Chamar de macaco e imitar animal são coisas comuns na Arena do Grêmio

Camila Mattoso e Marcus Alves, do ESPN.com.br

O país ficou estarrecido com as cenas registradas na Arena do Grêmio, na noite desta quinta-feira, quando o time dp técnico Luiz Felipe Scolari foi derrotado pelo Santos, no jogo de ida das oitavas de final da Copa do Brasil. Aos 30 minutos do segundo tempo, o goleiro Aranha tentou chamar a atenção do árbitro Wilton Pereira Sampaio para os gritos de macaco que vinham das arquibancadas do estádio, em mais um episódio de racismo do futebol brasileiro.

A cena, no entanto, é comum na casa tricolor.

Embora soe absurdo, o relato de quem costuma frequentar os estádios de Porto Alegre, especialmente em Grenais, o principal clássico local, é de que as provocações do lado da Azenha invariavelmente se utilizam de referências ao animal, inclusive com imitações, direcionadas não só a atletas negros. 

Na capital gaúcha, os fãs do Internacional são chamados por parte da torcida rival de "macacos". Para compreender a origem da prática há diversas versões, sem quem uma delas seja tratada como oficial.

Não falta quem recorra ao passado em que os torcedores do Inter subiam em árvores para acompanhar os jogos colorados com o início de toda a controvérsia. Houve uma época em que a própria diretoria no Beira-Rio deixou de lado o tradicional Saci e escolheu como novo mascote um macaquinho. Dedicidido em votação, ele acabou sendo batizado de Escurinho, ídolo negro da década de 90.

"É absurdo, mas realmente é uma coisa que é vista dentro do estádio, por uma minoria, claro. É algo que começou há muito tempo, não tem muita explicação. Tem muita gente que não gosta e faz de tudo para que isso acabe. Nem sempre, no entanto, isso se manifesta de forma preconceituosa como ontem. Uma vez, em um Grenal, um dos irmãos Biteco (negro) corria em campo, sendo perseguido o tempo todo por um adversário. Alguns torcedores começaram a gritar contra o cara do Inter, que era branco", afirmou Léo Gerchmann, repórter da Zero Hora e pesquisador da história do Grêmio ao ESPN.com.br

PVC: 'A tendência, nesse momento, é a exclusão do Grêmio da Copa do Brasil'

"Mas mesmo quando não é necessariamente preconceituso, é horrível. Mesmo quando não tem, carrega esse tom racista, horroroso. É uma coisa que já tinha que ter acabado. Envergonha o torcedor. Não tem nada a ver com o clube. É como em São Paulo, quando chamam o Palmeiras de "porco". Virou uma coisa entre as duas torcidas", completou.

O costume da torcida, contudo, obviamente, não explica o que aconteceu na noite desta quinta-feira, quando os gritos eram direcionados a somente um jogador, Aranha. 

"Não tem e nunca terá justificativa alguma. O que é comum não necessariamente é bom. Só é importante destacar que é uma parte pequena da torcida que ainda carrega isso. O racismo ficou exposto no jogo contra o Santos e espero que sirva de lição. Que sejam identificados e punidos, e que nunca mais voltem ao estádio", finalizou.

No meio da tarde desta sexta, enquanto o assunto ainda pipocava nas redes sociais, com a identificação de dez torcedores e o boletim de ocorrência, a Torcida Jovem, uma das organizadas do clube, se manifestou pelo Twitter, pedindo que os cantos com "macaco" sejam deixados de lado dentro dos estádios. 

A diretoria tricolor, por sua vez, se articula para uma divulgação maciça de ações contra o racismo durante o fim de semana. Segundo a reportagem apurou, a partida contra o Bahia, no domingo, às 18h30 (de Brasília), será palco de uma série de manifestações a respeito do episódio.

Entre os cartolas tricolores, a sensação é de que a equipe fez tudo que se encontrava ao seu alcance e não poderia ser prejudicada pelo desempenho de uma minoria. Eles acreditam que a mais justa das punições a partir da denúncia do STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva) seria uma multa pecuniária. O time corre o risco de ser expulso da Copa do Brasil, no entanto.

No ano passado, o departamento de marketing tricolor produziu uma campanha chamada "Azul, Preto e Branco: Grêmio é contra o racismo", em que atletas e dirigentes expuseram suas contraridades com manifestações de cunho racial.

Essa é a segunda vez na temporada que a equipe de Felipão se vê envolvida em uma polêmica em torno de provocações racistas. Em março, o zagueiro Paulão, do Inter, revelou ter sido vítima de insultos após o Grenal vencido pelo Inter por 2 a 1, pelo estadual. Mesmo com repercussão nacional, o caso resultou em multa de R$ 80 mil ao clube.

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