Ex-Grêmio e Inter, Gavilán revela inspiração em Muricy para ser técnico e não quer que filho veja agressão a Valdivia

Antônio Strini, do ESPN.com.br
Gazeta Press
Muricy Ramalho foi a maior inspiração para Gavilán se tornar técnico
Muricy Ramalho foi a maior inspiração para Gavilán se tornar técnico

6 de outubro de 2007, Palestra Itália. Antes de uma cobrança de escanteio, Jorge Valdivia e Diego Gavilán se desentendem dentro da área do Grêmio, e o volante desfere um soco com o punho esquerdo no chileno do Palmeiras.

Poucos dias depois, o paraguaio seria julgado e condenado pelo STJD a 120 dias de suspensão, encerrando sua passagem pelo Estádio Olímpico.

Quase sete anos depois, Gavilán consegue até rir do incidente. "Tomara que meu filho nunca assista a esse vídeo", afirma o agora ex-jogador em entrevista exclusiva ao ESPN.com.br. O lateral de origem que se tornou volante pelas mãos de Muricy Ramalho no Internacional tem apenas 34 anos, mas uma lesão antiga no joelho o fez se aposentar cedo. Hoje, ele dá os primeiros passos como técnico na segunda divisão de seu país, no pequeno Olimpia de Itá, e tem o ex-treinador colorado e atualmente no São Paulo como grande referência para a nova carreira.

O meio-campista tem passagens marcantes por Inter e Grêmio - campeão gaúcho quatro vezes, três pelos colorados e uma com os tricolores, e finalista da Libertadores em 2007 com o então time de Mano Menezes - e outras nem tantas por Flamengo e Portuguesa. No Brasil, é lembrado como um volante pegador, mas leal. A não ser pela agressão a Valdivia. Ele admite o erro, se negou a comentar as "palavras impublicáveis" que teriam sido ditas pelo chileno, mas garante que o caso ficou para trás. 

"Se hoje eu me encontrar com o Valdivia, vou cumprimenta-lo, lhe dar um abraço, e se ele quiser comer um churrasco, vamos comer", garantiu o jogador de 43 partidas pela seleção paraguaia e duas Copas do Mundo no currículo.

Leia abaixo a entrevista na íntegra com Diego Gavilán

ESPN.com.br - Você está com apenas 34 anos. Por que se aposentou tão cedo?
Diego Gavilán - Na verdade porque meu joelho começou a sentir uma antiga lesão que eu tive na época do início da carreira e foi aumentando o incômodo. O último passo da minha carreira acabou em uma cirurgia de artroscopia que foi feita pelos médicos da seleção paraguaia. Conjuntamente, nós tomamos a decisão de parar, porque estava quase no limite com relação à exigência que é preciso ter com relação ao treinamento de competição máxima, que o futebol exige, e isso fez com que eu tomasse a decisão de poder parar e me dedicar a outra coisa, porque tem que ter em conta que na vida tem muita vida ainda, tem muito futuro pela frente, e eu tive uma carreira aceitável para poder tomar essa decisão sem problema nenhum.

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Técnico Diego Gavilán (2º da esq. à dir.) com o Olimpia de Itá
Técnico Diego Gavilán (2º da esq. à dir.) com o Olimpia de Itá

Desde quando surgiu a ideia de se tornar técnico?
Nos últimos anos da minha carreira já comecei a tomar a ideia da possibilidade de ser treinador. Principalmente porque nas últimas equipes que eu joguei tinham muitos jovens, e isso fez com que as pessoas começassem a olhar meu caráter, minha personalidade, de poder passar experiência, passar instruções dentro de campo, e aí você acrescentando essa ideia. E acabando a carreira, fiz o curso de treinador aqui no Paraguai e tomei a decisão de começar a carreira, que já começou logo no ano passado com a categoria de base do Cerro Porteño, coisa que para mim foi muito importante, porque trabalhar com os jovens não é fácil, poder trabalhar com a parte técnica, tática, psicológica é importante. E agora nessa nova empreitada com o Olimpia de Itá, na segunda divisão, é outro ritmo, outra exigência, né? Então é um desafio muito importante, levando em conta que a gente pegou essa equipe no último lugar. Estamos começando a trabalhar e tentando levantar para conseguir o objetivo, que é manter a equipe na segunda divisão.

