Ignoradas por cartolas, campeãs mundiais entraram em quadra graças a 'vaquinha' e ajuda de banco

Henrique Munhos, para o ESPN.com.br
Reprodução/Facebook
Meninas desenharam próprio unifrome e viraram de forma incrível na decisão
Meninas desenharam próprio unifrome e viraram de forma incrível na decisão

Há uma semana, a seleção brasileira feminina de futsal foi pentacampeã mundial de forma épica. Na decisão, contra Portugal, as meninas perdiam por 3 a 1 e conseguiram uma virada incrível nos minutos finais. Porém, por muito pouco, o elenco comandado por Éder Popiolski sequer embarcou para a Costa Rica, onde foi realizado o torneio.

A Confederação Brasileira de Futsal (CBFS), investigada por um caso de desvio de dinheiro através de empresa fantasma, avisou aos membros da seleção que o Brasil não iria disputar a competição por falta de verba. Revoltada, a atleta Vanessa Pereira, que disse ter conhecimento da desistência da CBFS pela televisão, começou a pedir ajuda nas redes sociais.

"Soube pela televisão, até então não havia nenhum parecer definitivo. Fiz um desabafo pelas redes sociais e isso foi ganhando espaço. Abrimos uma conta bancária, e pessoas foram ajudando. Talvez por esse espaço que ganhamos, fui chamada pela Confederação para uma reunião em São Paulo. Porém, deixaram ainda mais claro que não ajudariam com nada. Deixei o local revoltada e aí recebi a ligação do banco, que se sensibilizou com a nossa causa," relatou Vanessa ao ESPN.com.br.

O banco citado por Vanessa é o Itaú, que, segundo apurou a reportagem, custeou cerca de R$ 180 mil dos gastos. Além de passagens aéreas e despesas extras, o banco também providenciou um período de treinamentos em São Caetano do Sul.

"Vimos um post do Romário nas redes sociais e ficamos sensibilizados. O valor neste caso é irrelevante. Independente da contrapartida, que nem era nossa intenção (a seleção colocou a marca do banco nos uniformes), já que queríamos apenas ajudar. Acompanhamos jogo a jogo, e foi uma alegria enorme ver o resultado dessas meninas, que são guerreiras", disse Luciana Nicola, Superintendente de Relações Institucionais do Itaú.

Outros R$10 mil foram doados por jogadores da seleção masculina, que abriram mão de uma premiação da qual tinham direito. A Joma também forneceu os uniformes de jogos, enquanto as vestimentas para treinamento e para passeio foram desenhados pelas próprias atletas e confeccionados em Chapecó, Santa Catarina.

"É uma vergonha que uma seleção pentacampeã tenha que mendigar ajuda para jogar um campeonato mundial Não existe organização nem o menor respeito da Confederação com a modalidade. Se eu trabalhasse na confederação, me sentiria envergonhada. Por outro lado, tenho enorme orgulho desse nosso grupo, que lutou desde o começo para conseguir viajar. Sabemos que se não fossemos dessa vez a modalidade iria morrer", ressaltou Vanessa.

Reprodução/Facebook
Vanessa, no centro, com membros do banco Itaú
Vanessa, no centro, com membros do banco Itaú

‘Questão política prejudica a modalidade', aponta treinador

Politicamente, o ano de 2014 tem sido bem complicado para o futsal brasileiro. Em junho, Aécio Borba, então presidente da CBFS, renunciou ao cargo depois de ter as contas da Confederação rejeitadas e ser acusado de nepotismo.

O ESPN.com.br teve acesso a documentos que mostram que o vice presidente de competições da entidade e hoje presidente da Confederação, Renan Menezes, e Louise Bedê, atual vice de administração, receberam durante 2013 parcelas de R$ 10 mil por meio da ARFE, firma de "produção e logística de eventos" de propriedade de Armando Gondin, genro de Aécio de Borba, ex-mandatário da CBFS.

"A questão política prejudica tanto o masculino quanto o feminino. A busca pelo poder complica. Temos que trabalhar pelo bem da modalidade. Atualmente, não vemos o profissionalismo que gostaríamos. Se não tivermos um trabalho bem feito, não conseguiremos manter essa hegemonia", disse Éder Popiolski, técnico da equipe feminina no título mundial.

Procurada para falar sobre o caso da seleção feminina, a Confederação Brasileira de Futsal não respondeu às mensagens e ligações da reportagem. Para Vanessa, o caso de repasse ilegal é mais um que reflete a falta de transparência dos comandantes da modalidade. Mesmo assim, a esperançosa jogadora acredita em um futuro melhor.

"Esse valor (de R$ 10 mil) é muito baixo perto do caso de prestação de contas da confederação, que são milhões. Não está esclarecido. É preciso transparência, as coisas precisam ser tratadas corretamente. Apesar de tudo, acredito em um futuro melhor. ministério do Esporte e Itaú já mostraram interesse em seguir ajudando, " finalizou.

O banco Itaú, contudo, ressaltou que não foi procurado pela CBFS em nenhum momento e que faz parte do pacto que fiscalizará o uso de verbas no esporte, que será assinado por 17 empresas e que foi organizado após suspensão do patrocínio do Banco do Brasil à Confederação Brasileira de Vôlei, por irregularidades descobertas pelo repórter Lúcio de Castro e publicadas no ESPN.com.br.

 

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