Líder do 'Bom Senso' das quadras, Neto cobra fim dos 'escravos do esporte' e revela mágoa com Manoel Tobias

Thiago Cara, do ESPN.com.br
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Fixo Neto foi herói do título mundial da seleção brasileira de futsal em 2012
Fixo Neto foi herói do título mundial da seleção brasileira de futsal em 2012

Contratado no início da temporada, o fixo Neto ainda não estreou pelo Corinthians e já completa mais de um ano afastado das quadras brasileiras. O período distante, contudo, não impede que o fixo seja um dos melhores nomes para tratar sobre a situação do esporte no Brasil. Um dos líderes do movimento que motivou a troca no comando da Confederação Brasileira de Futsal (CBFS), o jogador afirmou querer ainda mais mudanças. E não só no mundo da bola pesada.

Neto, ao lado de Falcão, foi um dos jogadores que anunciou o afastamento da seleção brasileira enquanto o diretor Edson Nogueira estivesse na confederação. O dirigente, segundo eles, era responsável por liderar um boicote àqueles que gostariam de ver mudanças na gestão da modalidade no Brasil. Os atletas levaram a melhor na queda de braço e conseguiram mudanças na presidência, diretoria e comissão técnica da equipe verde e amarela.

Além de Edson, caíram também Aécio de Borba, presidente da CBFS desde 1979; o técnico Ney Pereira e também seu auxiliar, Manoel Tobias. O ex-craque da seleção, inclusive, é um dos que mais decepcionou Neto em meio aos problemas. "Ele não precisava do cargo", lamentou. "Em nenhum momento brigou pelos jogadores, viu só o lado dele", continuou o fixo do Corinthians, em entrevista ao ESPN.com.br.

Neto também revelou que está acompanhando movimentos em outros esportes, também lutando por melhorias para os atletas, como é o caso do ‘Bom Senso FC', no futebol de campo. "Os atletas são escravos do esporte. No futebol, que tem concentração para quase todos os jogos, eles acabam passando mais tempo no hotel do que em casa... Isso tem que mudar", cobrou. "A gente tem que parar de tratar o atleta como uma máquina."

Leia, na íntegra, a entrevista com o fixo Neto, do Corinthians e da seleção brasileira:

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Neto e Falcão, em ação pela seleção no Mundial da Tailândia
Neto e Falcão, em ação pela seleção no Mundial

ESPN.com.br: Como você vê as mudanças na Confederação Brasileira de Futsal?
Neto: Em teoria, as mudanças estão acontecendo. A gente sabe que ainda tem muita coisa a ser mudada dentro da Confederação, e a gente espera que reverta para o desenvolvimento do esporte. Já houve algumas mudanças, na presidência, diretoria e comissão técnica, que era uma coisa que estava deixando a desejar. Todo esse boicote, essa ditadura que estava implantada, por fim, acabou, e colocaram pessoas competentes na comissão técnica. Que esse treinador possa ter tranquilidade e autonomia, que é o principal, para convocar os melhores que ele acha, e isso a gente sabe que vai acontecer. Não só eu, mas vários outros atletas, voltaram por isso. Esse prazer de defender a seleção foi interrompido por um momento, mas voltou.

O que aconteceu para que você, Falcão e Tiago (então goleiro de Krona/Joinville) fossem afastados?
Na primeira convocação pós-Mundial, tivemos uma reunião com o ex-diretor e pedimos, não exigimos, uma mudança, coisas simples que deveriam ser feitas, para essa nova geração poder trabalhar com tranquilidade. Num primeiro momento, ele (Edson Nogueira) se mostrou muito solícito a esses novos pedidos. Disse que estava do nosso lado, concordou que a Confederação não poderia estar naquele estágio sendo sete vezes campeã mundial... Mas, assim que acabou a reunião, pelo que ficamos sabendo, ele foi à presidência e disse que nem eu, nem o Falcão, nem o Tiago seríamos convocados enquanto ele estivesse no cargo. Começaram os boicotes, a lista de convocados passava por ele, que tirava nossos nomes e colocava outros. Nesse primeiro momento, não sabíamos o porquê, mas depois, como tudo nessa vida, as coisas vieram à tona. O treinador (Ney Pereira) abriu para nós e, com isso, foi tirado o prazer de servir a seleção também enquanto ele tivesse. Agora, as mudanças aconteceram, e acho que esse prazer, de defender a seleção, nunca deixou de tomar conta de qualquer jogador.

