Cocaína e joelho levaram brasileiro da Champions à várzea

Francisco De Laurentiis, do ESPN.com.br, e Vladimir Bianchini, da Rádio ESPN
VI Images via Getty Images
Jonathan Reis PSV Eindhoven Holanda 05/11/2010
Jonathan Reis foi para o PSV com 17 anos. Hoje, aos 25, está jogando a várzea em Minas

13 de dezembro de 2007: Jonathan Jackson de Lima Reis vestiu seu uniforme alvirrubro do PSV Eindhoven, da Holanda, e subiu ao gramado para ouvir a música tema da Uefa Champions League. Do outro lado, estava a Inter de Milão de Julio Cesar, Maicon, Materazzi, Crespo, Zanetti e Ibrahimovic. Ele tinha 18 anos.

4 de janeiro de 2015: Jonathan Jackson de Lima Reis vestiu seu uniforme celeste do Brumadinho, da cidade homônima em Minas Gerais, e foi ao gramado do Campo do Frimisa enfrentar o Retiro pela Copa Itatiaia, mais tradicional torneio de várzea do Estado. Fez um gol e seu time ganhou por 2 a 0. Ele tem 25 anos.

Tudo aconteceu muito rápido na vida do atacante Jonathan Reis.

Nascido em Contagem, na grande BH, começou jogando no infantil do Atlético-MG, em 2005. Dois anos depois, foi para o Real Caeté, um time de empresários. Em 2007, ia completar 17 anos quando soube que o PSV tinha o contratado por 1,5 milhões de euros. Aos 18, estava jogando a Champions. Aos 25, está na várzea.

O que deu errado no caminho?

Foram duas coisas. A primeira foi o doping por cocaína, que o fez ficar internado por um período em uma clínica de reabilitação. A segunda foi uma lesão gravíssima no joelho, que ficou destruído. Ouviu dos médicos que dificilmente voltaria a jogar.

Mas voltou.

Dias de glória na Holanda

"Cheguei ao PSV com 16 para 17 anos de idade. Achei que ia passar um tempão na base, mas fiquei só um mês e fui chamado para o profissional. Nem acreditei! O Ronald Koeman, que hoje treina o Southampton [da Inglaterra], foi me buscar pessoalmente para assinar o contrato", contou Jonathan, em entrevista à Rádio ESPN.

No time principal da equipe de Eindhoven, atuou ao lado de brasileiros como os goleiros Gomes (ex-Cruzeiro) e Cássio (do Corinthians), o lateral Fagner (hoje no Corinthians) e os zagueiros Alex, Marcelo e Alcides, todos ex-Santos.

Dentre os gringos, gostava do futebol do meia Affelay, hoje emprestado pelo Barcelona ao Olympiacos, e do atacante peruano Farfán.

Quando viu, estava jogando contra a Inter de Milão no Phillips Stadium lotado, pela Liga dos Campeões 2007/08. Até hoje ele se lembra de quando ouviu o hino da Champions.

"Tinha o Ibrahimovic no time deles, imagina só (risos)! Eu tinha acabado de chegar ao time, fiquei muito feliz de ter entrado em campo. A música da Champions é sensacional, fico arrepiado só de lembrar. É emocionante demais lembrar que já joguei o campeonato mais importante do mundo, que é o sonho de todo atleta", recordou.

Ninguém podia deter Jonathan, que acabaria campeão da Eredivisie naquela temporada Seu objetivo era, assim como os lendários atacantes Romário e Ronaldo "Fenômeno", ser mais um brasileiro a ter sua foto na parede de glórias do clube.

E foi aí que tudo começou a dar errado.

Drogas e lesão no joelho

A cabeça do menino que deixou o Brasil com 16 anos para se aventurar na Europa não aguentou a fama repentina. Com o dinheiro, vieram as baladas, a bebida, as más companhias... Após sair de férias, em 2009, se reapresentou com cinco dias de atraso. O PSV achou que algo não ia bem, e pediu para que ele realizasse um exame toxicológico.

O exame deu positivo para cocaína.

Anoek De Groot/EuroFootball/Getty Images
Jonathan Reis PSV Vitesse Campeonato Holandês 31/10/2009
Jonathan: doping por cocaína no PSV

A equipe holandesa sugeriu que ele fosse internado em uma clínica de reabilitação na Escócia, mas o atacante não quis. Teve seu contrato rescindido.

Mas foi aí que Jonathan viu que estava jogando sua vida pela janela. Internou-se em uma clínica no interior de Minas, para se livrar de vez das drogas - além de cocaína, usava maconha. Em um mês e meio, apresentou ótimos resultados. O PSV resolveu que valia a pena apostar nele novamente, e recontratou o brasileiro.

