Ex-seleção já colocou Fábregas no bolso em final de Mundial e tomou susto com Al-Qaeda

Francisco De Laurentiis, do ESPN.com.br, e Vladimir Bianchini, da Rádio ESPN
MARKKU ULANDER/AFP/Getty Images
Juliano Comemora Título Mundial Sub-17 Brasil Espanha 30/08/2003
Juliano Mineiro (dir) é um dos heróis esquecidos do Mundial sub-17 de 2003

Em 2003, o Brasil foi campeão do Mundial sub-17 em cima da fortíssima Espanha, que tinha jogadores como David Silva (hoje no Manchester City) e Fábregas (do Chelsea) como titulares. Muitos dos heróis daquela seleção foram sendo esquecidos com o tempo, como os atacantes Abuda e Evandro Roncatto, além do zagueiro Leonardo, autor do gol do título brasileiro em Helsinki. Boa parte deles segue em atividade, tentando encontrar novamente o sucesso no mundo da bola.

É o caso do meia Juliano Mineiro, hoje com 28 anos. Grande promessa do Fluminense no início dos anos 2000, ele estava no elenco campeão do Mundial de 2003, inclusive colocando Fábregas e David Silva no bolso na final. Porém, nunca se firmou nas Laranjeiras, e passou por muitos clubes na sequência da carreira, como Náutico, Juventude, Bahia, Paraná Clube e Tombense, além do futebol português e árabe.

Hoje, Juliano - que apesar de ter Mineiro como sobrenome, é carioca - joga no Chonburi FC da Tailândia, clube que o contratou após passagem pelo Paraná Clube. E gosta.

"Foi uma surpresa, porque nunca tinha ouvido falar do campeonato na Tailândia. Estava no Paraná jogando a Série B e meu irmão me falou da proposta. Estava sem receber e a situação estava complicada. Vi que lá na Tailândia os clubes pagavam em dia e decidi aceitar", contou, em entrevista à Rádio ESPN.

"O campeonato é organizado, a torcida comparece em peso, os estádios são novos. Tudo me surpreendeu demais! Quem vai para lá não quer mais voltar, porque é um país muito tranquilo e a qualidade de vida é ótima", acrescentou.

No país asiático, virou fã do boxe tailandês, esporte favorito da população local, e inimigo das comidas fortemente apimentadas, que já o fizeram lacrimejar incontáveis vezes. Outro fator que lhe agrada: os clube da Tailândia não obrigam os jogadores a se concentrarem, e, portanto, o tempo que Juliano tem para passar com a família é muito maior do que quando jogava no futebol brasileiro.

"Aqui não tem concentração, é muito diferente, ficamos com a família até o dia do jogo. Estou gostando muito disso! Além disso, a torcida te aplaude todo jogo, mesmo ganhando ou perdendo. Até mesmo a torcida adversária te aplaude", observou.

Segundo o ex-Fluminense, o Campeonato Tailandês está em franca ascensão, e em breve irá se tornar uma das maiores ligas da Ásia.

"As grandes empresas do país estão entrando com tudo no futebol e investindo dinheiro forte. Até o Avram Grant, ex- técnico do Chelsea, está comandando uma equipe aqui. Lembra dele?", questionou.

O Mundial sub-17

Daquele distante Mundial sub-17, em 2003, Juliano Mineiro lembra-se com riqueza de detalhes de duas grandes partidas: o massacre por 5 a 0 em cima de Portugal, na fase de grupos, e a vitória por 1 a 0 sobre a "favoritaça" Espanha, na decisão.

JUSSI NUKARI/AFP/Getty Images
Brasil Comemora Título Mundial Sub-17 Espanha 30/08/2003
Brasileiros celebram a vitória sobre a Espanha

"Aquela seleção tinha muitos caras bons, como o Arouca, que foi criado comigo em Xerém [base do Fluminense], o [lateral direito] Jonathan, que hoje está na Inter de Milão, o [zagueiro] Leonardo, ex-Santos, o Éderson, meia da Lazio, o [atacante] Abuda, o [atacante] Roncatto...", listou.

O grupo do Brasil na primeira fase tinha Portugal, Camarões e Iêmen. Apesar das más lembranças deixadas pelos camaroneses nos Jogos Olímpicos de Sydney, três anos antes, quando os africanos marcaram o famoso gol de ouro, a rivalidade mesmo foi com os lusos, que não se deram bem com os brasileiros.

