Inspirado no Bope, Argel ensina a salvar times do rebaixamento: 'Tem que espremer jogador'

Francisco De Laurentiis, do ESPN.com.br, e Vladimir Bianchini, da Rádio ESPN
Cristiano Andujar/Getty Images
Argel Clayton Gol Figueirense Sport Campeonato Brasileiro 03/08/2014
Argel chegou e tirou o Figueirense da lanterna e da zona do rebaixamento

Nos últimos anos, ninguém salvou mais times do rebaixamento no futebol brasileiro que o técnico Argélico Fucks, o Argel, ex-zagueiro durão com passagens por Internacional, Palmeiras, Santos, Cruzeiro, Porto, Benfica e seleção brasileira.

No Campeonato Paulista, conseguiu deixar Botafogo-SP e Portuguesa na elite, mesmo quando a degola parecia certa. Já no Brasileirão, escapou em 2013 com o Criciúma de maneira espetacular, quando os matemáticos já decretavam a queda dos catarinenses.

Na coletiva após o último jogo do torneio, Argel bradou, aliviado: "Missão dada é missão cumprida".

É com base no lema do Bope, o Batalhão de Operações Especiais da Polícia do Rio de Janeiro, que esse gaúcho de 39 anos salva equipes do rebaixamento pelo Brasil afora.

"Gosto de ter um time de soldados, que entra em campo e se doa de corpo e alma", admite o comandante da tropa alvinegra, em entrevista à Rádio ESPN e ao ESPN.com.br.

Neste ano, assumiu o Figueirense na 12ª rodada do Campeonato Brasileiro. Apesar de levar 5 a 0 do Cruzeiro em sua estreia, o técnico conquistou duas vitórias seguidas nas últimas rodadas e tirou a equipe de Florianópolis da lanterna e da zona da degola com o suado 1 a 0 sobre a rival Chapecoense, no último domingo.

Será que vem mais um salvamento por aí?

Alan Pedro/Getty Images
Marquinhos Comemora Gol Figueirense Chapecoense Campeonato Brasileiro 10/08/2014
Argel tirou o Figueirense da zona da degola

"Num clube de futebol, não basta só motivação. Senão, os presidentes contratariam um psicólogo e resolveriam os problemas. Comigo é diferente. Exijo trabalho, dedicação, seriedade e profissionalismo. Os jogadores têm que comprar sua ideia e entender que só há uma fórmula para o sucesso: trabalhar. Tem que espremer o jogador", afirmou.

Apesar de admitir que gosta de "apagar incêndios", o treinador, que está na carreira há sete anos, diz que em breve sua chance em um time grande irá chegar em breve.

"Minha carreira está sendo bem direcionada. Estou em uma diretriz boa, mostrando meu trabalho em clubes que vivem situação complicada. Venho mostrando seriedade e comando. Hoje em dia, é importante o treinador ter o comando do vestiário, e os jogadores acreditarem nele. Essa é a minha característica", salientou. 

"É nas dificuldades que a gente vê os grandes comandantes", completou.

Na entrevista, Argel também reclamou da mentalidade dos dirigentes brasileiros, que demitem treinadores a rodo, contou que já tem a carreira planejada até os 55 anos e contou sobre seu pouco conhecido lado descontraído.

Confira a entrevista de Argel à Rádio ESPN e ESPN.com.br:

ESPN: Qual o sentimento de ver o Figueirense tão rápido fora da degola?
Argel: Claro que a gente gostaria que já fosse dia 7 de dezembro [última data do Campeonato Brasileiro], que é quando a gente precisa estar fora da zona do rebaixamento. Peguei o time na lanterna do campeonato, e conseguimos sair agora, mas sabemos a dificuldade que vai ser até o final. Não tem muito o que comemorar, não. Temos que manter essa batida, essa pegada, essa concentração, esse foco, e aí no dia 7 de dezembro confirmar a permanência na elite, que é o objetivo do Figueira.

