ESPECIAL - 10 ANOS SEM SERGINHO: 'Ele estava morto, mas nos obrigaram a jogar'

Francisco De Laurentiis, Vladimir Bianchini e Érico Lotufo, da ESPN

Na próxima segunda-feira, dia 27 de outubro, o futebol brasileiro completa 10 anos sem o zagueiro Serginho, que morreu em campo durante partida do São Caetano contra o São Paulo, no Morumbi. Para relembrar aquele que é talvez o episódio mais triste da história do Campeonato Brasileiro, o ESPN.com.br e a Rádio ESPN prepararam uma série especial para contar os bastidores do trágico evento, até hoje não esquecido.

No quarto episódio da série, ex-jogadores e membros da comissão técnica do São Caetano contaram com exclusividade à ESPN sobre a revolta causada pelo time ter sido obrigado a voltar a campo para concluir o jogo contra o São Paulo, no mesmo Morumbi onde Serginho morreu, somente uma semana após o falecimento do jogador.

O primeiro episódio da série, sobre o médico Paulo Forte, por ser lido aqui.
O segundo episódio da série, sobre o massagista Itamar Rosa, pode ser lido aqui.
O terceiro episódio da série, sobre a briga entre Serginho e Romário, pode ser lido aqui.

ESPN.com.br
AGLIBERTO LIMA/AFP/Getty Images
Fabrício Carvalho Chora Serginho São Caetano São Paulo Campeonato Brasilerio 27/10/2004
Fabrício Carvalho vai às lágrimas após Serginho sofrer parada cardíaca em campo

Em 27 de outubro de 2004, o zagueiro Serginho, do São Caetano, sofreu uma parada cardiorrespiratória aos 15 minutos do 2º tempo da partida contra o São Paulo, sendo declarado morto no hospital às 22h45. Sete dias depois, os atletas e a comissão técnica da equipe do ABC tiveram que voltar ao Morumbi para jogar os 30 minutos restantes do duelo, pelo Campeonato Brasileiro, mesmo ainda em estado de choque.

10 anos depois, isso ainda revolta a todos os ex-São Caetano.

"O enterro dele foi no sábado [em Coronel Fabriciano-MG], vários jogadores foram, e na quarta a gente estava em campo de novo. O jogo não podia ter continuado, foi uma indignação do elenco. Preferíamos ter dado os pontos para o São Paulo", reclamou o zagueiro Dininho, parceiro de zaga de Serginho, em entrevista ao ESPN.com.br e à Rádio ESPN.

"Foi muito inoportuno por parte da CBF, pois tentamos mudar a partida e não conseguimos. Foi uma falta de respeito da parte deles, já que ninguém queria jogar. Eu entrei em campo e senti uma coisa que nunca tinha sentido antes: eu olhava para o chão e ainda via o Serginho lá caído, morto. Eles continuaram o jogo como se nada tivesse acontecido! Em 20 minutos, tomamos quatro gols, não estávamos com cabeça. Para não prejudicar ainda mais o clube no tribunal, nós tivemos que acatar a decisão. Mas só jogamos porque fomos obrigados, não queríamos entrar em campo", disparou.

A falta de atenção ao jogo foi evidente. Em poucos minutos, o São Paulo marcou três vezes, com Danilo, Júnior e Grafite. O time do ABC até reagiu com dois pênaltis, convertidos por Marcinho e Ânderson Lima, mas Rodrigo fechou a conta com um golaço de falta: 4 a 2 para os donos da casa. Relembre no vídeo:

Obrigados a jogar: São Paulo 4 x 2 São Caetano, uma semana após morte de Serginho

Outro que se enfurece ao lembrar da continuação da partida é Fabrício Carvalho. O atacante entrou em campo com a camisa de Serginho por baixo da sua, para homenagear o zagueiro caso marcasse. Ele não anotou, mas sofreu o pênalti que resultou no gol de Ânderson Lima. No lance, o centroavante teve a camisa puxada por Lugano, e o número 5 que o falecido zagueiro costumava usar ficou evidente por alguns segundos.

Fabrício diz que até hoje não lembra o placar do jogo.

"Entramos em campo, mas, na realidade, não estávamos ali. A memória do Serginho aparecia a todo momento. Para você ter uma ideia, nem lembro o resultado desse jogo... Para mim, ele nunca deveria ter continuado...", disse o atacante, que segue em atividade, em entrevista ao ESPN.com.br e à Rádio ESPN.

"Foi uma falta de respeito enorme tudo o que aconteceu. Tinham que ter cancelado o jogo, dado os pontos pro São Paulo, sei lá... Só não podiam ter nos obrigado a voltar e jogar. Infelizmente, tivemos que cumprir essa ordem, que veio de cima. Sei que perdemos o jogo, mas nem lembro o resultado. E nem quero lembrar", completou Carvalho.