"A grande rivalidade foi contra Portugal, que tinha o João Moutinho e o Miguel Veloso. Eles estavam se achando e com raiva da gente, não sei por que. Enfiamos 5 a 0 neles (risos)! Mas foi estranho, porque somos de países irmãos, e no hotel eles não queriam se misturar com a gente", lembrou.

Após avançar em primeira, a seleção passou por Estados Unidos nas quartas e pela Colômbia na semi antes da final contra a temida Espanha. Fábregas e David Silva foram titulares, mas não puderam fazer nada quando, aos sete minutos do primeiro tempo, o zagueiro Leonardo aproveitou rebote de uma bola na trave e estufou as redes do goleiro Mandaluniz.

"Foi uma partida dificílima, lembro desse jogo até hoje. Pode ver que praticamente todos os caras da Espanha que atuaram nesse dia depois acabariam chegando à seleção principal. Vou ser sincero: a verdade é que achamos um gol e seguramos o 1 a 0, porque o time deles era muito forte. Mas a gente era bom também, e tivemos muita raça", recordou.

JUSSI NUKARI/AFP/Getty Images
Fabregas Premios Espanha Mundial Sub-17 Final 30/08/2003
Fábregas desolado após a derrota na final

Enquanto Juliano Mineiro e seus companheiros comemoravam com o troféu de campeão, restou a Fábregas, desolado, receber das mãos de Joseph Blatter os prêmios de melhor jogador do torneio e também a chuteira de ouro, pelos cinco gols anotados na competição.

Al Qaeda na Arabia

Entre 2010 e 2011, o brasileiro jogou pelo Najran, da Arábia Saudita. A cidade fica na fronteira com o Iêmen, em uma região na qual a organização fundamentalista islâmica Al-Qaeda costuma atuar e recrutar novos membros. Enquanto estava se aventurando por lá, Juliano foi vítima de uma terrível pegadinha dos colegas de time.

"Lá não tinha nada pra fazer, só ia do apartamento para o treino. Nesta época havia muito problema com terroristas, por causa do 11 de setembro. Certo dia, durante um treino, eu não queria fazer uma atividade e os jogadores falaram que ia chamar o pessoal a Al-Qaeda para falar comigo. Eles falaram tão sério que eu fiquei morrendo de medo e acreditei!", contou o atleta.

"Lógico que era brincadeira deles, mas o senso de humor é muito diferente do nosso. Eles combinaram todos antes e me pegaram na piada, eu fiquei morrendo de medo! Foi engraçado depois, mas na hora... (risos)", completa Mineiro, que hoje ri do causo.

Apesar de ter feito sucesso no futebol local, além de um bom pé-de-meia, o ex-Fluminense não guarda boas recordações da Arábia Saudita, principalmente porque frequentemente pagava mico por causa dos diferentes costumes da religião islâmica.

Divulgação/Chonburi FC
Juliano Mineiro Chonburi FC Tailândia
Juliano Mineiro no Chonburi, da Tailândia

"Lá é um país muito triste, as pessoas não sorriem. Eu ficava com medo de fazer algo errado sem querer. Teve uma vez que mostrei a sola do pé, e lá é uma ofensa, como se estivesse menosprezando a pessoa. Deitei no banco do ônibus para descansar, o meu pé ficou perto do meu companheiro de clube e dormi. Acordei com ele socando meu pé, revoltado. A sola estava longe, mas estava mostrando para ele. Depois me explicaram que não podia fazer isso (risos). Quando cai comida no chão, você também não pode chutar nem afastar, é proibido. São situações que você só aprende depois que desrespeita!", salientou.

Mas antes levar um tapa na sola do pé do que ter que conversar com a Al-Qaeda...

Comentários

Ex-seleção já colocou Fábregas no bolso em final de Mundial e tomou susto com Al-Qaeda

COMENTÁRIOS

Use a Conta do Facebook para adicionar um comentário no Facebook Termos de usoe Politica de Privacidade. Seu nome no Facebook, foto e outras informações que você tornou públicas no Facebook aparecerão em seu cometário e poderão ser usadas em uma das plataformas da ESPN. Saiba Mais.