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Ficou alguma mágoa com Ney Pereira também?
A gente brinca que ele meio que caiu de paraquedas ali. A mágoa existe, porque um técnico de uma seleção brasileira não pode ser conivente com esse tipo de coisa. Os jogadores que ele acredita serem os melhores ele tem que brigar para que sejam convocados. Isso não aconteceu, mas minha mágoa não é tão grande quanto com o diretor e o próprio Manoel Tobias (então auxiliar de Ney), que é um jogador consagrado, não precisava tanto do cargo quanto o Ney e em nenhum momento brigou pelos jogadores, viu só o lado dele. A mágoa maior são com essas duas pessoas... O Ney também tem sua parcela, mas torço para que ele volte a trabalhar e não fique na geladeira, como está acontecendo.

Nos campos, o Bom Senso também tenta mudanças no esporte, como vocês no futsal. Como vê esse movimento?
Acho que tudo é válido. A gente tem que parar de tratar o atleta como uma máquina. A gente sabe que a quantidade de jogos é excessiva, e eles brigam principalmente por isso. Na parte administrativa nem tanto, ainda que seja um ponto... Converso muito com o Alex, que é um dos líderes... O esporte é tão bonito, mas a gente tem que tratar como qualquer profissão. A gente tem que ter as contas em dia. O atleta depende do salário em dia, e a gente vê muitos casos de inadimplência. Pessoas competentes devem olhar para o esporte não só como meio de negócio, mas também para os atletas, para que as condições sejam cada vez melhores. Apoio para que eles consigam as mesmas melhorias que conseguimos no futebol. Mas ainda tem muita água para rolar debaixo da ponte. A briga é árdua.

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Neto ainda não estreou pelo Corinthians
Neto ainda não estreou pelo Corinthians

No futsal, a primeira pauta de vocês era a de mudanças na direção da CBFS, algo que conseguiram... Você crê também em vitória dos atletas do Bom Senso?
Eu acredito que seja como no futsal. Tudo que desejávamos, não vai acontecer. Mas conseguindo uma porcentagem alta daquilo que planejávamos, é um passo adiante. No caso deles não vai ser diferente. Algumas mudanças, sim, vão conseguir; outras, não. Mas as que eles consiguirem vão beneficiar os atletas. Uma hora as pessoas tem que dar o braço a torcer. Os grandes artistas do espetáculo são os atletas; sem eles, não vão conseguir vender o produto da mesma forma. Com atletas de qualidade, a facilidade aumenta. Que de uma vez por todas o esporte volte a crescer no Brasil.

Você jogou muito tempo na Espanha e, mais recentemente, na Rússia. Por que esses dois centros atraem tanto os jogadores brasileiros? O que muda daqui para lá?
Eu comento com todo mundo que vem perguntar que a diferença é que lá você consegue viver. Tem um calendário. Acaba uma temporada, você já sabe quando vai jogar na próxima, quando vai ter folga, os dias dos jogos, quem vai disputar... Tudo. Essa organização aqui no Brasil não tem. Os atletas são escravos do esporte. No futebol, que tem concentração para quase todos os jogos, eles acabam passando mais tempo no hotel do que em casa... Isso tem que mudar. O planejamento lá é muito detalhado, e acaba beneficiando o atleta. Aqui só beneficia o poder econômico.

Com 32 anos, você crê que vai ver essa mudança no futsal brasileiro?
Se eu ver, vou aproveitar muito pouco. Essa briga não somos nós que vamos usufruir. Talvez, no futuro, nos agradeçam por isso que estamos brigando... Mas não é nem a questão de que quero fazer para aproveitar, quero ter a consciência limpa de que fiz o que acreditava e que daqui para frente o esporte que eu amo, que é o futsal, consiga crescer.

Falando sobre o retorno ao Brasil, o que falta para você estrear pelo Corinthians?
É questão administrativa. Está faltando apenas um pronunciamento da Fifa. Acredito que já esteja bem próximo, mas não dá para falar uma data... Espero poder em breve estrear...O problema é que acabei tendo uma suspensão na Rússia e, quando fez a transferência, o pessoal notificou essa punição na Fifa. A gente sabe que a Fifa vive muito do futebol, então, a gente espera a boa vontade deles. É questão burocrática mesmo. Espero que as pessoas competentes resolvam o mais rápido possível.

E, enfim, o Corinthians conseguirá o título da Liga Futsal?
É o que desejamos. Nossa equipe é muito competitiva, está entre as melhores equipes do Brasil, que vai disputar o título. Espero que a gente possa chegar em uma final e que a gente possa, realmente, disputar o título. Chegando, é 50%, 50%. Vamos brigar por isso. 

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