MARCELO FERRELLI/Gazeta Press
Serginho Substituição Jonas São Caetano São Paulo Campeonato Brasileiro 03/11/2004
Jonas entra no lugar do falecido Serginho

Mesmo após a morte de Serginho e a catástrofe contra o São Paulo, o São Caetano ainda conseguiu reagir no Brasileiro, e chegou às rodadas finais em condição de disputar o título. No entanto, o STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva) tirou 24 pontos da equipe, responsabilizada pela morte do atleta, e jogou o clube do ABC para a parte de baixo da tabela.

O time não foi rebaixado, mas o sonho de homenagear o zagueiro com a conquista da taça acabou.

"O sentimento de todos era que aquele seria o único campeonato que o Serginho ainda poderia ser campeão, e queríamos o título para ele. Até as ultimas três rodadas, estávamos brigando pela taça, e teríamos confronto direto contra o Santos e o Atlético-PR. Neste momento, veio a noticia que perderíamos os pontos. Aí nos três últimos jogos tomamos 11 gols, o mesmo número de gols do turno inteiro", lembrou o técnico Péricles Chamusca, comandante da equipe azul na ocasião, à ESPN.

Responsável por tentar diminuir o abalo emocional dos jogadores antes da partida no Morumbi, Chamusca optou por uma série de estratégias para fazer os atletas conseguirem esquecer, pelo menos por alguns momentos, a tragédia que havia ocorrido uma semana antes. Mas tudo foi por água abaixo nos minutos que antecederam o jogo.

"Na volta para completar o jogo, montamos uma estratégia para tentar amenizar o emocional dos atletas. Trocamos o hotel, chegamos mais em cima da hora e subimos cedo para aquecer no campo. Até ali, estava tudo controlado. Mas, antes de começar o jogo, o pessoal do São Paulo fez uma homenagem para o Serginho, com uma música. A torcida começou a cantar o nome dele, e apareceu uma imagem no placar eletrônico. Aí desmoronou todo o emocional do nosso time", recordou, antes de encerrar. 

"Lembro-me que os primeiros momentos do jogo parecia que a nossa equipe estava anestesiada. Tomamos gols em sequência, reagimos depois, mas não teve jeito".

Jogadores até perderam peso

Psicologicamente abalados pela morte de Serginho, os jogadores do São Caetano não tinham, além de psicológico, condições físicas de entrar em campo contra o São Paulo. É o que atesta Japhet Borges, preparador físico da comissão técnica de Péricles Chamusca, em entrevista ao ESPN.com.br e à Rádio ESPN.

MARCELO FERRELLI/Gazeta Press
Euller Chuta São Caetano São Paulo Morte Serginho Campeonato Brasileiro 03/11/2004
Euller tenta finalização na partida contra o São Paulo

"Tivemos muita dificuldade para conseguir ir ao enterro dele em Minas. Alguns foram de avião fretado, porque a estrada até lá era longa e perigosa. Lá, os jogadores não se alimentaram direito, porque era um funeral, não uma festa. Também não dormiram direito, e estavam arrasados emocionalmente. Voltamos a treinar apenas na segunda-feira [o enterro foi no sábado], nas condições mais precárias possíveis, os jogadores totalmente abatidos, muitos com 3 kg abaixo do peso porque não conseguiam comer direito e não treinaram no período", relatou.

O choque emocional foi tão grande que, segundo Borges, a maior parte do elenco do time do ABC não conseguiu parar de chorar durante a partida no Morumbi. Após a equipe azul levar três gols em sequência, Chamusca chamou um dos jogadores para conversar na lateral, e ouviu dele que os atletas não tinham condição psicológica para jogar.

"O Paulo Miranda veio buscar uma bola na lateral e o Chamusca perguntou: 'O que está acontecendo?' Ele respondeu: 'Professor, nós temos oito jogadores chorando em campo'. Não tínhamos condição de jogar, foi fora de lógica. Reagimos depois, mas, a partir dali, aquilo tumultuou demais o ambiente que antes era inabalável", afirmou.

Após perder 24 pontos, o São Caetano terminou o Campeonato Brasileiro de 2004 na 18ª colocação, com 53 pontos, três de vantagem para a zona do rebaixamento.

"Se o Serginho não tivesse falecido, a gente seria campeão e ia entrar para a história", lamentou Dininho, sobre o título que não conseguiu dar ao grande amigo.

MARCELO FERRELLI/Gazeta Press
Serginho Homenagem São Caetano São Paulo Campeonato Brasileiro 03/11/2004
Jogadores do São Caetano com faixa para Serginho antes do jogo contra o São Paulo
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