Brasileiro revela: zagueiro pegador de pênaltis da Champions nunca havia treinado no gol

Francisco De Laurentiis, do ESPN.com.br, e Vladimir Bianchini, da Rádio ESPN
Assista aos melhores momentos de Ludogorets 1 (6) x (5) 0 Steaua Bucaresti

Nenhuma classificação para a Uefa Champions League foi tão heroica quanto a do pequeno Ludogorets, da Bulgária. A equipe viu seu goleiro ser expulso no playoff contra o Steua Bucareste, mas contou com uma atuação monstruosa do zagueiro Cosmim Moti, que assumiu o gol, para se classificar nos pênaltis, com direito a duas defesas do herói.

Menos de um mês depois do feito, os búlgaros se preparam para a estreia inédita na Liga dos Campeões, nesta terça-feira, contra o poderoso Liverpool, com transmissão ao vivo da ESPN e do WatchESPN. Em entrevista ao ESPN.com.br e à Rádio ESPN, um dos quatro brasileiros do Ludogorets, o lateral Guilherme Choco revelou que Moti nunca havia nem brincado de jogar no gol antes de ser imortalizado.

"Isso que aconteceu foi inacreditável. Ele nunca pegou no gol em treino, jogo, nada! Ele nunca nem brincou no gol. A gente ficou muito surpreso na hora, porque ele pegou dois pênaltis como se fosse fácil, como se fosse um goleiro normal. Estamos impressionados até agora!", contou o paulista, que joga na Bulgária desde 2011 e tem quatro companheiros brasileiros na sua equipe: Jr Caiçara, Marcelinho, Wanderson e Quixadá.

Choco diz que a classificação para a Liga transformou a cidade de Razgrad, de 33 mil habitantes, em uma "metrópole" fervilhante de futebol. Nas ruas, só se fala de Liverpool e Real Madrid, os gigantes que o Ludogorets irá enfrentar na fase de grupos. Os jogadores da equipe local não têm mais sossego, já que vivem ganhando presentes e recebendo pedidos de fotos e autógrafos.

Nikolay Doychinov/EuroFootball/Getty
Cosmin Moti Ludogorets Steua Bucareste Champions Playoff 27/08/2014
Moti, o herói, vai virar nome de arquibancada

"Se a gente conseguir ganhar de um deles, sair na janela vai ficar impossível!", sorri o brasileiro, revelado pelo Santos.

Na entrevista, Choco também falou sobre a vida na Bulgária, contou curiosidades do magnata dono do clube, Kiril Domuschiev, que comemorou a classificação para a Champions no chuveiro do vestiário com os jogadores, e lamentou o racismo que sofre diariamente na Europa.

Leia a entrevista com Choco:

ESPN: Já caiu a ficha de que vocês vão jogar a Champions?
Guilherme Choco: Nossa classificação foi inacreditável. A gente nunca esperava passar de fase da meneira como foi, nos pênaltis, sem goleiro. Ainda bem que nosso amigo zagueiro resolveu brilhar como goleiro no dia. Sei lá o que deu nele na hora. O cara pegou dois e ainda fez o dele. A gente só tem que agradecer a Deus e ao (Cosmin) Moti pelo milagre!

ESPN: O Moti já havia jogado no gol alguma vez antes?
GC: Não! Isso que foi o mais inacreditável. Ele nunca pegou no gol em treino, jogo, nada! Ele nunca nem brincou no gol. A gente ficou muito surpreso na hora, porque ele pegou dois pênaltis como se fosse fácil, como se fosse um goleiro normal. Estamos impressionados até agora!

ESPN: O que passou na sua cabeça na hora dos pênaltis?
GC: Quando o goleiro foi expulso, pensei: 'pô, mano, já era...'. Aí o Moti virou e falou: 'relaxa, eu vou pro gol'. Ele foi bem, aguentou a prorrogação, e levou pros pênaltis. Aí olhamos e pensamos que ia ser muito difícil passar, porque nosso goleiro expulso era especialista em pegar pênaltis, mas a gente estava com um zagueiro no gol. Ficamos meio sem esperanças, e a gente nem tinha mais subsituições pra fazer. No fim deu tudo certo, mas até agora é difícil de acreditar.

ESPN: E como foi a festa no vestiário?
GC: Nós choramos bastante, comemoramos muito. Eu fiquei sem voz, os outros brasileiros também. Nosso maior objetivo era entrar na Champions e conseguimos. Foi um sonho. Estamos até hoje sem acreditar que vamos jogar o maior campeonato do mundo.

ESPN: Fale mais sobre o Moti. Como é o maior herói da Champions até agora?
GC: Ele é um cara muito tranquilo. Geralmente, os zagueiros são meio doidos, mas ele é sossegado. A gente brinca, eu converso todo dia com ele. É um cara na dele, não dá muita risada, mas às vezes se solta. Os brasileiros tiram muito sarro, é um cara de boa!