Gazeta Press
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ESPN: Qual é o segredo para salvar tantos times em série de rebaixamentos?
Argel: Estou acostumado com esse ambiente. Salvei o Criciúma em situação delicada, depois peguei a Portuguesa na lanterna do Campeonato Paulista e deixei em 10° lugar. Se a Lusa vai jogar a primeira divisão ano que vem, é pelo nsso trabalho. Estou acostumado a pegar time em momento ruim. Pra mim, (salvar times do rebaixamento) é uma virtude. Quando os presidentes dos clubes me contratam para trabalhar, é sinal que eles têm confiança no meu trabalho. É nas dificuldades que a gente vê os grandes comandantes. Não é novidade nenhuma pra mim trabalhar com time em zona do rebaixamento. Gosto de arrumar a casa. Essa é a minha característica.

ESPN: Na última rodada, você ganhou da Chapecoense em Chapecó, coisa que poucos conseguiram fazer. Como você motivou seus jogadores?
Argel: O jogo foi muito difícil. A Chapeconse é muito forte em casa, ganhou do Palmeiras, do Flamengo, do Bahia, vem com um handicap muito bom em Chapecó. O Figueirense não ganhava da Chapecoense desde 2007, e quebramos esse tabu. Em clube de futebol, não basta só ter motivação, motivar jogador. Senão, o presidente contrataria um psicólogo, um palestrante, alguma coisa desse tipo. Treinador de futebol é diferente. Existe trabalho, dedicação, seriedade e profissionalismo, apenas isso. Claro que tem também a parte psicológica, a parte motivacional, mas é trabalho que resolve.

Gazeta Press
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Argel: 'Missão dada é missão cumprida'

ESPN: E o que define sua filosofia de trabalho? Você já usou até lema do Bope uma vez...
Argel: Os jogadores têm que comrar a ideia do que você pensa do futebol, e entenderem que só há uma fórmula para o sucesso. Eles (jogadores do Figueirense) têm aceitado minha forma de trabalhar. Temos um grupo de qualidade. Foi por isso que vim para o Figueirense, porque acredito nesses atletas. Aqui só tem jogador rodado, experiente, que passou por grandes clubes. O Figueirense é muito bem estruturado, com salário em dia. Nada motiva mais o treinador que o grupo ter o salário em dia. Aí tem que espremer jogador, e você pode fazer isso, porque o atleta está com cabeça boa e tranquilo para trabalhar. Cada jogo está sendo uma final para nós, encaramos assim. E nem comemoram essa saída da zona do rebaixamento, porque só tem que comemorar no dia 7 de dezembro. Ainda vamos sofrer muito, tem umas oito, nove equipes brigando pra não cair, e muito time de ponta. Tem que trabalhar muito e se dedicar. Se trabalhando muito já é difícil, imagina se não trabalhar... Mas estou muito contente com a resposta que os jogadores estão dando.

ESPN: Você sempre salva o time do rebaixamento e sai em seguida. Quando acha que vai ter a chance de fazer um trabalho longo?
Argel: Vou transferir essa pergunta: me fala um treinador que ficou trêsm quatro anos em um clube do Brasil... É praticamente impossível quase não existe. É claro que eu gostaria (de fazer um trabalho longo), e sei que estou preparado. Tenho 39 anos, sete como treinador, 15 clubes no currículo. Já disputei Paulista, Catarinense, Gaúcho, comandei três times em Série A, outros em Série B e Série C. Tenho experiência e rodagem, não comecei ontem. Mas ainda não sou treinador de ponta. Estou trabalhando e não tenho dúvida que um dia chegarei lá. Claro que seria importante pegar um trabalho no início, com pré-temporada, montagem do elenco, mas o futebol não te dá essa oportunidade. Futebol não tem tempo, ele tem pressa. Você faz um trabalho aqui, no outro dia está em outro lugar. Essa é a característica do futebol brasileiro, dos treinadores daqui. É muito difícil ver um treinador ficar dois anos em um time. Se ele conseguir ficar um ano em uma equipe de ponta, pode se considerar um sobrevivente. Essa é a cultura do futebol brasileiro, dos nossos dirigentes, da imprensa, dos torcedores... Olha o treinador do Palmeiras [Ricardo Gareca]. Chegou ontem e já está sofrendo uma pressão monstra. Você contrata um cara de fora do país, o resultado não vem e a cobrança é absurda. Mas tem uma coisa também: pegar um clube na situação que eu pego, como Criciúma, Portuguesa, Figueirense, você tem que quebrar mais a cabeça, e por isso seu trabalho é mais valorizado, porque não foi você que montou o time, mas tem 10 dias pra resolver tudo. Ainda bem que tenho esse equilíbrio de conseguir fazer a equipe entender o mais rápido possível o que eu quero.