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O então lateral direito com a camisa do Newcastle
O então lateral direito com a camisa do Newcastle

Você jogou por vários países - Inglaterra, Brasil, México, Argentina... Quais técnicos foram sua Inspiração para se tornar técnico?
Verdade, eu tive várias pessoas, vários treinadores que ajudaram a desenvolver minha personalidade, meu caráter, minha maneira de trabalhar, minha metodologia. Bobby Robson (lenda do Newcastle) na Inglaterra, (Sergio) Markarián e Tata Martino na seleção paraguaia, mas acho que quem marcou essa direção de treinador foi o Muricy. Eu trabalhei com ele três anos, e ele me mostrou uma posição de volante que é preciso ser muito tático, precisa aprender muito da parte tática, e ele me ensinou muito. Ele me mostrou muita coisa com relação à posição, a movimentação do resto do elenco, de uma equipe dentro de campo, a formação de uma equipe e o manejo dentro do vestiário. Isso fez com que pudesse apresentar minha ideia de ser treinador. Aliás, foi o treinador que, embora ele estivesse em São Paulo e eu no Grêmio em 2007, conversávamos, continuamos falando cada um de suas equipes, futebol atual, do que estávamos assistindo... E depois chegou Mano Menezes, que é uma pessoa também muito criteriosa, estratégica, e isso ajuda, vai somando. Acho que são as duas pessoas que me ajudaram muito com relação especificamente à parte tática e estratégica. Agora, têm treinadores que me ajudaram muito na parte de manejo do grupo, vestiário, relacionamento com jogadores. Muitos me ajudaram na parte humana, tem que levar em conta que embora sejam jogadores profissionais são pessoas, seres humanos também.

Recentemente vimos ex-jogadores da seleção com Chiqui Arce (Cerro Porteño), Gustavo Morinigo (Nacional) e Pedro Sarabia (Libertad) se tornarem técnicos. Era o momento de renovar os treinadores no Paraguai?
Acho que sim. Na verdade eu nunca vi uma geração de técnicos bem-sucedida. Você citou o nome do Arce, do Morinigo, do Sarabia, que já foram campeões em suas respectivas equipes - Morinigo chegou até à final da Libertadores, coisa que não é fácil, fez um baita trabalho. É como jogador de futebol também: tem que ir se renovando à medida que vai passando o tempo, se atualizando, se capacitando. E são treinadores que vão chegar longe, que tem qualidade, capacidade. O profissional paraguaio tem capacidade, agora a oportunidade e a confiança no projeto em longo prazo é muito importante, e infelizmente o futebol às vezes é bem ingrato, você não tem tempo para fazer o projeto, para manter a metodologia de cada treinador, e isso, lógico, no futebol atual, é bem complicado. Mas aqueles clubes que, principalmente, acreditam na filosofia do projeto em longo prazo, têm resultado. O Nacional tem um projeto de quase quatro anos, e o resultado está aí, pela primeira vez chegou a uma final de Libertadores. Isso não é à toa, já tem um trabalho bem feito, uma organização por parte do clube, e isso ajuda muito para um treinador desenvolver seu estilo de trabalho.