Nikolay Doychinov/EuroFootball/Getty
Ludogorets Steua Bucareste Champions Playoff 27/08/2014
Jogadores do Ludogorets comemoram o milagre

ESPN: É verdade que ele será homenageado pelo feito heroico?
GC: Nós festejamos muito no dia. Pegamos e jogamos o Moti pro alto, enchemos ele de água, Gatorade, jogamos tudo o que tinha na frente em cima dele. Ninguém acreditou no que ele fez. Tanto é que nosso presidente está construindo um novo estádio e uma das arquibancadas vai se chamar Cosmin Moti!

ESPN: Falando no presidente, ele é conhecido por ser um cara extravagante e muito rico. Conte-nos um pouco sobre o Kiril Domuschiev.
GC: Ele fala muito com a gente em quase todos os jogos. É um cara que cobra muito, e tá no direito dele, porque paga nosso salário. Então, ele cobra mesmo! Está sempre presente em todos os jogos. Quando perdemos, ele nos anima, e quando ganhamos, ele nos dá muita força. Ele gosta de se envolver no dia a dia dos jogadores. Quando ganhamos do Steua, ele entrou no vestiário e foi pra farra com a gente, comemorou, jogamos ele no chuveiro e tudo (risos). Vive todas as emoções junto conosco.

ESPN: E dá pra acreditar que, logo de cara, vocês vão jogar contra Real Madrid e Liverpool?
GC: Não! Inclusive ninguém quer mais saber dos jogos pelo Campeonato Búlgaro, só se fala em Liverpool e Real Madrid na cidade inteira. Pra gente, vai ser um sonho jogador contra os melhores do mundo. Nós nos acostumamos a vê-los só pela TV e pelo videogame, e agora vamos jogar contra. É uma sensação ótima. Nosso objetivo maior era entrar na Champions, o que vier agora é lucro. Vamos jogar sem preocupação nenhuma, sem pressão. Independetemente do resultado, vamos mostrar nosso futebol.

ESPN: O Cristiano Ronaldo vai jogar pelo seu lado do campo. Como vai marcá-lo?
GC: Eu ainda tô meio desacreditando nisso (risos). Ele é um cara muito famoso e vai jogar aqui em Razgrad! Estou trabalhando firme para marcar o melhor do mundo, vou dar tudo de mim. Se eu for bem, meu Deus do céu, nem sei o que vou fazer (risos)!

Getty
Lateral brasileiro Guilherme Choco (esq) marca Memphis Depay, do PSV, durante jogo da Europa League
Choco se esforça na marcação pelo Ludogorets

ESPN: E como é sua vida na Bulgária? Você fala búlgaro depois de quase cinco anos morando aí?
GC: É um país lindo. Tem umas coisas meio velhas, mas é ajeitadinho. No início, a adaptação foi difícil, porque eu era o único estrangeiro quando estávamos na Série B. Foi difícil comer coisa estranha, acostumar com o fuso, mas hoje estou adaptado e falo búlgaro fluentemente. Quanto ao alfaberto, eu não consigo escrever, porque eles têm umas 14 ou 15 letras a mais que o nosso. Consigo ler, mas escrever é bem mais difícil.

ESPN: E o que mudou na cidade desde que vocês viraram uma potência do futebol?
GC: Nossa cidade tem uns 30 mil habitantes, então é bem pequena. O clube teve uma ascensão muito rápida, em cinco anos fomos tricampeões da Bulgária, ganhanos duas Copas e agora estamos na Champions. O povo está maluco! Aonda a gente vai, eles gritam 'vamos ganhar, vamos ganhar'. Já era difícil andar na rua, todo mundo queria foto, autógrafo, agora aumentou demais. Se a gente conseguir ganhar de um deles [Real Madrid ou Liverpool], sair na janela vai ficar impossível! Inclusive, todo mundo quer dar presente e coisa de graça pra gente. Eu vou no mercado e o dono fala 'leva isso, leva aquilo, é presente!'. Eu falo que não, porque é o trabalho deles, mas todo mundo quer dar presente pra nós!

ESPN: No leste europeu, os casos de racismo contra jogadores negros são comuns. Você sofre muito com isso?
GC: Eu acompanhei o caso do Aranha no Brasil e fiquei muito triste, porque, entra ano, sai ano, e isso continua acontecendo... Eu sofri racismo e sofro em todos os estádios aqui da Bulgária. Tem eu e mais dois negros no Ludogorets, e sempre que a gente pega na bola eles gritam 'macaco' em búlgaro e fazem sons. Procuro tentar não ligar muito pra isso, mas é difícil. Eu preciso tentar esquecer, porque tenho que fazer meu trabalho direito.

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