De atleta olímpico da canoagem pela Bósnia a lenda de Cingapura: o adeus de Duric ao futebol

Antônio Strini, do ESPN.com.br
Getty
Aleksandar Duric no aquecimento para seu último jogo, aos 44 anos
Aleksandar Duric no aquecimento para seu último jogo, aos 44 anos

Nesta sexta-feira, o Estádio Jalan Besar presenciou um momento único para Cingapura: o adeus de Aleksandar Duric dos campos de futebol. Ele entrou no intervalo do jogo com o Brunei DPMM e ajudou na vitória por 2 a 1, dando o chute que resultou em rebote e gol de Milan Mrdakovic, o segundo do Tampines Rovers FC.

Ao final da partida, Duric foi carregado pelos companheiros e rivais para dar uma volta olímpica. Uma despedida em grande estilo do jogador que revolucionou o futebol cingapuriano nos quase 14 anos em que atuou lá.

Uma lenda tardia, que se aposenta dos gramados já aos 44 anos, mas que deixou sua marca como um centroavante nato e antes mesmo até de chegar ao país asiático.

"Eu tenho um tipo de experiência - não apenas no futebol, mas na vida - que as pessoas podem apenas imaginar", costuma dizer o também sobrevivente de guerra. Nascido na cidade de Doboj, antiga Iugoslávia, em 1970, Alek foi um prodígio da canoagem, que começou a praticar como recomendação médica para tratar seu problema de desenvolvimento na região peitoral. Com apenas 17 anos, ele era o oitavo melhor do mundo no C-1 1.500m.

No entanto, sua paixão era o futebol. Torcedor do Estrela Vermelha, Duric atuou nas categorias de base do FK Sloga Doboj como goleiro e, posteriormente, meio-campista.

Sua iniciante carreira nos gramados, porém, precisou ser deixada de lado por alguns anos: Aleksandar viveu e sofreu de perto a Guerra da Bósnia (1992-1995), ocorrida logo após o fim da Iugoslávia e que colocou frente a frente bósnios muçulmanos, croatas católicos, sérvios ortodoxos e sérvios bósnios.

Mesmo tendo prestado serviço militar, Duric conseguiu não ser um combatente, tudo por causa de seu pai, que queria que ele ou irmão fugisse a outra nação para manter a linhagem da família. "Meu pai lutou nessa guerra, meu irmão (lutou) por quase cinco anos, e minha mãe foi morta em 1993 pelo exército muçulmano. Eles bombardearam nossa vila e acertaram diretamente minha casa. Uma bomba realmente grande, e minha mãe morreu na hora", disse Aleksandar em entrevista ao site australiano The World Game.

"Tantas pessoas como eu perderam mães e pais nessa sangrenta guerra civil, mas por mim não guardo rancores. Eu olho para as pessoas por seus corações, e aqui em Cingapura adotei uma criança muçulmana", revelou.

Getty
Centroavante bósnio em ação pela seleção de Cingapura: 1ª convocação aos 37
Centroavante bósnio em ação pela seleção de Cingapura: 1ª convocação aos 37

Ainda com a guerra em curso, Duric foi convidado pelo recém-formado comitê olímpico da Bósnia e Herzegovina a disputar os Jogos Olímpicos de Barcelona em 1992 na canoagem, esporte que não treinava havia dois anos. No entanto, o comitê não tinha como pagar as passagens, e o atleta, com só uma carta da entidade e um passaporte inválido, atravessou as fronteiras de Áustria e Eslovênia na base da "amizade" até pegar um avião e chegar à capital da Catalunha apenas dois dias antes de sua estreia.

Em Barcelona, acabou eliminado na repescagem, mas entrou na história por ser um dos dez primeiros representantes da Bósnia e Herzegovina em uma Olimpíada.

Essa foi sua última passagem pela canoagem. A partir de então, Aleksandar Duric focou apenas no futebol. E foi quando sua carreira parecia caminhar para o final que o atacante de 1,92m se tornou uma lenda na Ásia.

O centroavante fez carreira pelo futebol na Austrália, também passando por China e Cingapura, e neste último país entrou para a história.

Depois de atuar rapidamente por Tanjong Pagar United e Home United FC, Duric - já aos 31 anos - inicou sua trajetória de sucesso no Geylang United (2001 a 2004), onde marcou 97 gols no campeonato local. Depois, no antigo Singapore Armed Forces (hoje Warriors FC), o bósnio jogou de 2005 a 2009 com números ainda melhores: 129 gols em 150 jogos. Aos 39, deixou o clube para "mitar" no Tampines Rovers, onde esteve de 2010 até esta sexta-feira, colecionando mais 78 gols. Assim, com um total de 376, ele para como maior artilheiro em atividade de um mesmo campeonato no mundo.

Aos 37 anos, Duric recebeu um título especial: cidadão de Cingapura. Pouco depois, foi convocado pela primeira vez para atuar pela seleção local. E o impacto continuou, com 24 gols em 59 partidas, impensável para alguém que atuou apenas entre 2007 e 2012 (37 e 42 anos).

No currículo, oito títulos do Campeonato de Cingapura (S-League), três da Copa e outros cinco da Supercopa. Pela seleção, venceu a AFF Championship de 2012, torneio que envolve somente os países do Sudeste Asiático.

"É muito emocionante. Muitas coisas passam pela minha cabeça. Não é fácil - pensei que seria muito mais fácil, porque estou me preparando para isso nos últimos dez meses. Mas quando chega, é ainda mais duro. É um capítulo da minha vida que está acabado, e estou me preparando para o próximo", afirmou Alexsandar Duric, que já possui licença de técnico, em entrevista à agência AFP.

Na carta de despedida, escrita nesta semana, o atacante bósnio disse: "É duro colocar meus pensamentos em uma carta, mas eu preciso apresentar uma despedida decente a minha família do futebol. A família do futebol em Cingapura".

"Eu ainda me lembro quando coloquei meu primeiro pé em Cingapura em 1999, fui chamado para treinar com o Tanjong Pagar United FC no Estádio Queenstown e perguntei a um dos meus companheiros: 'OK, então esse é o centro de treinamento, mas onde está o estádio que nós vamos jogar?' Ele me olhou fixamente por um minuto, e nós dois não parávamos de rir da minha pergunta tola que me envergonha até hoje."

Ele garantiu que seu "maior e mais orgulhoso momento" no país foi quando recebeu a naturalização cingapuriana e logo em sua primeira convocação pela seleção anotou dois gols na vitória sobre o Tajiquistão. "Isso ainda me provoca arrepios".

"Tudo o que quero agora é que alguém se lembre de mim como um jogador decente, que fui humilde dentro e fora de campo, que tentei o melhor e dei de tudo pelos clubes que joguei e pelo orgulho de ter vestido a camisa de Cingapura", escreveu Duric.

Comentários

De atleta olímpico da canoagem pela Bósnia a lenda de Cingapura: o adeus de Duric ao futebol

COMENTÁRIOS

Use a Conta do Facebook para adicionar um comentário no Facebook Termos de usoe Politica de Privacidade. Seu nome no Facebook, foto e outras informações que você tornou públicas no Facebook aparecerão em seu cometário e poderão ser usadas em uma das plataformas da ESPN. Saiba Mais.