quem vai pra Copa é Dadá e mais 21'", contou o ex-jogador, aos risos.

De fato, Dadá foi ao Mundial do México, no qual vestiu a camisa 20. Acabou não tendo chances, já que havia pouco espaço para ele no famoso ataque formado por Pelé, Rivellino, Tostão e Jairzinho.

"Eu estava voando, era artilheiro de tudo, batia recordes! Não tive chance na Copa, porque brigar com Pelé e Tostão não dava. Mas não fiquei chateado, não. Tanto é que, no ano seguinte, lá estava o Dadá fazendo o gol do título brasileiro do Atlético em cima do Botafogo", lembrou.

No entanto, sempre que se lembra de tudo o que aconteceu de bom em sua vida, Dario se recorda do dia em que o assalto à mercearia quase acabou com sua vida em plena adolescência. Emocionado, agradece à bola, companheira de tantos anos, por tê-lo tirado do crime e evitado mais uma tragédia.

"A bola salvou a vida de Dadá. Se não fosse ela, eu estaria morto!".

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