Nos últimos anos, a seleção paraguaia teve muitos técnicos estrangeiros (Gerardo Martino, Sergio Markarián, Gerardo Pelusso), e Arce ficou pouco tempo à frente. Você acredita que é a hora de a seleção ter um técnico local?
O profissional paraguaio tem capacidade, mas acho que passa mais pela credibilidade do trabalho da diretoria, da associação, e principalmente dar a liberdade de poder fazer o seu trabalho. Em contrapartida, chega aqui um estrangeiro, com todo o respeito, e dão toda a estrutura (financeira, de trabalho), trabalham tranquilamente, e o resultado às vezes é igual ou pior, o que qualquer treinador paraguaio pode fazer tranquilamente. Agora a credibilidade, a porcentagem de erro que tem um paraguaio é muito menor com relação ao estrangeiro, isso sim. Aqui não tem desculpa: o limite de erro é muito pouco, a margem de erro é muita pouca com relação a um treinador estrangeiro que pode vir, não ter resultado, mas fica por mais tempo.

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Diego Gavilán em ação pelo Internacional em 2003
Diego Gavilán em ação pelo Internacional em 2003

Falando de sua carreira como jogador no Brasil, como foi atuar por Internacional e depois no maior rival, o Grêmio?
A passagem pelo Inter foi sensacional, foi o clube que abriu as portas no Brasil para me mostrar. Tive três anos maravilhosos, de muitas conquistas, alegrias, conheci excelentes pessoas e profissionais, jogadores que ao longo dos três anos foram formando o Inter campeão do mundo. Foi um time que o Muricy formou em 2003, infelizmente em 2006 decidi ir para a Argentina. Mas tive o Inter como minha casa, o pessoal me fazia sentir parte do clube, para que eu pudesse trabalhar tranquilo. Eu me sentia à vontade, a minha família também, e foi o ano que individualmente tive um bom rendimento, foram mais alegrias do que tristezas. Saí pela porta da frente. Depois, a volta para o Grêmio foi tranquila. Era só acreditar no meu trabalho, no meu potencial, e me inserir rápido no clube. É lógico que a credibilidade sobre a minha pessoa por ter vindo do Internacional era de pessoas que duvidavam do meu futebol. Mas nesse ano foi muito forte com relação às coisas que aconteceram: ganhamos o Gauchão, chegamos à final da Libertadores, a torcida já começou a gostar do meu futebol, da minha maneira de trabalhar, de jogar, e principalmente da minha maneira de me manter dentro do clube, e isso me ajudou muito. Pude ter um ano feliz dentro do Grêmio também.

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Volante paraguaio chegou à final da Libertadores-2007 com o Grêmio
Volante na final da Libertadores-2007 pelo Grêmio

Você quer treinar os clubes pelos quais passou no Brasil?
Sim, lógico que sim. Minha meta em longo prazo é treinar no Brasil. É um objetivo, estou me preparando. Também por isso que há pouco tempo fiz um estágio com Enderson Moreira em sua passagem pelo Grêmio. Eu tenho um relacionamento muito forte com o futebol brasileiro. Para mim, a minha maneira de trabalhar, minha metodologia é mais ou menos bem parecida com a escola brasileira. Futebol brasileiro tem toda a estrutura de trabalho, tem todo o material financeiro para poder pensar que um dia eu possa pensar em treinar no Brasil. Aliás, se não me engano, desde que eu nasci não tenho conhecimento. É um dos objetivos individuais que tenho para poder treinar. Eu me preparo para isso. Sei que estou começando, que a caminhada é longa, dura, mas tenho objetivos bem definidos, e um deles é treinar no Brasil. Se você me perguntar se quero treinar as equipes em que joguei, vou dizer que sim. Mas treinar qualquer time do Brasil tem que ter a capacidade, principalmente a oportunidade, e estar preparado para assumir esse desafio. Para isso que estou trabalhando no começo da minha carreira.