Agência Estado
Galeano, Argel e Luis Cláudio  em jogo do Palmeiras na Libertadores de 2000
Argel (c) nos tempos de zagueiro do Palmeiras

ESPN: Acha que terá oportunidade em um time grande algum dia?
Argel: Não tenho dúvida nenhuma. Não tenho nem 40 anos ainda, sou novo, já já vou bater num clube grande, de ponta, do futebol brasileiro. Até porque estou preparado pra isso. Minha carreira diz isso, meu currículo, meu pedigree. Como jogador, joguei em nove times, um maior que o outro. Como treinador, não tenho dúvida que vou bater nesses clubes grandes, como Palmeiras, Santos, Inter, Porto, Benfica... Minha carreira está sendo bem direcionada. Estou em uma diretriz boa, mostrando meu trabalho em clubes que vivem situação complicada. Venho mostrando seriedade e comando. Hoje em dia, é importante o treinador ter o comando do vestiário, e os jogadores acreditarem nele. Essa é a minha característica.

ESPN: Desde os tempos de jogador, você tem fama de durão... Existe um Argel relax?
Argel: Sou um cara tranquilo, mas futebol pra mim é de uma seriedade muito grande. Devo tudo ao futebol. Se não fosse o futebol, nunca teria a vida que tenho, por isso tenho um respeito muito grande pelo jogo. Na hora de trabalhar, sou sério, mas tenho meus momentos de descontração. Gosto de churrasco, de tomar um vinho... Sou casado, tenho dois filhos, mas o futebol te consome muito...

Gazeta Press
Brasileiro Corinthians Criciúma Argel Fucks 19/10/13
Argel será técnico até os 55 anos

ESPN: É verdade que você já tem tudo planejado na sua carreira, inclusive a idade com que vai se aposentar?
Argel: Pensei tudo na minha carreira. Com 19 anos, pensei em parar de jogar aos 33, e parei. Foi quando comecei a trabalhar como treinador. Peguei o Mogi Mirim e subi pra primeira divisão do Paulista, e aí não parei mais. Eu vou só até os 55 como treinador, pode ter certeza. Aí darei lugar a outro, porque tudo na vida tem que ter reformulação. Com treinador, não é diferente. Precisa ter reformulação de conceitos, e já estão aparecendo técnicos mais jovens, com competência, um perfil diferente, mais inovador.

ESPN: O que você aplica dos seus tempos de zagueiro no trabalho de treinador?
Argel: Acho que minha forma de agir como jogador, meu caráter, meu profissionalismo, eu troxe para a carreira como treinador. E também aprendi uma lição: montar uma equipe ofensiva, porque a melhor defesa é o ataque. Eu joguei 18 anos na defesa e sei como zagueiro sofre. Gosto de time aguerrido, que joga com alma, que tem essa transpiração diferente, porque o futebol hoje está muito nivelado, o craque está em escassez, então, você tem que suar mais que o outro. Mas a equipe também tem que ter dinâmica, movimentação, agressividade, comprometimento... Gosto de ter um time de soldados, que entra em campo e se doa de corpo e alma. Cobro comprometimento e atitude sempre. Tem que ter muito respeito pela instituição que estamos defendendo.

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