Balcão de negócios: federação argentina revende ingressos e vira alvo de investigação

Camila Mattoso, de São Paulo (SP) e Gabriela Moreira, do Rio de Janeiro (RJ)
Delegação argentina vende ingressos de dentro do hotel em Brasília

De um lado, Romero, Mascherano e Messi caminham pelo hotel Radisson Barra, no Rio de Janeiro, na véspera da final do Mundial. Do outro, membros da federação argentina (AFA) vendem ingressos para torcedores que ainda não tinham vaga garantida para assistir ao duelo deste domingo, contra a Alemanha, no Maracanã. Foi dessa forma que dezenas de pessoas conseguiram marcar presença no último jogo da competição. 

A cena se repetiu em todas as sedes por onde a seleção de Alejandro Sabella passou, sempre um dia antes da partida, conforme apurou a reportagem. O balcão de negócios começou a chamar a atenção e virou alvo de uma operação da subsecretaria de Inteligência do Rio e da Delegacia de Repressão a Crimes Organizados (Draco), que durou toda a tarde deste sábado. A suspeita principal é de que as entradas foram revendidas durante toda a Copa do Mundo por preços acima do mercado. 

Todos os ingressos estão em nome da própria AFA, da qual o presidente é também vice-presidente da Fifa, Julio Humberto Grondona. Na cena do vídeo obtido pela reportagem, com imagens feitas pela Inteligência do Rio, o gerente de seleções da Argentina, Omar Souto, recebe um dinheiro (sempre dólares) por ingressos que acabam de ser vendidos. O episódio gravado aconteceu em Brasília, onde a seleção enfrentou a Bélgica.

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Quatro torcedores foram levados para a delegacia
Hotéis da Argentina viraram balcão de negócios

Na capital federal, o órgão de segurança ainda flagrou Julio Ricardo Grondona, filho mais novo do chefão da AFA e da Fifa, participando das negociações. No Rio, era Alberto Capuchetti, ex-militar e chefe de segurança da seleção quem organizava a revenda.

Apesar da filmagem ter registrado a venda no meio do hall, a comercialização acontecia da seguinte forma na maior parte das vezes: no lobby dos hotéis das sedes por onde passou a federação montava uma espécie de bilheteria, com pelo menos seis pessoas atendendo aos "clientes" que apareciam.

A revenda não era para qualquer um, no entanto. Quem chegava, e só argentinos eram recebidos, havia que dizer o nome de algum contato importante que tinha lá dentro e só assim era liberado. De todo esse processo, uma coisa chamou mais a atenção dos investigadores: o momento de entega do ticket e pagamento acontecia dentro de uma sala de portas fechadas. 

Apesar das suspeitas, a inteligência do Rio e a Draco não conseguiram fazer o flagrante. Quatro pessoas foram encaminhadas para a delegacia depois de receberem as entradas, mas os fiéis compradores negaram que tenham adquirido os bilhetes por preços acima do que aqueles que constavam no papel, os oficiais. O destino dos tickets é desconhecido.

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Julio Humberto Grondona ao lado de Ricardo Teixeira
Julio Humberto Grondona ao lado de Ricardo Teixeira

Nos depoimentos, as testemunhas afirmaram que foram ao hotel da Barra depois de terem combinado previamente com Luis Segura, o presidente do clube Argentino Juniors, a compra desses ingressos - cada um adquiriu quatro deles (veja as declarações abaixo, ao final da matéria, documentos obtidos pela reportagem).

Outro nome importante envolvido nas bilheterias é o de Emilio Vázquez, contador da AFA. Ele era uma das pessoas que os torcedores procuravam especialmente na capital federal. Curiosamente, logo depois de ser deportado do Brasil, o mais perigoso barra brava argentino deu uma coletiva de imprensa e afirmou que conseguiu seus ingressos justamente com esse dirigente - o torcedor estava na lista dos 2100 que não poderiam entrar no país durante a Copa do Mundo, já que estão proibidos de entrarem em estádios.

"As entradas são para atender os patrocinadores e relações públicas. Não tem nada de estranho, diz, Vázquez, para o La Nacion.

"Não me consta o que fazem com as entradas, se revendem ou não. Temos os dados pessoais de quem leva os ingressos", afirmou.

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Humbertito Grondona é o centro do vexame argentino na base
Humbertito Grondona é o centro do vexame argentino na base

Palavra da Fifa

Perguntada pela reportagem sobre a movimentação da delegação argentina, a Fifa respondeu que todas as federações recebem uma carga de ingressos e que permite a prática, desde que a venda aconteça pelo preço oficial, afim de permitir que mais torcedores dos países que não são sede possam assistir ao evento.

Outros casos 

A AFA havia sido citada anteriormente em uma outra investigação da Polícia e do Ministério Público do Rio de Janeiro. A suspeita era de que estivesse envolvida em um escândalo internacional, ao descobrirem a existência de uma rede ilegal de venda de entradas para o Mundial, que faturava cerca de 450 mil dólares por partida, comandada pelo argelino Mohamadou Lamine Fofana. 

Pelo menos quatro tickets foram achados no mercado paralelo com o nome de Humberto Grondona, um dos filhos do presidente da AFA, e também técnico do sub-20. A explicação da entidade, logo depois, foi de que o treinador deu para amigos e não sabe o que fizeram com as entradas. 

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