"Eu era dependente químico, viciado em drogas, mas consegui me livrar. Foi a coisa mais difícil que já passei na vida, mas consegui me livrar de uma vez por todas. Só tenho que agradecer à minha família, meus amigos e meu empresário, que me ajudaram demais na hora da dificuldade. Tenho fé em Deus e não vou errar de novo", assegurou.

"Quando eu cheguei, estava jogando bem. Veio a fama, o dinheiro, e não tive estrutura para aguentar. Hoje, alerto: tem que tomar cuidado pra não deixar o sucesso subir à cabeça. Aparece um monte de gente que só quer saber do seu dinheiro, aqueles 'amigos da onça'. Quando você está por baixo, todo mundo some...", completou.

No retorno à Holanda, o atacante rapidamente mostrou que estava a fim de dar a volta por cima. Na temporada 2010/11, começou fazendo oito gols em 11 jogos, inclusive um hat trick na espetacular goleada por 10 a 0 sobre o Feyernoord, que fez os torcedores o aplaudirem de pé. Tudo estava nos trilhos, e Jonathan caminhava a passos largos para ser um dos nomes do ano no futebol europeu.

Mas a vida ainda lhe reservada mais um desafio.

Durante um jogo contra o Roda JC, pelo Campeonato Holandês, o brasileiro levou uma trombada feia do goleiro Tyton no joelho [veja no vídeo abaixo]. Teve menisco, patela e ligamentos totalmente destruídos. O PSV imediatamente o enviou a Denver, nos Estados Unidos, para ser operado pelos melhores especialistas.

Ao final do procedimento, ouviu do médico uma frase que até hoje ecoa em sua cabeça: "Sinto muito, mas suas chances de voltar a jogar futebol são de 5%".

O recomeço

Durante um ano, a vida de Jonathan foi na sala de fisioterapia. "Era duro... Todos os dias, pelo menos sete horas de fisioterapia todos os dias, por mais de um ano. Foi difícil demais, mas ainda bem que deu tudo certo. Tenho que agradecer ao Eduardo Santos, fisioterapeuta, que hoje está no Zenit [da Rússia]. Ele fez de tudo por mim", afirmou.

Aos trancos e barrancos, o atacante foi conseguindo voltar. Mas o PSV não colocava fé de que o joelho marcado por cicatrizes fosse funcionar de novo. O atleta foi liberado para procurar outro clube, e acertou com o Vitesse, também da Holanda.

Após três temporadas, até marcou alguns gols, mas não chegou a se firmar. No fim de 2013, seu contrato acabou, e ele decidiu voltar ao Brasil. Acertou com o Bahia, sem sucesso.

"Aqui, os treinos carregam muito o joelho, não consegui jogar em bom nível, infelizmente", lamentou. Sua passagem por Salvador durou pouco mais de 10 dias.

Foi aí que Jonathan Reis, o atacante que havia jogado Champions League contra a Inter de Milão aos 18 anos, se viu sem clube para atuar.

Os meses foram passando, e a vontade de largar tudo e desistir da carreira de jogador de futebol foi crescendo. O que o salvou foi um convite de amigos para disputar a Copa Itatiaia, tradicional torneio de várzea que conta com times tanto de Belo Horizonte quanto da região metropolitana da capital, pelo Brumadinho.

"Eu estava totalmente desanimado depois que saí do Bahia, só pensava em parar de jogar. Mas a família da minha mulher é de Brumadinho, e me chamaram para jogar pelo time. Fiquei surpreso, porque a Copa Itatiaia tem um nível altíssimo! Tem muito ex-profissional nos times, só jogo pegado", ressaltou.

ROBIN VAN LONKHUIJSEN/AFP/Getty Images
Jonathan Reis Comemora Gol PSV Willen II Campeonato Holandês 17/10/2010
Jonathan comemora gol pelo PSV

Como era de se esperar, Jonathan sobrou em campo até agora. Com nove gols marcados, ele é artilheiro isolado do torneio, e seu time está na final da chave Metropolitana, na qual vai enfrentar o Vasco. Se passar e for à finalíssima, o atleta vai entrar em campo pela primeira vez no Estádio Independência, em Belo Horizonte, para disputar a decisão.

Enquanto desfila seu futebol nos campos de várzea, agora aguarda uma proposta para voltar ao futebol profissional: "É meu objetivo, dei uma animada legal agora. Eu sempre quis ser jogador, deixava de ir à escola para jogar bola. Hoje, vejo que foi um erro, mas sempre quis ser jogador de futebol, não tinha jeito".

A esperança é que alguém volte a apostar em seu futebol, para, quem sabe um dia, Jonathan possa seguir um caminho semelhante ao de seu ídolo: o meia Ronaldinho Gaúcho.

"É o cara que eu mais gosto, até porque sou atleticano. O Ronaldinho ter jogado no 'Galo' foi sensacional! Quem sabe um dia eu também não volte a ter uma chance lá..."

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