Também aqui você teve passagens rápidas por Flamengo e Portuguesa. Do que se lembra?
Foi curta. Infelizmente no Flamengo não tive espaço dentro do elenco para mostrar meu futebol. Naquela época o Joel Santana já tinha o time formado. Não consegui mostrar tudo o que poderia ter dado, da mesma maneira que joguei no Inter e no Grêmio. A Portuguesa tinha um elenco muito jovem, que tentamos ajudar com a experiência, mas infelizmente naquela época caímos para a segunda divisão, e isso fica marcado. Mas a minha passagem pelo futebol brasileiro fica mais marcada pelas vitórias que eu tive no Inter e no Grêmio. Fica uma boa recordação pelas passagens com Flamengo e Portuguesa, porque me trataram bem, fizemos um trabalho profissionalmente bem feito. Jogar ou não jogar já é outra coisa, isso é coisa que a gente não pode discutir.

Sei que o assunto é complicado para você, mas tenho que te perguntar sobre Valdivia. Primeiro, ele é muito chato em campo?
É chato, lógico, para qualquer volante, e eu como treinador hoje gostaria de ter um jogador desse tipo, diferenciado, de classe A, de elite, que tem experiência, qualidade, técnica, movimentação. Para um meia como ele é muito importante. Jogando do outro lado é complicado. Naquela época, bom, a coisa aconteceu, eu peguei a punição, e hoje é coisa registrada, porque a gente não quer lembrar essas coisas. Mas faz parte da carreira, são 14 anos de carreira, e nem tudo é cor de rosa. Mas fica na lembrança, e tomara que meu filho nunca assista a esse vídeo.

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O soco desferido por Gavilán em Valdivia há sete anos
O soco desferido por Gavilán em Valdivia há sete anos

Depois que aconteceu sua agressão a Valdivia, você disse que acabou sendo levado pela provocação do chileno com "palavras impublicáveis". Hoje você pode dizê-las?
Na verdade foram coisas que são relacionadas com o futebol. Sou uma pessoa que, como sou treinador e há pouco tempo deixei de ser profissional, sempre mantenho o código profissional, seja dentro ou fora de campo. Nunca vou falar coisas que acontecem dentro de campo ou que falo com outros treinadores. Tenho um respeito muito grande pelos profissionais, e as coisas que acontecem dentro de campo ficam ali. Se hoje eu me encontrar com o Valdivia, vou cumprimenta-lo, lhe dar um abraço, e se ele quiser comer um churrasco, vamos comer. Isso fica para a história. Assim como teve com Valdivia, teve outros casos que logicamente não acabaram em soco, a todo minuto tem no futebol. Discussão tem a todo minuto no futebol, ainda mais em uma situação como aquela, eu estava no Grêmio, ele estava no Palmeiras, os dois estavam jogando por uma vaga na Libertadores. Acontece, mas o que aconteceu naquela época eu não vou falar.

Você pegou 120 dias de suspensão pelo soco. Nesta semana tivemos o caso aqui no Brasil do meia do Corinthians Petros, que recebeu 180 dias de punição por agredir um árbitro. Você considera a sua punição e a dele como excessivas?
Com relação a uma agressão, não vou discutir, porque é uma coisa não tão bem feita. Sou contra a violência, a agressão entre colegas, contra árbitros. Eu mantenho meu conceito. Agora, acho que 180 dias para separar um jogador é duro, porque tem uma família por trás, tem que ter uma situação de apelação, tem que ver alguma coisa no Ministério do Trabalho, porque o cidadão não pode ficar 180 dias sem jogar, é a única coisa que ele faz para poder manter sua família. Pode ter outras maneiras de poder cumprir essa punição. Pegar 120, 180 dias é uma coisa que poderia ser modificada, ter uma pequena mudança, de maneira que possa punir o jogador, mas não possa ficar fora, sem trabalhar. É uma coisa que está levando para fora seu trabalho, sua família. É muito fácil para a Justiça dizer ‘Bom, esse jogador tem que ser punido por 180 dias' e deu. Mas tem que se colocar também no lado do jogador para poder tentar ser equilibrada a punição, buscar uma opção mais leve, para que ele possa continuar trabalhando.

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